|
|
Quinta-feira, Setembro 30, 2004
Posted
1:23 AM
by MARCELO MIRANDA
MONSTER - DESEJO ASSASSINO
Monster (EUA - 2003)
Direção: Patty Jenkins
Só hoje consegui ver este filme, em DVD (já que ele não estreou nos cinemas daqui de Juiz de Fora). Estava curioso, mas confesso que assisti com certa implicância, por causa de todo essa papo da Charlize Theron ter ficado feia para interpretar o papel principal. Não vejo tanta vantagem numa transformação física no cinema: acredito que a força do ator está dentro dele, e ele pode, sim, fazer um personagem feio sem que ele seja realmente feio (ou mesmo de outra nacionalidade - Marlon Brando, por exemplo, já foi chinês, italiano, mexicano etc etc, sempre sem "transformações").
Claro, Monster é inspirado em caso real. Mas qual o motivo específico de escalar uma beldade como Theron para o papel, então? Que ninguém venha com justificativas do tipo "só ela podia ser Aileen" ou "ela foi a única atriz que pensei", porque isso é dito pra vender o filme. Então por que Theron? A resposta é simples: para gerar publicidade gratuita. Se todo mundo ficou curiosíssimo para ver a monumental Nicole Kidman de nariz postiço em As horas, imagine como seria se outra maravilha, como é Theron, se transformasse totalmente? Não deu outra: além do público, o filme conquistou os júris de Berlim, do Globo de Ouro e, claro, do Oscar (que está se especializando em valorizar "mulheres bonitas feias" - em dois anos consecutivos a Academia premiou transformações acima de atuações).
Sim, Charlize Theron está muito bem em Monster. Mas daí a glorificá-la pelo papel vai uma longa distância. Cheia de maneirismos corporais, a interpretação da atriz acaba carregada demais, na sua ânsia em NÃO parecer uma mulher bonita na pele daquela assassina. Muito melhor e mais à vontade está Christina Ricci, como a namorada da protagonista: ela emana ingenuidade, delicadeza e pura vontade de ser feliz - mesmo que para isso precise aceitar as barbaridas da amada Aileen de modo exageradamente passivo.
O filme é quase uma defesa de Aileen, a prostituta e assassina que matou vários clientes antes de ser presa e condenada à morte. No próprio making of que vem no DVD, a diretora e roteirista Jenkins assume a intenção de mostrar um "lado puro" da personagem. E é o que ela faz. Até demais. Chega-se a ter pena de Aileen. Sua imagem é vendida como a de uma mulher perdida, uma "justiceira" que queria apenas amor e não foi correspondida pelo mundo. Para isso, apelam-se a todos os clichês típicos dos "coitadinhos": a adulta violentada na infância, a desajustada que tenta se acertar na vida mas sofre todo tipo de preconceito e não tem outra saída exceto se marginalizar, a busca desenfreada pela paixão, a idéia de justiça inserida apenas na cabeça dela e por aí afora. Resultado: pobre Aileen! Não sabia o que estava fazendo!
Ah, faça-me o favor... Claro, ela era um ser humano como todos nós, tinha suas fraquezas e limitações. Mas querer que acreditemos que ela era uma injustiçada por um mundo cruel e impiedoso é demais. E é isso que trespassa por todo o filme. Patty Jenkins assume totalmente o lado de Aileen, por mais que apresente os crimes cometidos por ela - já que cada morte é mostrada como a única saída da moça, como a solução que ela tinha que seguir. Fica no ar a manipulação, a falta de objetividade. A diretora impôs por demais sua visão pessoal de uma criminosa. Não dá pra aceitar que Aileen era quase uma heroína quando se pensa nas covardias que ela cometeu. Mas Monster é totalmente estruturado pra gerar sensações de pena e compreensão no espectador. Acredita ou aceita quem quiser.
Quarta-feira, Setembro 29, 2004
Posted
2:59 PM
by MARCELO MIRANDA
TERRA DE SONHOS
In America (Irlanda / Reino Unido - 2003)
Direção: Jim Sheridan
É uma quase auto-biografia. Isso fica claro nos créditos finais, quando aparecem os nomes dos roteiristas: o próprio diretor Sheridan e suas duas filhas. O filme mostra a chegada de uma família irlandesa em busca de oportunidades e vida melhor nos EUA. Formada por pai, mãe e duas filhas, essa família está procurando não apenas trabalho, mas também redenção e liberdade.
