Impressões Cinéfilas

Domingo, Outubro 31, 2004


O SHOW DEVE CONTINUAR
All that jazz (EUA - 1979)
Direção: Bob Fosse

Se Os imperdoáveis serve de testamento para o gênero faroeste, O show deve continuar é o enterramento do musical. Tudo no filme simboliza isso, desde a premissa: coreógrafo e diretor de cinema está morrendo, mas não desiste de continuar trabalhando. O protagonista, excepcionalmente vivido por Roy Scheider (de Tubarão), representa o próprio musical: vem de épocas áureas, de grandes sucessos, e agora está em decadência, tentanto reviver um estilo que não tem mais espaço. Bob Fosse, um dos mestres contemporâneos do gênero, usa de forma belíssima a linguagem do musical para falar de seu fim.

É um filme muito bonito, comovente, ganhador de diversos prêmios (entre eles, a Palma de Ouro em Cannes). Merecido: Fosse capta de maneira autêntica e racional a morte desse gênero tão amado e que teve seu auge nos primeiros 50 anos do cinema. Quando chega o momento de reconhecer que ele não é mais viável, nem comercial nem artisticamente, é hora de puxar o barco. Se antes Bob Fosse tinha mostrado o musical como algo moribundo e mais sombrio em Cabaret, aqui ele já filma o fim verdadeiro do gênero.

Claro, Fosse não esperava uma revolução como Moulin Rouge, nem tampouco as premiações de Chicago. O que em nada invalida ou envelhece seu filme: suas idéias de morte do musical referem-se àqueles clássicos, consagrados pelo jeitão colorido, utópico, fantasioso. São esses que tiveram sua decadência tão maravilhosamente registrada por Bob Fosse em O show deve continuar.


O DESPERTAR DOS MORTOS
Dawn of the dead (EUA - 1978)
Direção: George Romero

Depois do imenso impacto que foi A noite dos mortos-vivos dez anos antes, Romero repetiu a dose com muito mais intensidade. Extremamente mais violento e sangüinolento (não faltam cabeças cortadas ou explodidas e tripas e vísceras sendo devoradas em primeiríssimo plano), o filme talvez nem mereça comparações com o anterior, tamanhas as diferenças e os rumos de cada filme. A começar pela própria conclusão: se no primeiro não existe muita esperança, neste segundo algo ainda poderá ser feito após o final.

Uma coisa se mantém, e parece que Romero quer seguir essa idéia até o fim: os grandes inimigos do homem não são apenas os zumbis canibais, mas os próprios homens, dispostos a eliminar a si mesmos de forma gratuita. A sobrevivência está acima de tudo. Os saqueadores são as encarnações desta sanha do ser humano. Além disso, O despertar dos mortos tem um poderoso discurso social no momento em que o shopping center torna-se local de peregrinação das pessoas, mesmo quando mortas. Numa época em que o consumismo ainda não era tão explicitada nas telas, Romero deu um tapa na cara do público ao mostrar os banquetes dos zumbis nos corredores de um centro de compras. Por conta disso, a refilmagem recente do filme, Madrugada dos mortos, perdeu um pouco desse discurso anti-consumo - mesmo sendo um ótimo filme.

Agora, da trilogia, só falta eu ver O dia dos mortos. Dizem que é o mais fraco deles. Vamos ver. Acho que acredito, porque deve ser difícil Romero se superar depois dos dois anteriores. Mas que o cara é fera, ah isso ele é!

Quinta-feira, Outubro 28, 2004


MAR ABERTO
Open water (EUA - 2004)
Direção: Chris Kentis

Um casal dirigindo e produzindo, um casal de atores, uma câmera digital portátil, filmagens apenas no período de férias, ao longo de dois anos e U$ 15 mil saídos do próprio bolso. E talento, muito talento. Estes são os elementos que formam Mar aberto. Juntando tudo isso, o filme vem fazendo sucesso apenas no boca-a-boca, com sua estrutura totalmente anti-hollywoodiana. Pois vou contar a vocês: não me lembro de ter realmente sentido tanto medo no cinema como neste pequeno filme.

Talvez por achar que a situação mostrada é apavorante por si só: duas pessas esquecidas no meio do mar, sem qualquer tipo de ajuda ou apoio e tentando sobreviver. Quem não teria medo disso? Junta-se a incrível junção dos mais discretos recursos de linguagem (trilha sonora nos momentos adequados, rápidos flashes de um perigo iminente, iluminação natural - dando uma cara ainda mais realista ao filme) e pronto: temos uma pequena obra-prima de puro terror.

Porque terror não é apenas encontrado em filmes com monstros, criaturas gosmentas, cenas de perseguição e morte. O terror surge onde há algo aterrorizante - e a Mar aberto não faltam elementos de terror. Chris Klein, ajudado pela esposa, mostra do que é capaz em seqüências que, essencialmente, nada acontece. Só que o simples fato de acompanharmos o casal se desesperando com o passar das horas, tendo que dividir espaço com tubarões, sofrendo enjôos e sendo mordidos por águas-vivas. Impossível não ter um mínimo de arrepio.

E na junção entre os elementos cinematográficos perfeitamente utilizados e os elementos humanos da própria situação - incluindo aí o acerto de contas do casal em pleno alto-mar e, como bem disse o crítico Luiz Carlos Merten, a metáfora da desconstrução de um casamento -, Mar aberto torna-se a grande surpresa do ano, até agora. Filme pequeno, em todos os sentidos (tempo de duração, orçamento, produção, elenco), mas grandioso nas suas intenções e na realização.

É, fiquei apaixonado pelo filme. Acredito que não sem razão. Poucos conseguem fazer algo do tipo - e a comparação com A bruxa de Blair torna-se até injusta com este filme de Klein. Ele é muito mais que isso. É cinema naquilo que se pode fazer de melhor em matéria de construção de clima e de medo. Os graúdos do cinema-lixo deveriam aprender (e mais uma vez repito essa lição) que, no cinema, menos é mais. Mar aberto prova isso nos seus míseros 79 minutos.


JEJUM DE AMOR
His girl friday (EUA - 1940)
Direção: Howard Hawks

Pois é, estou colocando em dia a filmografia desse grande diretor clássico. Sempre quis conhecer o trabalho dele, mas nunca achava os filmes por aqui. Danou que um monte de amigo meu tem fitas com obras dele, e lógico que corri atrás. Agora foi a vez desse Jejum de amor, a segunda adaptação para cinema da peça The front page, de Ben Hecht (as outras foram Última hora, dos anos 30, A primeira página, obra-prima de Billy Wilder dos anos 70, e Troca de maridos, mais recente).

A história é conhecida: repórter decide se casar e abandonar o stress do jornalismo no mesmo dia em que um condenado será executado (o que seria a grande manchete do jornal). O editor, claro, não gosta nada que seu melhor repórter se aposente, e faz de tudo para impedi-lo de ir embora - e se aproveita do forte amor que o tal jornalista nutre pela profissão. Hawks mudou a peça e transformou o protagonista em mulher. Ou melhor, na ex-esposa do editor, o que já gera um conflito de relacionamentos logo de cara.

