Impressões Cinéfilas

Terça-feira, Novembro 30, 2004


ABSTINÊNCIA - PARTE II

A vida é uma coisa engraçada. Tenho um cotidiano muito simples e constante: acordo, vejo filmes ou leio livros (e nado às terças e quintas), almoço, vou trabalhar, volto à noite, vou ao cinema ou vejo mais filmes, acesso a net, leio antes de dormir, durmo.
Basicamente, é isso, com algumas variações. Mas às vezes essas variações são tantas que mudam completamente esse dia-a-dia. É o que vem acontecendo desde sexta-feira: inúmeros compromissos ou imprevistos vêm me tirando o fôlego de tal maneira que seguer consigo ler ou ver meus filmes do jeito que eu quero. Desde sexta não vejo NADA - o que, pra mim, é terrível, fico meio enlouquecido.

Então, claro, o blog anda devagar. Mas acredito que até o final dessa semana a coisa acalma e tudo volta ao normal. Ao menos é o que espero... Enquanto isso, vão deixando comentários aí que vou respondendo. E quem quiser, pode ler um extenso artigo que escrevi sobre o diretor iraniano Abbas Kiarostami no Cinefilia. Acessa aí!

Domingo, Novembro 28, 2004


O EXPRESSO POLAR
The Polar Express (EUA, 2004)
Direção: Robert Zemeckis

Assisti a este filme numa sessão especial de imprensa, coisa rara aqui em Juiz de Fora. Explico: diferente de cidades maiores e capitais, as distribuidoras não levam em consideração os jornalistas do interior. Desde que moro aqui, e ouso dizer que nunca tenha acontecido antes disso, JAMAIS houve uma sessão especial promovida pela distribuidora do filme. Geralmente quem organiza as poucas que costumam rolar são os donos dos cinemas mesmo, que querem boa relação com a imprensa. No caso de O expresso polar, vi no Duocine Santa Cruz, propriedade de um cara muito bacana, o Fernando.

Mas ao filme: como escrevi detalhadamente dele no Cinefilia, gostaria que vocês acessem e lessem lá. Tá na capa do site, é só clicar nesse link aí. Aproveitem para conhecer o que mais temos a oferecer. E comentem também, seja aqui ou lá. Adianto apenas que não gostei muito, nem achei isso tudo que andam comentando.

Logo volto com mais "pílulas" aqui mesmo.

Sexta-feira, Novembro 26, 2004


RESUMÃO CINÉFILO

Puxa, quanta coisa! Todo enrolado, sem tempo pra vir aqui, pra escrever pro meu site (o Cinefilia), etc etc. E pra piorar, andei meio desanimado de escrever aqui, não por qualquer motivo específico, mas por outras coisas. Enfim: nesse meio tempo fui vendo muita coisa, então é impossível detalhar tudo. Assim, pela primeira vez, vou fazer o RESUMÃO CINÉFILO, comentando rapidamente alguns dos filmes a que assisti nos últimos dias (apenas alguns mesmo, por enquanto). Por favor, comentem!

AS BICICLETAS DE BELLEVILLE (Silvain Chomet - França, 2003) - precisa dizer? Animação fantástica, cheia de detalhes, contando uma história nostálgica e beirando o surreal, com música-tema altamente contagiante. Que Disney que nada, a França também sabe desenhar... Só não morro de raiva pelo filme não ter levado o Oscar porque o ganhador foi Procurando Nemo - mas ouso dizer que a Academia seria muito mais louvável se inovasse e desse a estatueta a algo tão mais original.

A DANÇA DOS BONECOS (Helvécio Ratton - Brasil, 1986) - teve uma retrospectiva desse diretor mineiro aqui em Juiz de Fora e, pela primeira vez, vi o longa de estréia dele, que existe em VHS. Bonito filme, voltado ao público infantil e emanando ingenuidade e crença nos sonhos que comove o espectador. O personagem vivido por Wilson Grey é fascinante na sua "vilania" e nas atitudes que querem apenas fazer com que seu trabalho seja o sucesso sonhado por ele. Os bonecos do Grupo Giramundo, de Belo Horizonte, arrasam em cena - diferente da garotinha protagonista, por vezes irritante demais.

DONNIE DARKO (Richard Kelly - EUA, 2002) - loucura escrita e dirigida por Kelly, filme de viagem no tempo mais psicodélico e lunático dos últimos tempos. Uma espécie de "Efeito borboleta complicado", bem mais interessante, complexo e sutil. O desenvolvimento da trama vai inserindo tamanha gama de elementos que, ao final, o mais surpreendente nem são os acontecimentos, mas o fato do diretor conseguir agregar tudo num desfecho meio anárquico. Se eu entendi? Sei lá. Acho que sim. Mas que eu gostei, gostei.