Este, aliás, é o principal tema de Terra de sonhos: a busca por um novo começo. E diferente do que o título em português possa aparentar, nada há de sonhos nesse período de vida da tal família em Nova York. Eles passam por agonias das mais variadas, entrecortadas por alguns fiascos de sorrisos e felicidade. Mas o que pega mesmo são as dificuldades com dinheiro, com traumas do passado, com preconceitos, com relacionamentos dentro e fora de casa. Sonhos? Apenas na hora de dormir mesmo.
Lindo filme, com elenco fantástico. O ator principal, Paddy Considine - interpretando o equivalente ao diretor Sheridan na trama -, é expressivo e realista; Samantha Morton também tem essa aura de gente comum, sem glamour ou beleza artificial. Apenas a beleza que o cotidiano permite a cada um de nós. E as duas garotinhas (irmãs na vida real), que exalam inocência e maturidade ao mesmo tempo. Só não gostei tanto de Djimon Hounsou, que chegou a ser indicado ao Oscar de coadjuvante. A atuação dele é carregada, feita para chorar e instável. Muito culpa do roteiro, também: em princípio, o personagem causa medo e apreensão; basta que ele apareça em frente às garotas e torna-se um amor de pessoa. A mudança de humor soa algo forçada e não me agrada. E olha que Hounsou é talentoso, vide Amistad.
Mas o filme vale a pena. Nada muito utópico, nada muito falso, nada muito melodramático. Jim Sheridan, que já me agradou com Meu pé esquerdo, é pé-no-chão, sabe comandar as cenas e nunca resvala para o sentimentalismo barato. E o melhor: não tenta transformar a América na salvação da humanidade (como faz Spielberg e seu besta O terminal). Simplesmente a América é dos poucos caminhos possíveis de serem seguidos.
PS: gostou do Impressões Cinéfilas? Quer dar um incentivo? Então escreva para comodoro@olhoslivres.com e vote no concurso que o diretor Carlos Reinchenbach está promovendo para escolher o melhor dos blogs de cinema. Tá todo mundo fazendo sua campanhazinha, então este recém-blogueiro acaba de entrar na onda...
É só escrever pra esse endereço aí e colocar o voto na mensagem. Valeu!!
Terça-feira, Setembro 28, 2004
Posted
6:02 PM
by MARCELO MIRANDA
CRIMES DE UM DETETIVE
The singing detective (EUA - 2003)
Direção: Keith Gordon
Nunca tinha ouvido falar desse filme até ler comentário na revista SET de setembro. A história não me chamou muita atenção, mas olhando nos lançamentos de locadora, fui imediatamente conquistado pela belíssima capa do DVD. Aí arrisquei a locação, sem sequer saber a trama ou o assunto.
Se valeu a pena? Mais ou menos. O filme fala de Dan Dark, escritor de histórias policiais que está se deteriorando por conta de doença de pele. Numa mistura de musical, noir, comédia e suspense, a trama vai se desenvolvendo quase toda dentro da cabeça desse escritor. Ele usa a imaginação para tentar fugir da triste realidade em que vive e dar vazão aos pensamentos malucos que não páram de rondar sua cabeça criativa. No fim das contas, Crimes de um detetive fala sobre a relação de Dark com a mãe e como traumas de seu passado influenciam na arte que ele produz, nas idéias que vagam na mente, no modo dele enxergar a vida.
Daria um filme excepcional, não fosse o fraco diretor Keith Gordon no comando. A impressão que fica é de que a imaginação de Dark é muito mais rápida e ousada que a força de Gordon. O cineasta não ousa, não cria nada, apenas se prende às características básicas de cada gênero que ele quer homenagear. A intenção é das melhores, mas o resultado final beira o chato, o desinteressante.
Atrapalha mais ainda o protagonista, vivido por Robert Downey Jr. Ele interpreta de forma tão carregada que acaba tornando o personagem principal um aborrecido sem propósitos, um mimado, um frustrado. Por mais interessante que seja o escritor, fica impossível torcer por ele - o que seria fundamental para o sucesso do filme. Em compensação, há Mel Gibson num papel ainda mais bizarro do que o que ele fez em O hotel de um milhão de dólares: aqui, ele é um psicanalista careca (!) cheio de conselhos malucos e jogos de palavras. Figuraça...