Mesmo com roteiro excelente, diálogos cortantes e crítica mordaz ao comportamento da imprensa, ainda prefiro a versão de Billy Wilder. Por vários motivos: o fato da repórter ser antigo caso do editor tira um pouco o brilho da trama principal, focando mais em cima da relação dos dois. Acaba que, na essência, o filme se torna uma comédia romântica a certa altura - e isso, Levada da breca já tinha sido esplendidamente melhor. A força da peça é exatamente as conseqüências das ações dos jornalistas na cobertura da morte do preso. Wilder soube captar isso e fez um dos melhores filmes de sua carreira (para o crítico Luiz Carlos Merten, talvez seja mesmo o melhor de todos).

Sem falar que Rosalind Russel não tem tanta força como a jornalista. Ela não transmite a paixão alucinada necessária para a personagem, não deixa claro aquilo que a faz esquecer o casamento para se dedicar ao trabalho daquele dia. Não é má atriz, longe disso, mas falta substância mesmo. Mais uma vez comparando, o saudoso e genial Jack Lemmon se saiu estupidamente melhor e mais carismático no mesmo papel, em A primeira página. Ao menos Cary Grant mais uma vez se mostra, aqui, um comediante excepcional, de grande timing.

Terça-feira, Outubro 26, 2004


EFEITO BORBOLETA
The butterfly effect (EUA - 2004)
Direção: Eric Bress e J. Mackye Gruber

Gratíssima surpresa este filme, ainda mais com o Ashton Kutcher no elenco - ator de tantas comédias-besteirol idiotas que seu nome já não tem grande credibilidade quanto ostenta o cartaz. No caso de Efeito borboleta, Kutcher se sai até bem num pequeno filme sobre um grande assunto: o tempo e a memória. Ele é um estudante que cresceu com problema de "apagar" certos momentos de sua vida - mais precisamente, os maiores traumas da infância. O cara acaba se descobrindo capaz de voltar no passado e mudar detalhes dos antigos acontecimentos.

Uma variação do "filme de viagem no tempo" (eternizado pela trilogia De volta para o futuro), talvez renovando e até subvertendo o gênero, já que não há qualquer tipo de máquina ou engenhoca que leve ao passado. O maior tema do filme é mais a memória e sua importância para a vida. O roteiro deixa claro que não é nada saudável mexer com a memória, querer mudá-la, interferir no passado. Para alcançar a felicidade, para tornar o cotidiano perfeito e não prejudicar ninguém, o protagonista só tem como saída literalmente esquecer suas memórias.

Só vendo para entender. Interessante notar como Efeito borboleta segue caminho inverso ao do também interessante Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Se neste último a memória não pode morrer jamais, e mesmo quando ela some, é imprescindível que o passado seja relembrado para os erros não se repetirem e novos rumos serem tomados, em Efeito borboleta o passado precisa deixar de existir, e certas memórias devem ser completamente apagadas, para se chegar ao mundo ideal. Conceitos completamente divergentes, mas igualmente intrigantes e passíveis de refelxão aprofundada.

Se um filme cria essas indagações, merece um mínimo de atenção. Mesmo que seja com o Ashton Kutcher.

Segunda-feira, Outubro 25, 2004


AS MELHORES FRASES DO CINEMA

Pesquisa entre 100 especialistas de cinema da Grã-Bretanha, divulgada hoje, mostra quais são as frases mais famosos do cinema. Acho muito interessante essas listas, mais pelas ausências do que pelas presenças. Mas nesta aqui tem algumas barbaridades.
Abaixo, seguem as tais mais votadas:

1) "You talkin' to me?" ("Você está falando comigo?") - Robert DeNiro em Taxi driver

2) "Bond, James Bond" - falada pela primeira vez por Sean Connery em 007 contra o satânico Dr. No

3) "What's it all about?" ("Qual é?") - Michael Caine em Alfie

4) "Frankly my dear, I don't give a damn" ("Sinceramente, querida, eu não dou a mínima'' ) - E o vento levou

5) "We're gonna need a bigger boat" ("Vamos precisar de um barco maior") - Tubarão

6) "No one puts baby in the corner" ("Ninguém deixa a Baby de lado") - Dirty Dancing

7) "You're only supposed to blow the bloody doors off!" ("Você só tem que explodir as malditas portas") - Um golpe à italiana

8) "May the force be with you" ("Que a força esteja com você") - Guerra nas estrelas

9) "Show me the money!" ("Mostre-me o dinheiro!") - Jerry Maguire

10) "Yeah baby, yeah!" - Austin Powers

E aí, o que acham? :-)


A NOITE DOS MORTOS-VIVOS
Night of the living dead (EUA - 1968)
Direção: George Romero

Ainda na onda dos filmes de horror (não que sejam meus preferidos, como chegou a comentar um leitor e colega do blog, heheh), mergulho pela primeira vez no tão elogiado cinema de Romero. Não vi seus filmes ainda por falta de oportunidade, nunca achei coisas dele aqui em JF. Mas o Ronaldo, um amigo cinéfilo e colega palpiteiro do Cinefilia (site em que também escrevo), tem a trilogia dos mortos em VHS e me passou. E ontem vi o primeiro.

Excepcional! Incrível como, no final dos anos 60, um diretor americano fazia algo tão subversivo e corrosivo quanto este filme. Romero apenas escolheu o terror para expressar sua desilusão no ser humano e mostrar pela imagem a que ponto podemos chegar na ânsia de nos devorar. No caso dos zumbis, o ato de devorar o outro é literal, mas por trás disso há uma grande metáfora de passar por cima, de engolir o próximo em nome dos interesses pessoais.

Isso fica muito claro nas relações que se estabelecem dentro da casa. Lá estão sete sobreviventes tentanto se manter vivos a qualquer custo. Qualquer custo mesmo, ainda que tenham que se desentender, insistir em dar ordens ou tomar atitudes extremas em nome da salvação alheia. Essas pessoas tornam-se tão mortas-vivas como os zumbis, por ninguém querer enxergar o óbvio: sem o outro, não existe vida. Resta a morte.

O final, irônico e pessimista, apenas serve de pedra de toque para os pensamentos de George Romero. Não sem antes ele nos inundar de seqüências impressionantes, de puro medo e pavor: a garota sendo perseguida no cemitério, os zumbis atacando a casa, a explosão do carro, a garotinha que mata a própria mãe com uma pá de pedreiro (!). Coisa de impressionar mesmo, mas jamais sem sentido: Romero a todo instante sabe o que está fazendo e onde quer chegar.

Já estou nos preparativos para a seqüência, O despertar dos mortos. Uns dizem que é ainda melhor. Nem consigo acreditar. Só vendo mesmo.



LEVADA DA BRECA
Bringing up Baby (EUA - 1938)
Direção: Howard Hawks

Comédia clássica, exemplar máximo das chamadas "screwball commedy", que tem como gancho um romance impossível recheado de trapalhadas e absurdos. No caso, um zoologista prestes a se casar conhece amalucada que cisma em pegar no pe dele, fazendo-o levar até cidade vizinha um leopardo (!).

