China e Pernambuco, tão distantes geograficamente entre si, são o foco do festival Imagem dos Povos - III Mostra Internacional Audiovisual de Ouro Preto, que começa na próxima sexta-feira na cidade histórica
A China está distante aproximados 24 mil quilômetros de Pernambuco, mas ambos se tornarão vizinhos de porta entre os dias 28 de setembro e 4 de outubro - da próxima sexta-feira até a quinta que vem, e a apenas 98 Km de Belo Horizonte. O festival Imagem dos Povos - III Mostra Internacional Audiovisual de Ouro Preto assumiu como temas deste ano o país asiático e o Estado brasileiro. A proposta do evento, inclusive, é justamente essa: colocar anualmente em foco a produção em cinema e vídeo de um lugar do mundo e de uma região do Brasil.
Na primeira edição, foram Nova Zelândia e Minas Gerais; em seguida, Índia e Rio Grande do Sul. "Buscamos modelos e experiências que utilizem a cultura local como fonte de inspiração", explica Adyr Assumpção, produtor e coordenador do festival. "O audiovisual é hoje uma ferramenta de identidade e afirmação. E temos percebido que, quanto mais atrelados ao próprio entorno ficam os produtos, maior sua repercussão fora das fronteiras". Para o tributo a China e Pernambuco, portanto, serão exibidas diversas produções em curta, longa e vídeo realizadas em ambos os lugares, complementadas por exposições de arte e pelo lançamento do livro "China: O Despertar do Dragão", de Luís Giffoni. "É apenas uma aproximação possível entre um e outro. Várias outras relações poderão ser feitas durante o festival", diz Adyr.
Gigante bem acordado No caso da China, o "boom" do cinema asiático tem muito de sua força justamente nas produções do país, capitaneadas por linguagens bastante focadas nas próprias tradições locais e em temáticas que inicialmente causam estranhamento, mas têm sido absorvidas com sucesso por platéias ocidentais. Recentemente, o Festival de Veneza, na Itália, teve boa parte de sua seleção principal vinda da China - e o grande vencedor foi o taiwanês Ang Lee, com seu "Lust, Caution". Nos dois anos anteriores, Veneza já tinha premiado produções de diretores do país: em 2006, "Em Busca da Vida", de Jia Zhang-Ke; e em 2005, o mesmo Ang Lee, desta vez em produção dos EUA, "O Segredo de Brokeback Mountain". No último Festival de Berlim, no começo de 2007, lá estava outro chinês sagrando- se ganhador: "O Casamento de Tuya", de Wang Quan’An, que estará em Ouro Preto. "Cada vez mais temos visto as diversidades chinesas através do olhar de seus cineastas", atesta Adyr. "Por mais que haja tantas regiões dentro do mesmo país, eles fazem um cinema que guarda uma identidade localizada".
O organizador do Imagem dos Povos acredita que a característica dessa identidade seja a tradição da coletividade. "Um dos principais temas dos filmes refere-se ao conflito com a modernidade e com o mundo contemporâneo. Nesse sentido, os filmes exaltam a idéia de uma experiência coletivista, e nunca individualista". Adyr ainda aponta um dado a ser pensado: o cinema do Ocidente é muito preocupado com o fator psicológico e as conseqüências do contexto na mente de um ou dois personagens. Já o que nos chega da China refere-se muito mais a uma certa falta de centro e foco - não no sentido negativo. Muito pelo contrário. "Eles enxergam os problemas sempre pensando no geral, não no particular", aponta Adyr. "É impressionante como isso está arraigado em todas as situações vividas lá. Mesmo andando na rua, naquela multidão de gente, você percebe o quanto tudo é pensado em termos coletivos, para só depois surgir a preocupação com o indivíduo".
Essa idéia pode ser apontada no filme-chinês-sensação do momento. "Em Busca da Vida", que está na programação do Imagem dos Povos, capta com delicadeza o estranhamento de uma sociedade tradicional literalmente engolfada pelo desenvolvimento. É disso que trata o cinema de Jia Zhang-Ke - o que poderá ser conferido também em "Plataforma" (2000), outro filme seu a ser exibido, sobre grupo de teatro amador obrigado a se adaptar à abertura de mercado num país completamente fechado politicamente. "Há um diálogo muito estreito com a realidade exterior ao que vivem os personagens e sem que isso se torne o tema direto dos filmes", aponta o produtor.