PS: gostou do Impressões Cinéfilas? Quer dar um incentivo? Então escreva para comodoro@olhoslivres.com e vote no concurso que o diretor Carlos Reinchenbach está promovendo para escolher o melhor dos blogs de cinema. Tá todo mundo fazendo sua campanhazinha, então este recém-blogueiro acaba de entrar na onda...
É só escrever pra esse endereço aí e colocar o voto na mensagem. Valeu!!
Segunda-feira, Setembro 27, 2004
Posted
2:32 PM
by MARCELO MIRANDA
QUANDO EXPLODE A VINGANÇA
Giù la testa (Itália - 1971)
Direção: Sergio Leone
O menos conhecido e visto entre os oito filmes dirigidos pelo mestre Leone. Depois do arrasador Era uma vez no Oeste, o diretor tentou uma alegoria mais intimista (e não menos explosiva), situada durante a Revolução Mexicana, nos anos 10. Foi um tiro n'água: fracasso de público e de crítica. Um projeto tão mal-recebido que Leone entrou em depressão e só voltou a dirigir 13 anos depois, com Era uma vez na América. E morreu em seguida.
Pura injustiça. Quando explode a vingança é excelente, outra obra-prima do italiano, provando que ele nunca fez uma fita ruim. Eu ainda não tinha conseguido assistir a esta pérola rara de encontrar, mas consegui uma cópia escondida e empoeirada numa locadora daqui de Juiz de Fora. O filme é tão maltratado que é só encontrado no Brasil nessa cópia, dublada em português (!) e péssima em imagem e som. É o único de Leone não lançado em DVD no país. Um pecado, sem dúvida.
O filme se diferencia bastante de todos os outros do Leone. É mais político, menos alegórico, um anti-faroeste que se torna uma fita de guerra e acerto de contas. Mantém as características típicas do diretor e de sua linguagem (primeiríssimos planos em contraponto a planos gerais, flashbacks inesperados, dilatação do tempo), desta vez para falar sobre a politização de um personagem despolitizado - maravilhosamente interpretado por Rod Steiger. Saem os longos duelos de revólver que marcaram os filmes anteriores, entram batalhas entre tropas rebeldes e governamentais e muita explosão de dinamite.
Tudo para falar do envolvimento meio por acaso de um mexicano numa briga que ele não assume ser dele. Mas as circunstâncias vão fazê-lo repensar a decisão, junto às artimanhas de um dinamitador misterioso e à morte de entes queridos (que não valorizava como tais). Um belíssimo filme, carregado pela sempre magnífica trilha sonora de Enio Morricone. Tomara que alguma distribuidora sensata descubra essa obra e a lance como ela merece. Nada mais justo para um artista tão genial e perfeito como foi Sergio Leone.
Domingo, Setembro 26, 2004
Posted
5:44 PM
by MARCELO MIRANDA
O TERMINAL
The terminal (EUA - 2004)
Direção: Steven Spielberg
Depois de semanas de enrolação, finalmente fui conferir este novo filme do Spielberg. Minha demora se deveu não a certo desinteresse, mas simplesmente porque eu não estava muito disposto a ver uma história em que Tom Hanks (símbolo máximo do bom-mocismo americano, figura quase patriótica do país em que vive, ícone atual do herói norte-americano) interpreta um imigrante de um país do leste europeu (!). Surreal ou absurdo? Sei lá...
Mas acabei indo, claro. E continuo convicto: não dá pra engolir Hanks dando uma de estrangeiro, aprendendo a ler e falar em inglês, tendo dificuldades de se comunicar na língua dos EUA. Mesmo pensando no personagem, a figura do ator já é tão forte no sentido oposto que hora alguma ele me convenceu. Ficava o tempo parecendo o óbvio: Tom Hanks tentando interpretar um imigrante do leste europeu (!!).