Confusões das mais divertidas e um carisma e talento impressioantes da dupla central (Cary Grant e Katherine Hepburn) brilham no filme, mesclados ao talento de Hawks como diretor. Usando do jeito que ele mais sabe um realismo de cena com tons de pastiche, Hawks se sai brilhante num gênero tão complicado quanto a comédia. O filme corre uma bala, as situações são ágeis, o vigor está à prova em seqüências hilárias e diálogos rápidos.

Um perfeito exemplar do humor de qualidade feito nos EUA, que tem que servir sempre de exemplo ao lixo produzido hoje em Hollywood. E Levada da breca leva às últimas conseqüências a insistência que se deve ter para com o ser amado. A paixão é mesmo avassaladora, e nem mesmo casamentos, ossos, leopardos ou tias malucas são suficientes para pará-lo. Apenas a união e a recíproca do amor será a chave para uma felicidade plena num mundo que não é inocente, mas sabe brincar com a sua própria culpa. Mais palmas para Hawks.

Sábado, Outubro 23, 2004


CONSPIRAÇÃO FATAL
Storm catcher (EUA - 1999)
Direção: Tony Hickcox

Só mesmo o grande Carlão Reichenbach para me fazer percorrer sebos de vídeos e locadoras à caça de filmes de ação desse tal Hickcox. E ainda me fazer comprar por quase R$ 5 um filme estrelado pelo terrível Dolph Lundgren!!! Mas depois do louvor que o Carlão fez ao Hickcox (e ao meu gosto por filmes de ação de qualidade, principalmente se vindo de diretores menos conhecidos e badalados), ficava impossível recusar experimentar o prato. Comecei pelo ótimo A última missão. Agora consegui esse aqui, com maior jeitão de Domingo Maior.

A boa notícia: é realmente um filmaço de ação, com cenas impressionantes, criativas e de muito vigor. A história do soldado acusado de ter roubado um avião lembra bastante as premissas do Hitchcock e, principalmente, as tramóias de Intriga internacional. Mais interessante ainda é perceber como, num filme aparentemente despretensioso, Hickcox previu o que acabou acontecendo em 11 de setembro de 2001 nos EUA - atualizando e gerando imediato (re)interesse no filme.

O roteiro nem tem grandes novidades, mas Hickcox o conduz com tanta competência que nos conquista. As seqüências de ação não surgem do nada, como acontece no cinema-lixo de Hollywood. Elas se inserem nas situações, são quase indispensáveis e servem de condução para os acontecimentos. Nada, nada mesmo, soa gratuito ou exagerado dentro do contexto. Destaques para a impressionante invasão na casa do protagonista e (pasmem!) para a razoável atuação do Lundgren. Pois é, acredite se quiser.

Grata surpresa, com certeza. Acho que vale mesmo a pena continuar caçando outras coisas do Hickcox por aí. Valeu, Carlão!


JOGO DE SEDUÇÃO
Dot the i (Reino Unido, Espanha - 2003)
Direção: Matthew Parkhill

Este filme passou meio desapercebido nos cinemas (e sequer foi exibido aqui em Juiz de Fora). Merecia destino melhor, que pode agora ser compensado no DVD. Se não chega a ser um grande achado, é ao menos uma bem bolada e divertida alegoria sobre a própria arte do cinema e a sanha de alguns diretores em querer filmar a realidade da forma mais "realista" possível - e sabemos que não existem muitos Kiarostamis, então os resultados geralmente são catastróficos.

Jogo de sedução brinca com esta idéia de forma quase anárquica, não fosse uma necessidade exagerada do roteiro em tentar sempre surpreender e se prender a um certo convencionalismo. Mesmo assim, o resultado final é positivo. Começando como um romance e terminando como um emaranhado de conspirações e trapaças, o filme não perde fôlego nunca. Suas reviravoltas mexem tanto com o ato de filmar, meio que zoam tanto com a obsessão de um diretor de cinema, que fica difícil não entrar na proposta.

Faltou apenas mais ousadia, tanto da linguagem (que tenta com eficiência ser "pop", mas nada além) quanto no aprofundamento das situações (dava para ir mais fundo e questionar com maior veemência em vez de tanto estrionismo). O que não tira a relevância do filme, que ganha pontos também no ótimo elenco - encabeçado pelo latino do momento, o excelente Gael Garcia Bernal, ao lado da lindíssima e sensual Natalia Verbeke, a qual não me lembro de ter visto antes, mas que esteve em O filho da noiva e O outro lado da cama.

Esqueça o título de Supercine e assista a Jogo de sedução. Pode não parecer grande coisa, mas é uma pequena pérola.

Quinta-feira, Outubro 21, 2004


A JANELA SECRETA
Secret window (EUA - 2004)
Direção: David Koepp

ATENÇÃO: O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS DO FILME COMENTADO

Por que um roteirista talentoso e de prestígio como David Koepp se interessa em dirigir uma história tão comum e batida? Quem ainda aguenta personagens convivendo com antagonistas para, ao final, o espectador descobrir que se tratava da mesma pessoa? Ou que tudo era fruto da imaginação do protagonista? Clube da luta era assim, mas sua genialidade residia não apenas na revelação final, e sim em todo o desenvolvimento e significados da história - sem falar na fantástica direção de David Fincher (que veio depois a trabalhar com Koepp em O quarto do pânico).

Janela secreta tem méritos, claro. O mais deles é a dupla principal: enquanto Johnny Depp literalmente se descabela no papel do escritor atormentado pela traição da esposa, John Turturro está sinistro como outro escritor, que acusa Depp de plágio e se mostra um louco assassino. Excelentes atores para ótimos personagens. Koepp também apresenta o seu melhor trabalho na direção, depois dos anódinos Efeito dominó e Ecos do além. Há belas sacadas visuais no filme, que ficam ainda mais inteligentes quando vemos o making-of que vem no DVD e sacamos com mais profundidade as idéias do diretor.

Independente de extras, é um filme muito bem feito, e que ainda levanta questões interessantes - como o fato de que, muitas vezes, nosso maior inimigo somos nós mesmos; ou que a originalidade às vezes não está no trabalho, mas na vida. E o final é espetacular, realmente fugindo do óbvio neste tipo de filme. O que acaba tirando o interesse é que é mais um roteiro cheio de "armadilhas" para tapear o espectador e tentar criar uma surpresa que não é mais surpresa alguma. Koepp fala com extrema empolgação da trama que filmou (baseada em conto de Stephen King). Será que ele acha mesmo ter concebido um graaaaaande roteiro? Eu tenho minhas (muitas) dúvidas.

Quarta-feira, Outubro 20, 2004


ELOGIO DO AMOR
Eloge de l'amour (França - 2001)
Direção: Jean-Luc Godard

Mais uma loucura do diretor que mudou a forma de fazer cinema desde seu primeiro filme, Acossado, no início dos anos 60. Reconheço a importância de Godard para os caminhos do cinema, sei de todas as suas inovações estéticas, respeito a relevância de sua obra para a arte em geral, tenho consciência do que seus filmes representam, mas não consigo entrar no mundo desse franco-suíço.