Uma outra vertente do cinema da China levantada por Adyr Assumpção é a diversidade cultural tão presente no país, refletida na seleção do festival em Ouro Preto. "São filmes realizados em praticamente todas as regiões chinesas, do norte ao sul, que refletem sobre o retorno às origens. Depois da explosão capitalista e industrial do país, as tradições locais se tornaram ainda mais importantes, e isso tem sido levantado pelos diretores", comenta. Além de "Em Busca da Vida" e "O Casamento de Tuya", duas das principais atrações do Imagem dos Povos, a produção chinesa também estará representada por outros títulos de relevo das gerações recentes (o cinema da China é tabulado por "ciclos" de cineastas). Da chamada quinta geração, estarão Zhang Yimou com "O Sorgo Vermelho" (1987) e Chen Kaige e seu "Adeus Minha Concubina" (1993). Já da sexta geração, estarão Zhang Yang ("Banhos", de 1999) e o citado Jia Zhang-ke.
A atriz, diretora e produtora Lucélia Santos, "íntima" da China há 20 anos por meio de viagens e projetos em co-produção, foi a principal articuladora do Imagem dos Povos para a programação dos filmes. Fã assumida do cinema chinês, Lucélia destaca o "ritmo de montagem" das obras. "Os cineastas fazem uma leitura visual da imagem que eles utilizam e há um tempo muito particular dentro da própria filmagem", exalta.
Povo arretado Em relação ao Pernambuco, o Imagem dos Povos está mais enxuto, mas não menos significativo. "Em termos de quantidade de produções, é uma seleção menos generosa do que gostaríamos que fosse, mas está muito expressiva", afirma Adyr Assumpção. Ele se refere aos três principais trabalhos que serão exibidos - "Deserto Feliz", de Paulo Caldas, recentemente premiado no Festival de Gramado; "O Côco, a Roda, o Pnêu e o Farol", de Mariana Fortes; e "Árido Movie", de Lírio Ferreira; e a curtas como "Uma Vida e Outra", de Daniel Aragão, "No Rastro do Camaleão", de Eric Laurence, e "O Jumento Santo e a Cidade que se Acabou Antes de Começar", de William Paiva e Leonardo Domingues. "Os pernambucanos superam as adversidades de produção e distribuição para chegarem fora do Estado e atingirem outras regiões do Brasil e outros países".
O que sobressai, na visão de Adyr, é a presença forte da cultura estadual nas várias maneiras de narrar as histórias em questão. "Há a mistura das tradições com o uso de novas tecnologias, o que resulta sempre numa efervescência de idéias e criatividade". Katia Mesel, responsável pela organização e curadoria da mostra, reforça a fala de Adyr: "O audiovisual pernambucano é multicultural".
Imagem dos Povos - III Mostra Internacional Audiovisual de Ouro Preto. De 28/9 a 4/11, na cidade histórica. Entrada franca. Programação completa e locais de exibição podem ser consultadas no site www.imagemdospovos.com.br
O que é esse filme?! Se vivêssemos num tempo passado, numa época em que tudo já não tivesse sido feito, eu diria que Paul Greengrass revolucionou o cinema de ação. O que ele faz aqui em termos de movimento, montagem, manutenção da tensão física e espacial, nada disso é brincadeira. Seu estilo não é o típico molde do gênero -- aquele "campo-contracampo" em que o espectador da ação vê momentos alternados do que está acontecendo.
Greengrass corta, recorta, pica e repica todas as cenas de tal maneira que é difícil não ter certeza de estarmos dentro do quadro, de não sermos algum olho que a tudo enxerga daquele corre-corre. O diretor inglês já tinha seguido essa forma em praticamente todos os seus filmes (inclusive no anterior A Supremacia Bourne), mas estou pra dizer que nunca como aqui -- nem mesmo no badalado Vôo United 93, que tinha outra pegada.