O filme? Uma quase-bobagem absoluta. Começa muito bem, realmente engraçado e criativo, mostrando as peripécias do tal estrangeiro tentando sobreviver num terminal de aeroporto, já que está proibido de entrar em solo americano e impedido de voltar ao seu país de origem por conta de um golpe militar. Mas da metade em diante, Spielberg deve ter cansado e calhou de inventar várias subtramas acontecendo no aeroporto. Aí o filme desanda: é Hanks ajudando o amigo a casar, é Hanks se tornando o herói do lugar, é Hanks enrolado com uma comissária de bordo (a estonteante Catherine Zeta-Jones), é Hanks ajudando um colega do leste europeu (!!!), é Hanks tentando cumprir a promessa feita ao pai. Tudo com o toque exageradamente sentimentalista que caracteriza o diretor.
Coisas absolutamente desnecessárias, todas elas, que tiram o brilho de um enredo comovente e original, de uma trama que tinha tudo para servir de estudo muito bem humorado da capacidade de adaptação do homem a qualquer ambiente onde vive - sem falar em alfinetadas profundas na burocracia irritante e no controle absurdo dos EUA sobre quem pisa em suas terras.
Pelo contrário: com exceção do "vilão", vivido por Stanley Tucci, todos os personagens querem apenas o bem de Tom Hanks e estão dispostos a burlar as regras para vê-lo feliz. Em resumo: a América é a terra das oportunidades, da receptividade, da valorização de quem prova a importância que tem no universo, por menor ou mais delimitado que este universo seja. O princípio apregoado é o seguinte: "todos são culpados, até que se prove o contrário. Você não entra aqui, mas se mostrar que tem coração e boas intenções, pode passar". Ora, em que mundo Spielberg vive??!
Sábado, Setembro 25, 2004
Posted
9:40 PM
by MARCELO MIRANDA
TRÊS HOMENS EM CONFLITO
Il Buono, il brutto, il cattivo (Itália - 1966)
Direção: Sergio Leone
O que falar desta obra-prima, muito maior do que qualquer definição de faroeste-espaguete? Um dos meus filmes favoritos na História do cinema, daqueles que vejo e revejo sem cansar nunca, delirando em cada cena, cada close, cada plano geral, cada acorde da música... E hoje finalmente vi a versão recentemente lançada em DVD duplo, que traz o filme original, com o corte exibido na Itália e que Leone sempre quis para o filme. São exatas 2h57 de duração, quase 20 minutos mais que a versão lançada nos EUA (e que rola por aí num DVD muito do mais ou menos).
Leone é um dos maiores diretores que o cinema já concebeu. Particularmente, coloco-o entre os meus cinco favoritos, sem dúvida. E este Três homens em conflito é uma obra máxima, em tudo perfeita: do elenco à produção, do roteiro à grandiosa trilha sonora de Enio Morricone. Acho o filme tão maravilhoso que, sempre ao comentá-lo, fico sem palavras. Da "trilogia dos dólares" dirigida por Leone nos anos 60, este é o melhor, o mais maduro (os outros dois, também grandes filmes, são Por um punhado de dólares e Por uns dólares a mais, sempre com Clint Eastwood).
Sergio Leone era um mestre da linguagem cinematográfica. Poucos conseguiam narrar uma história com tanta destreza e sucesso. Especificamente aqui, ele mostra as desventuras de três pistoleiros buscando 200 mil dólares em ouro no meio da Guerra Civil Americana. O enredo fala de ganância e cobiça, mas é mera desculpa para o diretor destilar todo o seu talento em tomadas de tirar o fôlego, cenas operísticas e coreografadas, com muita violência e bom humor.
Leone dá tudo ao espectador: comove (Tuco encontrando o irmão; o "Loirinho" atendendo o último desejo de um soldado moribundo), choca (a tortura de Tuco), surpreende (as inesperadas aparições do "Mau" e as artimanhas do "Loirinho" pra se dar bem), empolga (o inesquecível duelo final), faz rir (as crises de nervo de Tuco; as tiradas sarcásticas do "Loirinho").
Se você nunca viu um Sergio Leone, sempre indico Três homens em conflito como introdução ao cinema deste italiano explosivo. Daí a curtir e aproveitar da melhor forma filmes ainda melhores dele, como Era uma vez no Oeste e o maior de todos, Era uma vez na América, é um pulo. Esse é o cara...