Não que eu não goste dos filmes dele (nem de um cinema "experimental", pois vejo e estudo absolutamente todo e qualquer tipo de filme). Dos que já vi de Godard, acho quase todos fabulosos e consigo enxergar o que representam. Mas alguma coisa ali, no momento entre mim e o filme, naquele instante único da tela e eu, seja em cinema ou TV, nos momentos em que apenas isso existe, o cinema de Godard não me atinge, não me extravasa, não me conquista como faz com tanta gente, não me traz quase nenhum tipo de indetificação com seu universo. Não sei explicar exatamente o porquê disso. Talvez simplesmente não exista empatia entre Godard e eu (algo semelhante ao que acontece entre o colega blogueiro José Roberto, do Era uma vez na Paraíba, e o cinema do sueco Ingmar Bergman).

Convenhamos que o mundo está se fodendo para o que Godard representa pra mim, é claro. Mas a explicação era necessária para falar deste seu penúltimo filme lançado, Elogio do amor. Mais uma vez o diretor exercita a sua anti-narrativa, a forma ímpar como ele mostra imagens, as convenções estilísticas únicas que marcam o seu cinema. Godard celebra aqui não o amor carnal, mas o amor pela vida. Não interessa a ele analisar o que é o amor, mas como ele é, quais formas pequenos detalhes do cotidiano podem ser provas da existência do amor. As palavras tornam-se desnecessárias ante as imagens cheias de significados, de sentimento, de demonstrações da não necessidade em explicar nada, mas sim em tomar atitudes, em fazer. Não importa a história, a trama, a narração. Importa é o caminho, o "entre", o meio, a passagem de uns pontos a outros.

Sobram ainda oportunas alfinetadas a Hollywood e seu cinema-lixo. A conversa de uma personagem sobre o que seriam os norte-americanos no mundo é genial: Godard conclui que quem nasce nos EUA não é ninguém, é uma não-pessoa, não existe no mundo, não tem relevância - mas não faz isso com discurso barato de implicantes, mas demonstra, através de uma raciocínio perfeito, que os EUA praticamente nunca tiveram uma história própria, e sim beberam na história de outros países (e isso se refletiria no cinema feito lá). Godard praticamente acerta no alvo.

A destacar ainda a belíssima trilha sonora. E também a incrível capacidade de Godard, característica de seu cinema, em apresentar o filme de forma absolutamente anti-naturalista notodo (por conta da montagem e do encadeamento das cenas, diálogos e sons) e extremamente naturalista no específico de cada seqüência (graças à direção de atores e à forma como as situações vão sendo mostradas).

Com Elogio do amor, outra vez Godard mostra sua capacidade de modificar o cinema, de fazer um verdadeiro anti-filme que jamais deixa de ser filme. Palmas a ele. Só eu mesmo não consigo cair de cabeça no universo desse cara.

Terça-feira, Outubro 19, 2004


MADRUGADA DOS MORTOS
Dawn of the dead (EUA - 2004)
Direção: Zack Snyder

"Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a Terra". Esta já é uma das chamadas de filmes mais intrigantes e aterrorizantes deste ano. Mesmo assim, não fui incitado a ir ao cinema conferir este filme. Me dei mal: diferente da catástrofe que é Resident evil 2, este Madrugada dos mortos é um autêntico filme de zumbi, apaixonado, ousado, violento, sem preocupações bestas de roteiro, sem querer dar motivos ou explicar a vida dos personagens. E ainda nos remete ao grande George Romero.

Nunca vi O despertar dos mortos, filme que inspirou esta produção. O que em nada me impediu de curtir cada momento da trama. Apesar de não se levar tão a sério e ainda conter alguns clichês típicos (principalmente o do animal que a tudo sobrevive), o filme gera um medo beirando o pavor e sabe extrair o que há de criativo e empolgante de cada situação. Sem falar na idéia de que o consumismo é instinto, de que gastar e comprar faz parte da essência das pessoas nesse mundo capitalista de hoje, por mais que elas não tenham consciência disso (só isso explica aquela zumbizada rodeando um shopping center o filme todo). Imagine só: um filme de zumbi que não é alienado! Raridade.

Não me conquistou como Extermínio, pra mim ainda imbatível entre os filmes modernos de zumbi. Mas Madrugada dos mortos respeita suas fontes e honra o gênero, mostrando que ainda há espaço para boas produções desse estilo. Que venham outros tão interessantes!

Segunda-feira, Outubro 18, 2004


À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA
Brasil - 1964
Direção: José Mojica Marins

Comprei a caixa de DVDs com os filmes do Mojica há poucas semanas, e agora é que estou começando a vê-los, com muito interesse e curiosidade. Sempre me interessei pela lenda em torno do Zé do Caixão e admiro imensamente o Mojica. Mas nunca tinha visto seus filmes, meio "malditos" no meio cinematográfico nacional.

Comecei, obviamente, por À meia-noite levarei sua alma, primeiro filme a trazer a figura do Zé do Caixão. Ele é um coveiro sem crença alguma, que burla todas as "regras" sociais para fazer o que bem entende. Obcecado em ter um filho e perpetuar seu sangue, Zé está disposto a matar e maltratar qualquer pessoa que se oponha às suas vontades. O mais fascinante do filme é a raça com que ele é feito: claramente "artesanal", sem grande orçamento ou produção, Mojica consegue impor suas idéias na tela dos modos mais criativos possíveis.

E o que é melhor: é um filme essencialmente brasileiro, falando muito da nossa cultura. Vários tabus e manias são citados: de não comer carne na Semana Santa a não passar perto de cemitério no Dia de Finados. Apesar de serem mundiais, no Brasil essas crenças são levadas muito a sério - mas não pelo Zé do Caixão, personagem absurdamente amoral, sinistro e maléfico. Por não acreditar em nada, nem em Deus nem em Diabo, nem em destino nem em espíritos, ele se dispõe a burlar as leis por não enxergá-las como tal. Apenas a crença que ele não tem vai poder parar suas vilanias. Isso acontece da pior maneira, já que a surpresa com a qual ele recebe a verdade é desesperadora.

O final é um pouco moralista, por punir o personagem da forma que ele mais poderia sofrer (encarando medos que ele simplesmente não tinha). O que em nada invalida o filme de Mojica, atestado de persistência e amor ao cinema acima de tudo. José Mojica Marins é um exemplo para qualquer diretor que acredita precisar de grandes recursos para fazer um bom filme. Inadvertidamente engraçado em alguns momentos (principalmente na cena em que um morto acende o cachimbo do Zé), o que se sobressai é o terror (gênero pouco explorado no Brasil) e a criação de um personagem totalmente original, sem referências, que fez tanto sucesso que tornou Mojica mundialmente conhecido - e criou todo o mito que cerca sua figura.

Filme imperdível.

Sexta-feira, Outubro 15, 2004


RESIDENT EVIL 2: APOCALIPSE
Resident Evil 2: Apocalypse (Reino Unido/ França/ Alemanha - 2004)
Direção: Alexander Witt

Falei mais detalhada e "profissionalmente" sobre este filme no Cinefilia , o site em que também escrevo. Resumindo, não gostei do filme, mas não pelos motivos óbvios de ser um filme B. Muito pelo contrário: o diretor parece ter vergonha de assumir seu lado B.