Existe um sentido de urgência em O Ultimato Bourne que torna o filme um objeto constantemente em movimento. Não é o protagonista que anda pra todo lado. Somos nós. Greengrass não se preocupa com muita lógica além daquela que se refere ao seu modo particular de filmar. Se num instante de menos de um segundo Bourne aparece pulando o muro, no instante de menos de um segundo seguinte ele já está arrombando um carro. É como se o que acontece dentro da imagem fosse mais rápido do que a própria imagem. É a velha discussão da forma em harmonia com o conteúdo: para lidar com o tensionamento dos temas do enredo de O Ultimato Bourne, só mesmo uma linguagem tão tensionada quanto.
É uma pérola do cinema físico, um estouro de ações e sensações, uma explosão cinematográfica como não se vê normalmente. Paul Greengrass alcança aqui um nível elevadíssimo para o gênero que se dispôs a trabalhar. Ele parece ter nascido para comandar a busca de Jason Bourne pela sua verdadeira identidade. Nós, daqui de dentro da sala escura, acompanhamos babando.
SCOPE: The long shots and sustained sequences you allow Judd and Shannon in the first half of the film are quite refreshing, and they make the more frantic camerawork in the second half a lot more jarring. You don’t often see that kind of breathing space being given to actors in a lot of mainstream American films these days, where even veteran directors are adopting the fast cutting model, even for simple dialogue scenes.
FRIEDKIN: Well, they’re just trying to get with the trend. I’m just sick of all that. Most of the time it’s there to disguise the fact that there’s no solid material. I don’t like most of the American films that I see. The films that interest me the most today are often from Europe, and in particular from France. Michael Haneke, for instance: The Piano Teacher (2001), and his last one, Caché (2005), this is real cinema to me. I have a DVD of that and I watch it over and over.
SCOPE: You made Bug on a relative shoestring after two mid-level studio films. What is your relationship like with the studios these days, especially in terms of the freedom they allow you?
FRIEDKIN: It’s really a question of the kind of films the big studios want to do as opposed to what I want to see. I’m much more interested in Haneke or Dominik Moll or others than in some adaptation of a comic book. I would much prefer to spend the rest of my film career making low budget, character-driven pieces, but even that’s a difficult proposition with the studios these days, where $60 million is considered low budget.
INLAND EMPIRE, de David Lynch Previsão de estréia no Brasil: vai saber...
Como assistir: por enquanto, só baixando. O filme (com áudio original) está em torrent aqui e, até onde sei, legendas em espanhol aqui.
... e outro, depois de muito mais anos
ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO, de José Mojica Marins Previsão de estréia no Brasil: ano que vem
Como assistir: clique na foto acima e veja o trailer (agradeço ao colega Leandro Caraça pela dica original).
DANIEL FILHO: O HOMEM DOS MILHÕES DE ESPECTADORES por Marcelo Miranda
(Matéria publicada no jornal O TEMPO do dia 9 de agosto de 2007)
Uma passada de olho no currículo de Daniel Filho é equivalente a fazer um retrospecto dos maiores sucessos do cinema brasileiro nos últimos dez anos. Fundador e diretor artístico da Globo Filmes (braço cinematográfico das empresas de Roberto Marinho), Daniel esteve envolvido na concepção e lançamento de O Auto da Compadecida (2000), de Guel Arraes; Sexo, Amor e Traição (2003), de Jorge Fernando; Cazuza – O Tempo Não Pára (2003), de Walter Carvalho e Sandra Werneck; e 2 Filhos de Francisco (2005), de Breno Silveira. Todos campeões de bilheteria que ultrapassaram a marca de 1 milhão de espectadores (sendo que o filme de Breno passou dos 6 milhões e é recordista do período).