MÁ EDUCAÇÃO (Pedro Almodóvar - Espanha, 2004) - apesar de muito bom, não é tão impactante e sublime quanto os anteriores Fale com ela, Carne trêmula e Tudo sobre minha mãe, este ainda imbatível na filmografia do espanhol. De qualquer forma, filme muito bonito, de temática delicada e servindo de grande declaração do amor de Almodóvar ao cinema. Na verdade, é mais interessante enxergá-lo como um caldo de referências muito bem amarradas (espécie de Kill Bill sem sangue) para contar o drama de um relacionamento que resistiu ao tempo.

KILL BILL VOL 2 (Quentin Tarantino - EUA, 2003) - dos melhores do ano, sem dúvida. Impressionante como Tarantino conseguiu conceber uma segunda parte de seu épico tão mais madura, tocante e intimista. Adoro o primeiro, acho uma grande brincadeira com o cinema; já esse aqui vai mais ao íntimo, desenvolve e até subverte a trama principal - e sem abrir mão de seqüências arrasadoras de ação. Tarantino provou de vez que voltou para ficar. Tomara que ele não demore muito para entregar outras pérolas - se bem que, enquanto isso, a gente pode ir desgustando com calma toda a saga da Noiva, filme único a se rever várias e várias vezes.

EXORCISTA - O INÍCIO (Renny Harlin - EUA, 2004) - menos horroroso do que eu esperava, o que em nada redime tamanha bobagem desnecessária. Prova maior da sanha de Hollywood em ganhar dinheiro com sucesso alheio - quem foi o gênio que bateu na testa e disse "vamos mostrar como o Padre Merrin conheceu o demônio!" (esse vai arder no inferno). Filme que grita pelo espectador, em vez de deixá-lo se apavorar (como faz Shyamalan, por exemplo), tentativa tresloucada de gerar pulos e calafrios na platéia usando os clichês de portas, sons nojentos, perseguição gratuita. Impossível não se revoltar ao ver uma possuída pelo tinhoso pulando e rodopiando pelas paredes - quando sabemos que, apenas deitada e quase imóvel, a garotinha Regan ainda consegue nos matar de medo em O exorcista original. Ponto apenas para Stellan Skarsgard, ator excelente que, sabe-se lá porque, caiu nessa bomba DUAS vezes (já que o filme foi inicialmente rejeitado para depois ser refilmado do zero).

Quarta-feira, Novembro 17, 2004


URUCUBACA SOLTA

Eu sei, eu sei, dei uma sumida altamente discutível. Mas é que, desde o feriadão, viajei, machuquei, tive um problema de saúde extremamente incômodo e ainda estou com uma falta de tempo absurda. Até estou vendo muita coisa, mas acessar computador pra escrever tá foda (agora, por exemplo, estou entupido de coisa aqui no trabalho... Fazer o quê?

Mas em breve eu volto com algumas boas pérolas (O grande golpe, O vento nos levará, Donnie Darko, Má educação...). Até lá! E não desistam de mim...

Quinta-feira, Novembro 11, 2004


A CASA DAS ADAGAS VOADORAS
Shi mian mai fu (China, Hong Kong - 2004)
Direção: Zhang Yimou

Sou grande fã do cinema desse chinês. Acostumado a ver seus filmes intimistas, como Lanternas vermelhas e Amor e sedução, ou mesmo a apoteose romântica e delicada de O caminho para casa, só acreditei que ele tinha experimentado o cinema de ação quando terminei de ver, maravilhado, este filme.

Feito e lançado depois do elogiado Herói, previsto para chegar ao Brasil no dia 31 de dezembro, A casa das Adagas Voadoras gerou boca-a-boca em Cannes esse ano e foi menos bem recebido que seu antecessor. Sem previsão de lançamento comercial por aqui, consegui ver numa mostra de filmes chineses que rolou em Belo Horizonte na semana passada.

Filmaço. Que O tigre e o dragão que nada, Yimou radicaliza o que vimos nas lentes de Ang Lee e leva a ação oriental a parâmetros inimagináveis de beleza física e estética, num balé de lutas, sangue e morte de chorar. A seqüência inicial, no prostíbulo, é uma coisa indescritível, de poesia inegável. Ou mesmo todas as cenas na floresta e na neve.

A trama á batida (soldado espiona moça suspeita de fazer parte de um clã rebelde e ambos se apaixonam), mas a "historinha" é o que menos importa. Quando a linda Zhang Ziyi começar a pular com o véu, quando ela, cega, passar a atirar as tais adagas voadoras, milimetricamente feitas para atingir os alvos, o que jamais vai passar pela cabeça do espectador é o desenrolar do roteiro. Zhang Yimou fez filme para ver, sentir e se deleitar.

E ainda dizem que Herói é melhor. Já estou roendo as unhas de ansiedade.


NINA
Brasil - 2004
Direção: Heitor Dhalia

Filme até interessante, mas as vontades do diretor de criar uma espécie de "liguagem estranha" ou "ousada" esteticamente, em vez de impulsionar os significados da obra, acaba por abafá-los. Lembra bastante Repulsa ao sexo, do Polanski - mas no que este ganhava em terror por conta do pouco visto e muito insinuado, Nina perde impacto ao querer dar substância demais a caldo de menos.