PS: se você mora no Rio, tem oportunidade única de ver o melhor da obra do Leone em cinema! O Festival do Rio está fazendo uma retrospectiva dele, exibindo EM PELÍCULA cinco dos oito filmes que dirigiu. É PRA NÃO PERDER DE JEITO NENHUM!!! Acesse o site do festival e confira a programação.
Posted
1:44 AM
by MARCELO MIRANDA
INOCÊNCIA
Brasil - 1982
Direção: Walter Lima Jr
Bonito e sensível filme baseado em livro do Visconde de Taunay. Aliás, sensibilidade é o que não falta ao diretor Lima Jr, que fez ainda Menino de engenho e o belíssimo A ostra e o vento (um dos melhores e menos conhecidos filmes da Retomada). Este Inocência é daquele romanção típico, em que se mata e morre por amor, passado no século XIX, em pleno Brasil imperial. Perde um pouco nos diálogos literários demais, mas no geral é uma obra que se assiste atento a cada detalhe.
E que detalhes! Lima Jr já começa mostrando o nascimento de uma pequena borboleta. A metáfora do desabrochamento fica evidente quanto uma espécie nova de borboleta é batizada com o nome da protagonista, em certo momento da trama. E mesmo podendo cair num dramalhão, o diretor jamais deixa que a história despenque no piegas, mantendo muita garra e austeridade nas cenas de amor - sem abusar de closes, trilha sonora e lágrimas. Tudo muito sereno, gostoso de acompanhar.
No elenco, Edson Celulari (ator de quem nunca admirei o trabalho) e a estreante em cinema Fernanda Torres, hoje das maiores atrizes do país. Aqui ela está novinha, toda graciosa e meiga, numa personagem que combina muito com seu perfil físico (magra, delicada, a ponto de se espatifar com um olhar) e que é aquela larva de borboleta do início: ingênua, ainda verde, sem saber o que está sentindo ou sequer se está mesmo sentindo.
Pra se ter idéia do clima de Inocência, segue abaixo um trecho do diálogo entre os personagens vividos por Celulari (EC) e Torres (FT). É quando ele se declara apaixonado por ela, numa cena muito bem filmada e comovente. Reparem que falas...bem... inocentes:
FT: O amor é sofrimento.
EC: É sofrimento quando não se tem certeza se a paixão é aceita; quando não se vê a quem se quer (...).
FT: E quando se está longe [da pessoa amada]? O que se sente?
EC: Dor. Uma dor lá dentro, que parece que se vai morrer. Só se pensa na pessoa que se quer, a todas as horas: do dia, da noite, no sono, na reza, sempre.
FT: Então eu amo...
Quinta-feira, Setembro 23, 2004
Posted
4:28 PM
by MARCELO MIRANDA
INTERLÚDIO
Notorious (EUA - 1946)
Direção: Alfred Hitchcock
Mais um na maratona pessoal do Hitch, à medida que leio Hitchcock / Truffaut (e quanto mais avançam as páginas, mais fico encantado com o livro). Este filme é o que o próprio Truffaut considera o melhor do mestre do suspense. Fala de um agente americano que recruta linda jovem para espionar um grupo de suspeitos alemães, após a Segunda Guerra. O melhor do filme é como Hitchcock usa o "McGuffin" (segundo ele, o pretexto, a desculpa, o "nada" para a trama começar a andar).
No caso de Interlúdio, o McGuffin é a tal investigação sobre quais as intenções dos alemães. A verdadeira história do filme é o drama entre os personagens de Cary Grant e Ingrid Bergman: eles se amam, mas ela precisa se envolver com o inimigo, enquanto ele sofre por isso e duvida do amor dela. Mais ainda: forma-se um incômodo triângulo amoroso entre o tal inimigo (interpretado por Claude Rains) e o casal. As situações que se desenrolam daí são fantásticas: desde a dúvida do protagonista, os apertos de Bergman no covil do vilão, a mãe deste último (a grande víbora do enredo, uma espécie de Lady MacBeth de Shakespeare) e os achados de imagem que só Hitch sabia fazer - como o roubo da chave, a invasão na adega (e os champanhes da festa acabando), a descoberta da verdade pelo vilão, os envenenamentos e, principalmente, a cena final (fantástica!).