Isso para ficar apenas nos trabalhos de Daniel Filho como produtor. No cargo de diretor, ele também crava recordes: Se Eu Fosse Você (2006), seu oitavo longa-metragem, fez 3,6 milhões em público no ano passado e manteve-se à frente sem maiores concorrentes por muitos e muitos meses. Pois Daniel está de volta aos cinemas a partir de amanhã, quando estréia Primo Basílio, o 10º longa de sua carreira como diretor – iniciada em 1968 com Pobre Príncipe Encantado. Adaptado do romance do escritor português Eça de Queiroz é certamente seu projeto mais ambicioso. “Não me atraio necessariamente pelas histórias que decido filmar, mas por seus gêneros e temas, pelo que eles me possibilitam”, conta Daniel. “Pensei no Basílio porque estava sentindo falta, nos filmes brasileiros, de um bom melodrama, algo que não estava sendo explorado. Acredito que haja espaço”.
Mas a escolha de adaptar o romance O Primo Basílio, romance publicado em 1878, não foi aleatória. Daniel comandou a famosa versão televisiva de 1988, protagonizada por Tony Ramos, Giulia Gam, Marília Pêra e Marcos Paulo. O texto era de Gilberto Braga e Leonor Basséres, mas a direção e produção estavam a cargo de Daniel. “Aquela foi uma idéia do Gilberto. Toquei o projeto como manda o figurino. Agora é diferente, porque eu tomei algumas liberdades”, comenta o diretor.
A maior das liberdades foi tirar a trama da Lisboa do século XIX e levá-la para uma São Paulo de 1958, em pleno processo de industrialização. Assim, a história da esposa bem casada que se envolve com o primo mulherengo e depois é chantageada pela empregada ganha ar folhetinesco tipicamente brasileiro. A decisão de mudar a ambientação foi motivada pela tentativa de Daniel Filho aproximar o universo de Eça de Queiroz com o do escritor e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues. “Tive uma forte experiência com o universo do Nelson quando dirigi episódios da série ‘A Vida como Ela É’, baseada em textos dele. Meu primeiro impulso era levar alguma coisa de sua autoria para o cinema, porque o que ele fazia eram essencialmente histórias românticas e melodramas. E pensando em Nelson, pensei no ‘Basílio’ e percebi o quanto os universos de um e de outro são semelhantes”.
O diretor enxerga na relação Eça-Nelson mais do que coincidências temáticas. Ele vê elementos parecidos no estilo. “São ambos realistas e de diálogos muito sintéticos, com poucas palavras. Eram dois mestres do português em seus respectivos países, e é claro que o Nelson bebeu alguma coisa da fonte do Eça. Se ‘O Primo Basílio’ já não tivesse sido escrito quando ele nasceu, aposto que ele o faria”, comenta Daniel. “Eles trabalham com os mesmos tipos de sentimentos, pecados, invejas e ambições”.
Foi seguindo nessa linha que Daniel Filho aumentou a força melodramática do original de Eça, colocou os personagens a circularem por São Paulo comentando os avanços do país (o pano de fundo é a construção de Brasília, para onde vai o marido traído da protagonista) e caprichou na carga erótica entre Luísa (Débora Falabella) e Basílio (Fábio Assunção). A mineira Débora embarcou de cabeça na proposta. “O Daniel sentia que faltavam filmes de amor no cinemão. E foi o meu trabalho mais intenso para cinema, porque a Luísa é uma personagem atraente que sofre grandes mudanças físicas e psicológicas”, diz a atriz. “É uma dondoca que vivia para o marido. Eu a julgaria medíocre pela forma como ela age, mas precisei acreditar nela se quisesse transmitir toda a sua força”.
Cinefilia do melodrama Daniel demonstra ser cinéfilo de coração (“vejo filme desde a primeira vez em que abri os olhos”, disse certa vez) e enumera várias produções que serviram de base para a sua vontade em dirigir um drama romântico. “Essas histórias se caracterizam por nunca acabarem bem. É só ver ...E O Vento Levou, Casablanca e Desencanto, por exemplo. Eu mesmo já dirigi um filme romântico, ‘A Dona da História’, mas era uma outra coisa. E acabava bem”, brinca.