Um trecho da minha crítica:
"Parece que Alexander Witt não gosta de filmar, não sente prazer no que faz. Paul Anderson ainda tinha certa paixão quando fez Resident Evil (e seu gosto pelo estilo "videogame" se mantém a cada filme - basta ver Alien vs Predador), dava sua cara à tapa para um produto fadado a críticas de todos os cantos. Mas demonstrava gosto pela podreira. Witt, não: ele parece ter vergonha de estar cuidando de um filme de zumbi, parece não querer mostrar seus monstrengos, parece não reconhecer que está numa produção do tipo".

Leia o texto completo aqui.

Quinta-feira, Outubro 14, 2004


A DUPLA DO BARULHO
Brasil - 1953
Direção: Carlos Manga

O primeiro longa dirigido pelo bam-bam-bam da chanchada brasileira, Carlos Manga. Depois ele faria outras obras melhores, como Matar ou correr e O homem do Sputnik, mas aqui o cara tava começando. E começa bem, apesar de uma certa inconstância no filme.

O mais curioso é que, mesmo famoso pelas comédias rasgadas, Manga fez com A dupla do barulho um filme meio-a-meio: a primeira metade é pastelão, chanchadeira no melhor sentido do termo: muitas piadas rápidas, personagens caricatos e ingênuos, boas sacadas de roteiro, tudo muito brasileiro e humano - sem falar no carisma da dupla Oscarito e Grande Otelo, sempre deliciosos de se ver.

Já na segunda metade, o filme vira um drama de amizade, quando um dos personagens desfaz a dupla do título. As motivações para isso nunca ficam muito claras (a explicação dada vem de repente demais) e Manga tenta conduzir tudo com uma certa sensibilidade, mas jamais as coisas ficam tão interessantes como na metade anterior. Resultado: o filme cai de qualidade, mesmo tendo momentos muito bonitos, como a cena final de Grande Otelo - mas o mérito é mais do ator do que do filme em si.

De qualquer forma, A dupla do barulho é indispensável, seja para ver o começo de uma grande parceria (Manga - Oscarito - Grande Otelo), seja para relembrar os tempos em que o cinema brasileiro era bem mais inocente e menos preocupado com causas sociais (não que isso não seja importante, com certeza é. Mas às vezes dá saudade de coisas menos pesadas e feitas com mais amor). Por isso tenho muita curiosidade em ver as chanchadas de José Carlos Burle, que dizem ter sido ainda maior do que Carlos Manga. Alguém sabe se dá pra achar em vídeo ou DVD?!



PAISÀ
Paisà (Itália - 1946)
Direção: Roberto Rosselini

O mestre dos mestres Rosselini mostra nesse filme porque tem a alcunha de "inventor do cinema moderno". Achei o filme por vezes melhor que o badalado Roma, cidade aberta, que tem o mérito de ter chegado primeiro e mostrado que a falta de recursos e a imposição de uma realidade pobre e desgraçada poderia se tornar uma estética cinematográfica. Rosselini é daqueles cineastas que fazem o cinema valer a pena, que souberam transformar a câmera num instrumento de puro humanismo e talento. Não fazia filmes por dinheiro. Fazia pelo amor, fazia com o coração.

Em Paisà, o italiano fez o segundo filme de uma proclamada "trilogia da guerra", formada também por Alemanha ano zero. Aqui, Rosselini apresenta seis pequenos contos durante a ocupação americana na Itália, pouco antes da vitória sobre a Alemanha. Através de olhares distintos, acompanhamos a relação dos soldados ianques com os pobres italianos que foram atingidos pelo conflito sem nada terem a ver com a briga de seus líderes.

Vemos gente comum, vivida por atores não-profissionais, convivendo em situações corriqueiras, inspiradas em casos reais. Alguns são sublimes, como o primeiro (a italiana que é obrigada a ajudar os soldados e acaba precisando se comunicar com um deles, mesmo sem falar uma palavra em inglês) e o terceiro (o soldado que perdeu a mulher amada e ainda sonha em revê-la). Outros são maravilhosos, como o segundo (um garotinho de rua se envolve com um soldado grogue), o quarto (a dupla que deve atravessar a zona de guerra para encontrar entes queridos) e o quinto (três soldados chegam a um mosteiro católico, onde um conflito de religiões ira acontecer). Apenas o sexto não me atingiu tanto, falando de uma comunidade à beira-mar no meio de um confronto.

Filmes como os de Rosselini são obrigatórios não apenas para quem quer entender o cinema, mas para mergulhar na sua essência, sentir o filme, perceber como grandes orçamentos não precisam existir para grandes filmes. As lições desse gênio estão até hoje aí, para quem quiser ver (exemplo: qualquer coisa do cinema iraniano). Até onde não se imagina, há o dedo de Rosselini (recentemente vi Lágrimas do sol, filme de ação com Bruce Willis. E lá estão rostos de gente comum torturados pela guerra. Rosselini puro...). Ainda vou caçar outros filmes do mestre, que não tive oportunidade de ver. Ele merece. Todos nós merecemos.



A BELA E A FERA
La Belle et la Bête (França - 1946)
Direção: Jean Cocteau

Primeiro filme que assisto desse tão comentado diretor francês. E a primeira impressão foi das melhores! Cocteau conta a sua visão para a história clássica de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont sobre uma linda jovem que se envolve com um monstruoso homem. É um conto-de-fadas assumido, desde a premissa até a estética fantasiosa.

E é aí que o filme merece atenção. A trama é fartamente conhecida por todo mundo (quem nunca viu o desenho da Disney?!), mas a forma como Cocteau conta é belíssima. Ele utiliza as mais criativas concepções visuais para dar vida ao castelo da Fera, primeiro de forma a causar medo e suspense para depois torná-lo um local seguro e confortável. Se no começo aquelas mãos sinistras servem para nos gerar estranhamento, depois elas se tornam grandes "amigas" da Bela para ela conviver no casarão, abrindo portas e servindo o jantar. E o que são aquelas cabeças nas paredes??

Lindo filme, muito inocente, é verdade, mas conquista de imediato. Convenhamos que o final é extremamente preconceituoso com os "feiosos" e dá uma idéia equivocada de que a aparência é o que menos importa. Mas o caminho de Cocteau é dos mais bonitos, ainda hoje. A maquiagem feita na Fera continua atualíssima, bem como a empatia dos dois personagens principais. Ouso dizer que é a melhor adaptação dessa história para as telas do cinema, entre as tantas já feitas.

Domingo, Outubro 10, 2004


DEZ
10 (Irã, França - 2002)
Direção: Abbas Kiarostami

Interessante ver este filme depois de Disque M para matar. Não que tenham alguma semelhança. Na verdade, são completamente opostos. Mas ambos se sustentam nos diálogos e no desencadeamento das ações - mesmo que cada um tenha uma finalidade distinta nas propostas e intenções. Em Dez, Kiarostami mostra de forma intensa e surpreendente a lição, recentemente lembrada pelo crítico Ricardo Calil na sua coluna semanal do site No Mínimo de que, no cinema, menos é mais.