E a maior prova do McGuffin é que o filme termina de repente. Da trama mesmo, quase nada se resolve. O que se resolve é o triângulo de amor. E isso era o que importa em Interlúdio. O resto era desculpa.
Terça-feira, Setembro 21, 2004
Posted
10:17 PM
by MARCELO MIRANDA
"OLGA" É BRASIL NO OSCAR. QUE FEIO...
E deu Olga na cabeça... Inacreditável. O tal comitê de seleção do Ministério da Cultura (nem me atrevo a citar seus nomes) fez o ridículo e escolheu o pior entre todos os concorrentes para estar inscrito e tentar vaga no Oscar 2005. Como é que pode? Até quando teremos essa cabeça mesquinha de tentar ganhar o Oscar a todo e qualquer custo, mesmo que isso implique usar de "moeda de troca" o que de pior produzimos no país? Pra que tanto desespero em pegar naquela estatueta dourada? Por que não priorizar a qualidade de uma obra na hora de inscrevê-la a um prêmio de tamanha visibilidade?! Se é para ganhar o prêmio, que ganhemos com um filme que nos orgulhe, que nos faça ter a consciência limpa de termos sido premiados por puro mérito artístico. Não seria o caso de uma vitória de Olga.
É óbvio que o Oscar não atesta a qualidade de ninguém. É óbvio que Olga tem os ingredientes necessários para comover os velhinhos conservadores que formam o júri selecionador dos cinco indicados a fita estrangeira, lá da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Mas nada disso justifica querermos moldar nossa escolha à vontade e gosto desses tais jurados. O mesmo raciocínio serviu para escolher o discutível Abril despedaçado, em 2002, em detrimento da obra-prima Lavoura arcaica. Chegou-se a afirmar na imprensa que este último "não iria agradar, por sua linguagem mais complexa". Bela justificativa...
Fechando: Olga no Oscar apenas dá bala para o ridículo diretor Jayme Monjardim poder se vangloriar ainda mais de seu horrendo filme. (se duvida, leia esta entrevista que ele deu à Folha). E se o filme for indicado mesmo, no ano que vem, pobres de nós...
Posted
1:38 AM
by MARCELO MIRANDA
GHOST DOG
EUA - 1999
Direção: Jim Jarmusch
Eu adoro o diretor Jim Jarmusch. Considero-o um dos últimos bastiões do grande cinema independente americano, dos poucos que fazem o que quer, com quem quer e quando quer. Um cara que produz filmes de forma autoral, sempre seguindo linhas de pensamento complexas e profundas sem arrogância ou pretensão. A curiosidade dessa adoração é que, até hoje, vi apenas dois filmes de Jarmusch.
Tudo que sei do cara foi por conta de muito estudo e leituras. Isso porque ainda não achei, em Juiz de Fora, uma locadora que tenha mais filmes dele. Nem mesmo os mais conhecidos, como Estranhos no paraíso ou Down by law. Vi apenas Trem mistério (filme esquisitíssimo!) e, há poucos minutos, Ghost dog. E tenho a sensação de ter assistido a uma pequena obra-prima contemporânea.
Fala de um matador, maravilhosamente interpretado por Forest Whitaker, que segue códigos dos antigos samurais japoneses. Ele é cheio de costumes: vive sozinho num telhado, comunica-se por pombos-correios, treina lutas de espadas, anda apenas em carros roubados, ouve hip hop e tem como único amigo um vendedor de sorvete que não fala palavra alguma em inglês (!). Personagem fascinante, não mede esforços para seguir à risca a honra samurai - nem que para isso precise matar a sangue frio.
O recado do filme é dado logo na primeira fala, tirada de livro japonês: "o caminho do samurai é encontrado na morte". E é isso que se discute: a morte, o fim das tradições, a impossibilidade de se querer seguir antigos ritos num mundo cada vez mais acelerado, amoral e individualista. Existe, aqui, a idéia de selva urbana, de como não dá para aceitar um modo de vida escolhido a dedo e com suas próprias normas. Ou entra-se no jogo ou dança: não há espaço para escolhas pessoais; aquele que tenta seguir o próprio caminho está fadado ao fracasso.