Quando se pensa em melodrama no cinema, um dos nomes que mais vêm à baila é o do alemão Douglas Sirk, que dirigiu nos EUA dos anos 50 uma série de filmes de temática exageradamente amorosa – como Tudo o Que o Céu Permite (1955) e Palavras ao Vento (1956) – e virou referência e influência para Rainer Fassbinder e Pedro Almodóvar, entre outros. “Eu gosto muito do cinema do Sirk, mas o que tentei no ‘Basílio’ é diferente. O Sirk trabalhava para Hollywood, e isso parecia não deixar que ele fosse às últimas conseqüências, não o deixava chegar às vias de fato. No meu caso, eu tentei dar à minha narrativa um certo clima de suspense, de transmitir a idéia de que aquilo não vai dar muito certo para aqueles dois amantes”. Se funcionou ou não, Daniel prefere não dar opiniões – e nem pedir a dos outros. “Você assistiu ao filme?”, questiona ao repórter do Magazine. Dada a resposta positiva, Daniel apenas simpaticamente retruca: “Então vou falar como o Nelson Rodrigues: se gostou, exagere quando for comentar. Mas se não gostou, seja discreto”.
Diretor vê atual cinema brasileiro como “muito ruim” Daniel Filho não está apostando alto em Primo Basílio. Diz que pretendia lançar o filme com 80 cópias, mas os exibidores têm pedido tantas mais que ele deve aumentar a quantidade. “Por mim lançaria mais discretamente. Estou me arriscando com esse filme e não sei no que vai dar”. Os exibidores são espertos. Acreditam no potencial de Daniel – acrescido de toda a logística da Globo Filmes, do elenco estelar (que ainda inclui Glória Pires, Guilherme Fontes e Reynaldo Gianecchini) e da divulgação massiva que o longa deve ganhar, como aconteceu com seus trabalhos anteriores desde A Partilha (2001).
O diretor acredita que o momento atual não é dos melhores para a safra de filmes brasileiros. Classifica a produção recente como “muito ruim”. Justifica a declaração voltando a 1992, quando o cinema no país ressuscitou a partir das leis de incentivo. “Todo mundo quis sair fazendo cinema. Só que o processo demora, o cara fica anos e anos trabalhando no mesmo filme e não percebe que aquilo passou e envelheceu. Os roteiros chegam a caducar, mas essas pessoas ficam tão envolvidas que nem percebem. Aí quando vem, vem tudo de uma vez e sai o que sai”.
Em vista disso, Daniel acredita que o maior problema da desequilibrada entrada do cinema brasileiro no saldo final das bilheterias se deva menos a um problema de distribuição e exibição (normalmente os fatores apontados como o nó do circuito nacional) e mais de parâmetros estéticos. “Os filmes não têm tido comunicação com o público. Vários diretores só querem fazer filmes para festival e com foco em quem já é cinéfilo. Eu, não. Sou um cara que corro atrás e não escondo de ninguém que eu filmo para comer”, afirma.
Ele nega que a influência promovida pela Globo Filmes às produções seja suficiente para torná-las sucesso. “Quando alguém na novela fala do filme, o espectador não é obrigado a ir aos cinemas. Se ele nem é obrigado a ver a televisão, imagine ver um filme fora de casa!”. Mas e quanto aos lançamentos que sequer são citados em horário nobre da TV? “Ah, é tudo questão de anúncio. O cara, se quiser se promover, pode ir lá e pagar um anúncio. É assim que funciona. Eu pago os meus anúncios. E tenho certeza que, se o Jô Soares ou o Serginho Groisman gostarem de algum projeto, seja da Globo Filmes ou não, eles vão convidar pro programa deles”.
Paralelamente a Primo Basílio, Daniel Filho, 69 anos, não pára. “Costumo mexer com cinco ou seis roteiros simultaneamente”, conta. No momento, prepara-se para filmar, em janeiro de 2008, a continuação de Se Eu Fosse Você. Adiantar, ele não pode nada. “A história ainda é um sigilo, e isso é bom para ajudar a chamar atenção”, ironiza. Em seguida, vai se dedicar a filmes sobre o ex-presidente Getúlio Vargas e o médium Chico Xavier. “O roteiro que ficar pronto primeiro eu pego e faço. A previsão é que comece a trabalhar num deles até o final do ano que vem”.