O diretor usa apenas duas câmeras para mostrar o cotidiano de uma mulher divorciada se relacionando com um pequeno universo da urbanidade iraniana. Enquanto ela dirige, passam pelo seu carro o filho, a irmã, a amiga desiludida, prostitutas, idosas fiéis. Intercalando no rosto dela e no rosto de quem ela carrega, as imagens mostram não apenas a expressão da gente mais comum possível, mas também discretas paisagens ao fundo de um país conhecido por tantos méritos e desméritos.

A maior discussão sucitada por Dez é mais de cunho cinematográfico do que de significados daquilo que fala e mostra. Afinal, na prática, Kiarostami não teve trabalho algum: fixou suas câmeras e deixou que os atores fizessem todo o resto. Mas é aí que entra seu talento: em tirar daqueles poucos ângulos a poesia e a força de um povo sofrido, mas que no fundo é como qualquer outro. De gente absolutamente normal, transitando por alegrias, desilusões, tristezas, conflitos.

E como Kiarostami faz isso? Escolhendo a dedo um elenco não-profissional, absolutamente natural, e desencadeando sua discreta montagem de forma a nunca gerar excessos naquilo que mostra. Os casos são comuns, por vezes desinteressantes, mas o elenco e a visão de algo tão simples e mostrado de forma tão realista criam um fascínio realmente difícil de explicar. Já no início a atenção é conquistada com o garotinho, perfeito e totalmente natural, falando e se expressando sem pudor ou artificialismo algum. Sem falar na beleza mágica de Mania Akbari, como a protagonista.

Não acredito ser o melhor filme de Kiarostami. Gosto muito mais de Gosto de cereja, por exemplo, e acho Onde fica a casa do meu amigo? uma das coisas mais sublimes que o Irã já produziu. Mas com Dez, Kiarostami mostra que é, sim, o revigorador da estética neo-realista nos nossos tempos.

Sábado, Outubro 09, 2004


DISQUE M PARA MATAR
Dial M for murder (EUA - 1953)
Direção: Alfred Hitchcock

Não sei porque Hitchcock quis falar pouco deste filme no excepcional Hitchcock / Truffaut, livro de entrevistas que eu não canso de ler e citar. O diretor deixa claro não simpatizar muito com o filme. O que é incompreensível, pois o considero dos melhores da carreira do mestre do suspense.

É a segunda vez que vejo o filme. Continuo impressionado com a capacidade que ele tem de prender a atenção a cada plano, cada diálogo, cada movimento. A trama, inspirada numa peça de teatro, se passa quase totalmente numa sala de estar e em torno de cinco personagens. Hitchcock cria grandes momentos de tensão e suspense à medida que a história vai se desenvolvendo, partindo do plano maluco de um ex-tenista (Ray Milland) para assassinar a esposa (Grace Kelly, na sua primeira participação em filmes do Hitch).

Além de manter o público aceso o tempo inteiro, Hitchcock segue aqui a sua obsessão por pequenos objetos que acabam sendo fundamentais. No caso, a chave da porta principal da casa, a tecla do telefone, a meia usada para o crime e a tesoura. Em Interlúdio, por exemplo, novamente havia uma chave crucial e uma garrafa de vinho, que continha certo elemento químico; em Festim diabólico, a corda usada para enforcar o amigo da dupla protagonista; posterioremente, em Janela indiscreta, a aliança. E por aí afora. O inglês consegue transformar coisas do cotidiano, banalizadas ao extremo, em peças imprescindíveis dentro dos roteiros que filma, dando-lhes um ar muito mais grave e autêntico do que se aparecessem simplesmente na cena.

Disque M para matar não é dos filmes mais adorados de Hitchcock. Realmente é contada excelente trama, muito bem conduzida e com ótimas concepções visuais (o julgamento, em especial), sempre com ajuda da música de Dimitri Tiomkin, mas não vai muito além disso. Fica na superfície, não se aprofunda tanto nos dramas humanos, como é característico no suspense de Hitch.

Ainda assim, é outra grande prova de que ele era um dos melhores narradores que o cinema concebeu, que sabia usar rápidas cenas para transmitir o que dizia - veja, por exemplo, o início: com um beijo rápido, temos a impressão de que Kelly e Milland formam um casal feliz. Duas cenas depois, testemunhamos Kelly com o amante. E toda a nossa noção de satisfação e felicidade foi por água abaixo, com um simples corte de câmera.

Detalhes assim é que engrandecem Hitchcock e o colocam no panteão dos gênios.

Sexta-feira, Outubro 08, 2004


REDENTOR
Brasil - 2004
Direção: Cláudio Torres

Um filme muito do esquisito. Essa é a primeira idéia que eu tive desta estréia de Cláudio Torres na direção. Mas nunca um filme ruim: Redentor é uma verdadeira alegoria fantasiosa sobre a atual situação de corrupção e decadência moral em que vive nossa sociedade brasileira. Ninguém presta na história de um jornalista amargurado por conta de um apartamento que nunca teve e que precisa voltar a se envolver com antigo amigo - o mesmo responsável pela sua desgraça.

Claro que não é só isso. Na metade, o filme torna-se um exercício louco de fantasia e anti-naturalismo (aliás, acho estranho como todas as sinopses da fita vem contando pontos fundamentais do roteiro, que seriam muito melhor apreciados se vistos sem qualquer conhecimento prévio). Torna-se a tal alegoria, com situações bastante malucas e muitos efeitos especiais.

Tudo para falar de uma coisa que todos adoramos: dinheiro. Porque Redentor nada mais é do que uma visão de como o dinheiro transforma homens e mulheres em animais selvagens, em como a grana cega e transtorna. A seqüência final, com o personagem de Miguel Falabella cercado por favelados pedindo sua cabeça, me lembrou muito momento semelhante em "M - O vampiro de Düsseldorf", quando Peter Lorre está prestes a ser linchado pelos mafiosos e pela população. As intenções e propostas são totalmente diversas, mas aquele momento de anarquia é o mesmo.

Só que, aqui, luta-se por dinheiro - aquilo que move todos os personagens, aquilo que os faz vender a própria alma, que os torna pessoas podres e mesquinhas, deixando totalmente de lado um passado limpo e honesto. O filme acerta aí: em abordar o Brasil de hoje numa ótica incomum, sem procurar entender o porquê e apenas expor essa loucura toda onde vivemos - semelhança, já esta parecida em suas propostas, com outro ótimo filme brasileiro, "Durval Discos".

Se há algo que não me agradou, foram os minutos finais, mostrando o destino de Célio (o jornalista interpretado por Pedro Cardoso). Depois de tanta lambança que ele fez, o que lhe ocorre é moralista demais, mesmo que tenha cumprido sua missão - o que aconteceu de uma forma não tão louvável assim. Ao menos a última cena, na prisão, é um poço de ironia e deboche.