Filmaço. Logo no travelling inicial eu lembrei da introdução de Hitchcock para Psicose: a câmera passeia pela cidade e se fixa numa janela. Depois, pensei em Leone, principalmente o de Três homens em conflito: poucos diálogos, muita expressividade, situações intensas acontecendo lentamente. Com este filme, Jarmusch me mostrou que estou certíssimo em venerá-lo.
PS: nesta excelente matéria da Revista de Cinema dá para saber mais de Jim Jarmusch.
Segunda-feira, Setembro 20, 2004
Posted
5:02 PM
by MARCELO MIRANDA
ONDE ANDA VOCÊ
Brasil - 2004
Direção: Sérgio Rezende
Fugindo dos épicos históricos que marcam sua carreira de diretor (como O homem da capa preta, Guerra de Canudos e Mauá), o diretor Sérgio Rezende fez este pequeno filme, intimista, delicado e muito bonito. Olha, e deveria ficar nisso: o talento do diretor em arrancar belas interpretações do elenco e a poesia das imagens são bem mais interessantes que querer recontar, de uma ótica direitista, a história brasileira.
Onde anda você é um drama meio cômico, mostrando os últimos dias de um humorista famoso que quer a todo custo arranjar um novo parceiro de palco. Juca de Oliveira vive lindamente esse personagem, ora com ternura, ora com melancolia, mas sempre com muita paixão e sinceridade. E o filme segue uma linha de nostalgia, lembranças e busca por redenção. As imagens maravilhosas de Fortaleza, onde boa parte da ação acontece (e em meio a dunas e praias) enriquecem o filme - sem falar na beleza estonteante de Regiane Alves, que aparece pela primeira vez na tela numa cena espetacular (e em nu frontal).
O filme só não é melhor porque o roteiro insere um romance fraquíssimo entre os dois jovens, fugindo da temática principal e tentando dar uma cara juvenil à trama. Não é por aí: o filme de Rezende anda por um terreno menos comum no cinema brasileiro, sem apelações de violência urbana ou crimes. Assim como Peixe grande, do Tim Burton, é um conto sobre a morte, mas que celebra a vida. E não existe coisa mais bonita que isso, confessemos...
PS: não, eu não desanimei dos filmes do Hitchcock - o que seria impossível! :-)
Apenas estou intercalando minha retropectiva pessoal do gordinho inglês com outros filmes que vão aparecendo. Por exemplo: estou com "Ghost dog", do Jim Jarmusch, pra ver hoje. Tomara que eu consiga (estou esgotado de um plantão de trabalho no final de semana)...
Domingo, Setembro 19, 2004
Posted
2:52 AM
by MARCELO MIRANDA
A DAMA OCULTA
The lady vanishes (Inglaterra - 1938)
Direção: Alfred Hitchcock
Ainda na onda da leitura de Hitchcock / Truffaut, assisti hoje a este filme esplêndido, que é ainda melhor do que a primeira versão de O homem que sabia demais. Truffaut está muito certo quando diz no livro que é difícil não se envolver com os personagens e com a trama. Como ele mesmo afirma, o roteiro é excelente! Além do estilo típico de Hitch, ainda em fase "embrionária", é tudo tão bem contado, gera tanto interesse e conta com atores tão talentosos em papéis cheios de carisma que fica impossível desgrudar o olhar da tela.
Misturando comédia e suspense, é a história do desaparecimento de uma velhinha dentro de um trem em movimento. Os desdobramentos dessa situação começam angustiantes, para depois cair na pura armação de espionagem. E é curioso como o motivo pelo qual a velhinha está sendo perseguida é o que menos importa (tanto que isso é revelado numa única frase, em meio à ação, passando quase desapercebido). Importa, sim, o destino de cada personagem e o que eles farão para escaparem daquela enrascada. Só vendo. Posso garantir: é fantástico.
Foi o penúltimo filme de Hitchcock na Inglaterra, antes dele se mudar para os EUA e começar a lançar as suas maiores obras-primas. Após A dama oculta, ele dirigiu apenas A estalagem maldita na sua terra natal. O próprio diretor resume assim sua fase inglesa: "meu trabalho na Inglaterra desenvolveu e ampliou meu instinto - o instinto das idéias (...) Digamos que o (...) período poderia se intitular a sensação do cinema".
Falou o mestre - e quem somos nós para discordar?