Não bastasse a beleza que é, A Aventura, do recém-falecido Michelangelo Antonioni, o filme guarda a maravilhosa presença de Monica Vitti, atriz de extrema expressividade, com beleza e sensualidade de encher os olhos. Dentre tantas cenas, as que mais gosto estão próximas ao final, quando a personagem de Vitti, no quarto, mostra toda a inquietação pela situação delicada em que se encontra. Ela de frente ao espelho, ou seu choro abafado a correr pelos corredores, são momentos de antologia.
Abaixo um trecho da primeira metade do filme, para deleite de quem viu ou não viu:
Não sei porque diabos, mas nas últimas semanas danei a ver um monte de filmes dirigidos pelo John Huston. Foram desde descobertas a revisões - e aí entram no balaio Relíquia Macabra, O Diabo Riu por Último, O Segredo das Jóias, O Tesouro de Sierra Madre e Paixões em Fúria.
Lembro que, quando tinha uns 13 anos, uma professora exibiu em sala de aula A Bíblia, mastodonte do Huston datado de 1966 e que tinha talvez a maior ambição dentre todas as adaptações literárias da história (que Senhor dos Anéis que nada!): transpor a Bíblia Sagrada para o cinema. Eu vi o filme em péssimas condições e pedi à professora a fita emprestada. Era gravação de TV, ou seja, dublada em português. Vi aquele troço em casa por horas a fio, e depois revi mais algumas vezes. Não tinha nada de muito atrativo, ainda mais a um garoto daquela idade, mas me fascinava a simples idéia de alguém pensar em adaptar a Bíblia no cinema - isso porque nunca fui um católico praticante.
Essas lembranças, muitos anos depois, parecem explicar um pouco os motivos que me fazem seguir vendo filmes do Huston. Porque, se não é mau diretor, dos melhores ele também nunca foi. Espécie de funcionário-padrão, fez belos trabalhos, mas também mergulhou em milhares de abacaxis. Porém, a coragem, a audácia, talvez uma certa pirraça em querer acertar sempre mesmo errando tanto, fazem com que seus filmes sejam normalmente experiências prazerosas de acompanhar. É difícil detestar um filme de Huston, por mais que nos deparemos com algumas escolhas fracas ou questionáveis.
(Não revi A Bíblia desde a época de garotinho pra dizer se ele é suportável. Lembro apenas que achava algumas partes bem chatas, mas sempre me empolgava quando vinha o episódio da Arca de Noé - sobre o qual, anos depois, eu descobriria que o protagonista era interpretado por Huston em pessoa)
O nobre colega Filipe Furtado também parece um "obcecado" pelo mistério-Huston - vide este belo post em seu blog. E como negar um cineasta que comandou mais de 50 filmes e trabalhou incessantemente a vida inteira em projetos de envergadura marketeira, com astros do naipe de Bogart, Marilyn Monroe, Michael Caine e Clark Gable?
Estou longe de ser fã de John Huston, muito longe (e existe no mundo algum cinéfilo que seja, de fato, fã de sua obra?). Mas isso não me impede de curtir bem e manter acesa a curiosidade por seus filmes. Nem que seja pra tentar descobrir se, em algum momento, ele vai arrebatar e fazer o olho e o coração palpitarem ao término de algum de seus filmes, como os grandes gênios conseguem.
NOTA FINAL:Huston pode não ter feito um filme realmente demolidor, mas o grande Clint Eastwood o fez sobre ele. Coração de Caçador (1980) é uma belíssima homenagem a Huston e à paixão pelo cinema. Não só é um delicado estudo de personalidade quanto traz aquela que talvez seja a grande interpretação de Eastwood num papel principal.
"Quando começo a fazer papel de bobo, pouca coisa pode me deter. Se soubesse o que ia dar, não teria nem começado - se estive com a cabeça no lugar. Mas quando a vi... quando a vi... eu já não estava com a cabeça no lugar fazia muito tempo."
Michael O'Hara, personagem interpretado por Orson Welles em A Dama de Shanghai (1948)