E não sei se é por ser filho de Fernanda Montenegro e Fernando Torres, mas Cláudio Torres elencou uma série de nomes impressionantes pra seu primeiro filme. Duvido que um estreante sem esses pistolões conseguiria tal feito: os citados Pedro Cardoso, Miguel Falabella, Fernanda Montenegro e Fernando Torres, mais Stênio Garcia, Camila Pitanga, Enrique Diaz, Mauro Mendonça, Tony Tornado, Lúcio Mauro, Paulo Goulart, José Wilker e Fernanda Torres. Ufa, que constelação. O diretor que não me venha dizer que a presença desse tropa NÃO se deveu aos pais que tem...

Quinta-feira, Outubro 07, 2004


A DONA DA HISTÓRIA
Brasil - 2004
Direção: Daniel Filho

Esse filme do Daniel Filho tá com a maior pompa de sucesso de bilheteria, principalmente pela mega divulgação que caracteriza a Globo Filmes. Se é bom? Aí o papo é outro. Como escrevo "oficialmente" para jornal e site, uma de minhas missões foi fazer uma crítica de A dona da história para o Cinefilia. Se quiser ler meu texto completo, é só clicar aqui. Olha um trechinho do palpite:

Como fez em "A partilha", seu longa anterior, Daniel Filho não se satisfaz em ter uma premissa excelente a ser trabalhada. Ele precisa tentar dar a sua cara ao filme, deixar claro a cada espectador que aquilo na tela não é uma comédia amargurada, mas algo fantasioso, fabular. Isso pode ser um grande trunfo na mão de um diretor de cinema talentoso, coisa que Daniel Filho não é.


É bom que, se você ainda não conhece o Cinefilia, vai ser boa oportunidade. Clica lá no link! :-)

Quarta-feira, Outubro 06, 2004


A SUPREMACIA BOURNE
The Bourne supremacy (EUA - 2004)
Direção: Paul Greengrass

Não é por menos que este filme vem sendo muito elogiado. É um thriller de espionagem de primeira, ação de qualidade. Mesmo gostando muito, ainda prefiro o anterior, A identidade Bourne, que lidava com um tema mais original - o espião matador desmemoriado que sequer sabe de suas capacidades. A continuação, apesar de complementar o primeiro, acaba sendo uma trama de espionagem quase convencional, e ainda sofrendo certos vícios atuais do gênero (como a "câmera com Mal de Parkinson").

Porém, o maior trunfo é mesmo o personagem principal, muito bem interpretado por Matt Damon. Jason Bourne é uma espécie de anti-James Bond: ainda que seja um agente do governo que faz qualquer coisa para cumprir suas missões e enfrenta todo tipo de inimigo, Bourne simplesmente não sabe disso. Depois de perder a memória por conta de uma tarefa fracassada, ele tornou-se um deserdado, um perdido e abandonado, perseguido pelos antigos aliados e sem nem conhecer seu nome verdadeiro. Aos poucos ele descobre do que é capaz e vai percebendo o quanto era mortal e competente no que fazia, mas isso não o faz voltar a ser quem era, mas sim lhe dá nova compreensão de vida.

Em A supremacia Bourne, o grande momento que vai contra as regras dos filmes de espiões é quando o protagonista se encontra com uma das vítimas de sua vida passada. Ali, ele encara as conseqüências dos antigos atos, a força que seu trabalho tinha no cotidiano de gente que ele nem imaginava. O acerto de contas de Jason Bourne com a própria profissão e a reflexão da importância que ela tinha não apenas para seus contratantes, mas para os alvos, vão contra a definição-padrão de espiões governamentais que o cinema sempre vendeu - e no qual James Bond é a marca maior (curiosamente, os dois personagens aqui citados têm as mesmas iniciais nos nomes).

Não que eu não goste dos filmes de James Bond. Adoro, aliás. Mas as duas produções enfocando Jason Bourne dão uma visão menos comum ao assunto, menos fantasiosa e mais realista. Sem abrir mão das cenas alucinantes de tiros, perseguições e lutas, claro, às quais o diretor Greengrass (do ótimo "Domingo sangrento") mostra saber fazer muito bem.

Terça-feira, Outubro 05, 2004


SORRISOS DE UMA NOITE DE AMOR
Sommarnattens leende (Suécia - 1955)
Direção: Ingmar Bergman

Uma comédia de situação dirigida pelo quase fúnebre Bergman? Também achei estranhíssimo a primeira vez em que soube desse filme. Situado no início da carreira do sueco, antes mesmo do clássico O sétimo selo, é uma produção modesta, mas nunca pouco complexa ou interessante. Não tem o pessimismo ou o peso de fitas posteriores, como Persona ou o agonizante Gritos e sussurros.

Mas já aqui Bergman trabalha com os temas que marcam toda a sua filmografia: relacionamentos, principalmente familiares, envolvimentos românticos, "pactos" entre gente que se detesta mas quer manter as aparências. Bergman é conhecido por saber como poucos entrar na alma do ser humano através da imagem, de transtornar o espectador com poucos diálogos e cenas de impacto, jamais gratuitas. Aqui, o tom é mais cômico e irônico, na história de homens e mulheres às voltas com maridos, esposas, amantes e interesses mil.

Tudo rola em torno de sexo. Os personagens parecem o tempo todo quererem apenas se envolver romanticamente, estar uns nos braços dos outros. E não basta uma pessoa só: é quase um rodízio entre todo mundo. Bergman capta com brilhantismo as ambigüidades das atitudes de cada pessoa e as ambições existentes na sociedade e na classe alta.

No início eu senti estar vendo um filme de Luis Buñuel, maior mestre na arte de alvejar burguesia e novos-ricos (vide O anjo exterminador e tantos mais). Mas os caminhos de Bergman são outros, e ele está mais interessado em tentar sentir seus personagens de uma forma satírica a torná-los estranhos e caricaturais, como faz Buñuel. Sorrisos de uma noite de amor é um bom caminho para se começar a entender os rumos que o genial Ingmar Bergman seguiria na carreira, mas acredito que jamais poderia servir de referência dentro da sua vasta e invejável obra. É simplesmente um primeiro passo. Muito bem dado, diga-se de passagem.


RIO VERMELHO
Red river (EUA - 1948)
Direção: Howard Hawks

Foi o primeiro encontro de muitos entre o diretor Hawks e o ícone do faroeste John Wayne. E que encontro: interpretando um vaqueiro durão e exigente, Wayne está mais uma vez perfeito, beirando o vilanismo - acho que eu nunca o tinha visto tão detestável. Mas o carisma do cara é enorme, e mesmo "mau" ele nos conquista e hipnotiza.

Seu personagem, Dunson, é o motor da história. É ele que inicia a construção da fazenda, enriquece e depois fica à beira da falência no final da Guerra da Secessão. Sai pela estrada, tentando chegar ao norte do país para vender 9 mil cabeças de gado. No caminho, enfrenta dificuldades, resistências e até perde o gado. O filme tem como maior símbolo o Rio Vermelho do título, que serve de divisão entre os dois lados da região. E serve também de divisão do poder de Dunson: sempre que ele está ao norte, acaba sob rédeas de outros; ao sul, toma as rédeas para si. Não é à toa que ele perde o controle de seu rebanho depois de atravessar o rio...