Sábado, Setembro 18, 2004
Posted
1:23 AM
by MARCELO MIRANDA
O HOMEM QUE SABIA DEMAIS
The man who knew too much (Inglaterra - 1934)
Direção: Alfred Hitchcock
Lendo Hitchcock / Truffaut, o maravilhoso livro de entrevista com o grande escultor do medo no cinema, Alfred Hitchcock, venho tendo muita vontade de ver e rever alguns de seus filmes - além do fato dele ser meu cineasta predileto. Então, comecei conhecendo esta primeira versão de O homem que sabia demais (o próprio diretor faria uma refilmagem da história vinte anos depois), que eu nunca tinha visto.
Grande filme! Ainda com cacoetes do cinema mudo, vê-se claramente aqui que o filme é parte da transição para o cinema sonoro. Mesmo cheio de diálogos, boa parte da ação acontece sem falas, apenas através de gestos, ações e olhares. Mas o que capacita o filme a um típico exemplar do cinema sonoro é a melhor de suas cenas: o atentado no concerto do Albert Hall.
Vê-se que Hitchcock pensou O homem que sabia demais para o cinema sonoro. Afinal, toda a seqüência depende da cantata orquestrada, do barulho dos címbalos e do grito da personagem de Edna Best. Até daria para fazer no cinema mudo, mas o impacto, o drama e o suspense seriam bem menores - já que a resolução da trama depende exatamente do grito de Edna, em meio a uma grande orquestra, para evitar um tiro (olhe quantos sons!).
Duas curiosidades:
1) como o líder dos criminosos, está Peter Lorre, famoso pelo papel principal de M - O vampiro de Düsseldorf, de Fritz Lang. Interpretação marcante, bem à sua moda.
2) um momento tipicamente inglês do filme está na seqüência final, quando a polícia cerca os criminosos: há uma barreira policial. Em meio ao tumulto de tiros e correria, um senhor baixinho e uniformizado vai furando o bloqueio, mas é barrado por um oficial da polícia. O diálogo mostra a ironia e fineza do humor da Inglaterra (e de Hitch, claro):
Policial - "Ei, senhor, não pode passar aí. Tenho ordens para esvaziar a rua."
Velhinho - "E eu tenho ordens para esvaziar a caixa de correios!"
Sexta-feira, Setembro 17, 2004
Posted
3:31 AM
by MARCELO MIRANDA
RECOMEÇANDO...
Depois de uma surra, consegui inserir comentários no blog. Posso voltar à minha proposta original.
Espero que agora eu só volte aqui para falar do que eu quero: cinema.
Mas ainda apanho desse blog. Por exemplo: como eu excluo um post que não quero mais aqui??!!
Posted
3:15 AM
by MARCELO MIRANDA
TERMINANDO...
Droga... Acabo de descobrir que, para ter comentários de leitores neste blog, preciso ser assinante da Globo.com. Hmpf....
Que coisa chata. Estou frustradíssimo.
Então, vou arranjar outro "hospedeiro" para o meu tão batalhado blog. A gente volta a se falar (se eu conseguir um que não me cobre nada para nada).
Até breve.
Posted
2:54 AM
by MARCELO MIRANDA
COMEÇANDO...
Olá a todos! Meu nome é Marcelo Miranda. Estou inaugurando este "Impressões Cinéfilas" para falar da minha maior paixão na cultura: cinema. A proposta do blog é seguir a idéia de ótimas páginas como a de Ailton Monteiro, "Diário de um Cinéfilo", e falar dos filmes que venho assistindo, como forma de refletir e trocar idéias sobre eles.
Sou jornalista, formado em Juiz de Fora (MG) e trabalho no jornal PANORAMA. Já escrevo de cinema tanto no jornal quanto num site, o Cinefilia. Mas venho sentindo vontade de falar mais despreocupadamente dos filmes, mesmo continuando a analisá-los a fundo nos meus trabalhos. O mais legal de um blog, acredito, é a interação. Não tenho pretensões de ser um campeão de comentários, mas espero que eu possa debater filmes com muita gente por aqui!
No mais, mãos à obra. Amanhã já pretendo postar as primeiras impressões do que venho assistindo. Tomara que alguém leia, :-)
Abraços a todos!
|