Mas Rio vermelho, na essência, não é simplesmente a travessia de milhas e milhas de descampados para vender gado - apesar dessa ser sua maior força, servindo de "epopéia do capitalismo", como disse o crítico Luiz Carlos Merten. O filme acaba sendo a maturação do relacionamento entre pai e filho. Ou melhor, entre Dunson e seu filho adotivo, vivido por um estreante Montgomery Clift. É o embate entre os dois que vai carregar a trama e torná-la maior do que a missão da dupla. E é na definição dessa relação, na escolha entre amor ou ódio entre eles, que o filme vai terminar.

Outros interesses no filme: a cena do estouro da manada é uma das coisas mais impressionantes que já vi num faroeste; Hawks dá extrema importância a objetos, como o bracelete, o chicote e a calça de um vaqueiro morto; e a bela trilha sonora de Dimitri Tiomkin, também autor da música de Matar ou morrer.

Howard Hawks, grande diretor. É o segundo faroeste dele a que assisto. O outro foi Onde começa o inferno, também maravilhoso. E já estão na mira El dorado e Rio Lobo. Me aguardem!

Domingo, Outubro 03, 2004


PAUSA PARA A DEMOCRACIA

Estrearam nos cinemas de Juiz de Fora Redentor, A dona da história e Chamas da vingança - e ainda estou em débito com o elogiado A supremacia Bourne. Sem falar que estão me esperando aqui em casa Rio vermelho e Sorrisos de uma noite de amor.

Mas terei que fazer uma pausa neste domingo, já que é dia de eleições e eu voto fora de Juiz de Fora. Além de ter que me deslocar para Ubá daqui a pouco, ainda fui convocado pela empresa onde trabalho para fazer a cobertura das eleições na minha cidade, por TV e rádio. Enfim: tô lascado.

Então, volto na segunda e me entupo de todos esses filmes - se o trabalho deixar. Mas me aguardem! Enquanto isso, podem ir lendo e comentando os filmes dessa semana que passou, logo aí abaixo. Até a volta. E valeu!

Sábado, Outubro 02, 2004


FESTIM DIABÓLICO
Rope (EUA - 1948)
Direção: Alfred Hitchcock

Esse filmaço do "mestre do suspense" foi o primeiro em muitas coisas: primeira fita colorida do diretor, primeira vez que o próprio Hitch produziu seu filme, primeira parceria dele com o ator James Stewart, primeiro filme a ser filmado sem interrupção nos planos de cena. Uma experiência inédita no cinema, até então, e acredito que nunca superada.

Festim diabólico consiste em cinco longos planos-seqüências, com cortes imperceptíveis dentro de cada tomada. Para o espectador não familiarizado, é o seguinte: grosso modo, um plano no cinema é o período em que a câmera permanece ligada antes de um corte na cena. Segundo diz Truffaut no livro de entrevista com Hitchcock, um filme de 90 minutos costuma ter de 600 a 1.000 planos, dependendo da forma de montagem. No caso de Festim diabólico, a proposta era contar a história com o mínimo de interrupção, dando a sensação de tempo real e movimento constante. Então, foram filmados cinco planos, apenas.

Se já não fosse suficiente e admirável o trabalho técnico do filme, Hitchcock oferece aqui uma de suas melhores tramas (baseada em peça de Patrick Hamilton). A história de dois amigos que matam um terceiro pela curiosidade pura e simples é fascinante, em cada um de seus 80 minutos. E todo esse papo de plano-seqüência é perfeito, aumentando ainda mais a tensão. O diretor usa o seu raciocínio do suspense e, logo na primeira cena, dá a informação ao espectador que vai mover toda a história e manter os olhos de cada um de nós arregalados a cada passo dos personagens: um corpo é escondido dentro de um baú localizado na sala de um apartamento, onde serão recebidas diversas visitas - inclusive os pais do morto!

Usando esse gatilho, Hitchcock vai elaborando mais e mais o enredo, com muito humor negro e mórbido. Cria cenas fantásticas e mantém a característica do detalhe, do pequeno gesto ou objeto causadores de mais suspense (a corda, o baú, a cigarreira, o corte na mão...). Meu momento preferido é a "reconstituição" do crime feita pelo personagem de Stewart, quando ele especula o que pode ter acontecido naquela sala minutos antes: a câmera vai percorrendo cada detalhe do lugar, seguindo a narração do ator, e explora na mente do espectador a imaginação sobre o que de fato aconteceu. Coisa de gênio. E a cena final também é fabulosa, com os três rostos perplexos ante as sirenes.

Outro fator engrandecedor do filme é a dupla de protagonistas, vivida por Farley Granger e John Dall. Ambos, cada um à sua maneira, não sente qualquer tipo de culpa pela morte do amigo. O que os aterroriza, os faz tremer e perder o controle, é o simples risco de serem descobertos. Isso diz muito do filme em si. Aquilo que mais assusta o público não é o fato de que houve um assassinato brutal e gratuito, mas de que o morto pode ser achado a qualquer momento e acabar com o plano perfeito dos "heróis".

Acho assombroso esse jogo de Hitchcock com o espectador: ele manipula para que estejamos pensando como os dois, e não como pensaríamos numa situação normal. Toca nos medos profundos que todos temos de revelarmos determinados segredos, de expormos nossas fraquezas a quem tem mais chances de nos entender e, obviamente, condenar. Curiosamente, e mesmo com toda essa carga dramática e até filosófica, Festim diabólico nunca foi apreciado por Hitchcock. Ele acreditava que o filme ia contra suas próprias idéias de cinema. Palavras dele sobre o filme, tiradas do livro Hitchcock / Truffaut:
"Quando penso nisso, percebo que era completamente idiota porque eu rompia com todas as minhas tradições e renegava minhas teorias sobre a fragmentação do filme e sobre as potencialidades da montagem para contar visualmente uma história."

Lendo isso e vendo Festim diabólico, eu me sinto muito satisfeito em poder pensar que, mesmo "errando", Hitchcock era genial em todos os sentidos.

Sexta-feira, Outubro 01, 2004


ABSTINÊNCIA

Dois dias sem ver filme algum. Ai, estou em crise de abstinência séria... Tudo por causa de uma série de imprevistos no meu trabalho, debates de candidatos a prefeitos daqui de Juiz de Fora e que tive que acompanhar ao vivo na empresa de onde sou jornalista, mil problemas mais. Incrível como, às vezes, não temos controle da nossa vida e, quando piscamos, o dia acabou - e metade de seus planos foram para o espaço.

Enfim: hoje estive na locadora e me armei de três garantias de bom cinema, todos em VHS:
1) RIO VERMELHO, inédito pra mim, com direção do grandioso Howard Hawks
2) FESTIM DIABÓLICO, que vou "reprisar", de Alfred Hitchcock
3) SORRISOS DE UMA NOITE DE AMOR, outro inédito, do melancólico Ingmar Bergman.

E ainda recebi a excelente notícia de que uma amiga vai poder gravar pra mim ELOGIO DO AMOR, filme de Jean-Luc Godard de 2001 e inédito comercialmente no Brasil.
É, parece que os horizontes cinematográficos a partir de hoje vão melhorar. Tomara que a vida deixe, :-)


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