Não é ruim, ainda mais em vista de tantas porcarias em cartaz. Mas não chega a ser um tratado social ou mesmo uma demonstração de obsessão em meio ao caos urbano, como andam dizendo. É um filme bem feito, sombriamente fotografado, atuação excelente de Guta Stresser e Myriam Muniz. Nada além do óbvio, do apresentado.

Aumentando ainda mais a sensação de que o diretor não soube dizer o que queria, há participação de diversos atores de destaque no cinema brasileiro atual. Só que eles aparecem em pontas absolutamente gratuitas e claramente servindo de chamariz para o público - o que mais dizer de Selton Mello atendendo uma porta com cara de drogado ou da estúpida cena entre Matheus Nachtergaele e Lázaro Ramos? Ao menos Wagner Moura teve um momento bem mais ativo (literalmente), diferente também de Renata Sorrah, quase deslocada.

Em Redentor, Cláudio Torres fazia coisa parecida ao entupir seu filme de caras conhecidas. Ele ao menos aproveitava essas caras. Heitor Dhalia apenas as usa de enfeite - assim como o próprio filme, que serve de enfeite ou amostra grátas do que de melhor o cinema brasileiro tem potencial para realmente produzir com qualidade superior.

Segunda-feira, Novembro 08, 2004


CHEGANDO DE VIAGEM....

Acabo de chegar de Belo Horizonte, onde fiz um curso de especialização na minha área de atuação, jornalismo cultural. Foi excelente, mas desgastante: oito horas por dia de curso, durante todo o sábado e domingo. Ufa...
E claro, não tinha computador para olhar a internet. Resultado: dezenas de e-mails aqui no trabalho, outras dezenas em casa e um monte de coisa pra fazer.

Volto ao blog hoje ou no máximo amanhã, comentando dois filmes que eu vi em BH: "A Casa das Adagas Voadoras", do Zhang Yimou, e "Nina", do Heitor Dhalia. Me aguardem!! :-)

Sexta-feira, Novembro 05, 2004


POR UM PUNHADO DE DÓLARES
Per um pugno di dollari (Itália - 1964)
Direção: Sergio Leone

Este filme seria o momento em que o genial diretor Leone estaria engatinhando no seu projeto de cinema. Foi o primeiro filme dele a chamar atenção de crítica e público, tornando conhecido também o então astro de TV Clint Eastwood. Depois, Leone teria a glória ao dirigir alguns dos filmes mais maravilhosos do cinema, em especial dentro do gênero faroeste.

Apesar de muito bom, Por um punhado de dólares não seria o filme ideal para "conquistar" novos adoradores de Sergio Leone. Dentro da sua filmografia "pessoal" (o que exclui seu primeiro longa, O colosso de Rodes), é o menos espetacular. Baixo orçamento, poucos atores de expressão, o filme narra o conto de pistoleiro que chega a um vilarejo e arranca dinheiro de duas famílias rivais e dominadoras. Inspirado em Yojimbo, de Kurosawa, não ousa tanto quanto nos filmes posteriores, mas já dá idéia do que viria a seguir.

Não ousa para os padrões atuais, na verdade. Porque o filme foi uma revolução dentro do faroeste. Numa época em que este gênero tipicamente americano começava a dar sinais de crise e cansaço, veio Leone, lá da Itália, mostrar a sua visão para o oeste dos EUA: pistoleiros sujos, amorais, só pensando em dinheiro e poder, sem perspectivas. Coisa muito diferente dos defensores da lei consagrados na América. O filme mudou a forma de se ver e fazer faroestes.

Bom para o cinema, bom para o público, que viu nascer em Por um punhado de dólares um verdadeiro gênio da arte, ouviu pela primeira vez, com o destaque que merecia, os acordes de um tal Enio Morricone e testemunhou uma revitalização extrema para um estilo que, hoje, voltou a decair. Pena não existirem mais pessoas como Sergio Leone.

CURIOSIDADE: no DVD do filme, em edição meio porca, é possível ver Por um punhado de dólares tanto com áudio em inglês quanto português, naquelas dublagens antigaças de televisão. O mais esquisito é que, nessa versão dublada, a trilha sonora muda. Isso mesmo! Basta testar: em alguma determinada cena, se você vê no original, toca os sons de Morricone; se mudar o áudio para português, começa a tocar umas cordinhas irritantes que tiram totalmente o brilho das cenas. Eu, hein...

Quarta-feira, Novembro 03, 2004


CHAMAS DA VINGANÇA
Man on fire (EUA - 2004)
Direção: Tony Scott

Impressionante como o cinemão americano não cansa de fazer filmes extremistas, beirando o fascismo. Da safra recente, lembro de cara Efeito colateral, Entre quatro paredes, o detestável Bad boys 2, O vingador e agora Chamas da vingança. Filmes que usam a violência como forma de acerto de contas, que partem do princípio de que, acertou a minha vida, merece morrer sem dó nem piedade.

Não é questão de ser politicamente correto. Refiro-me a uma ideologia constante de que é louvável e justo partir para a briga e eliminar o "mal". Típico de uma era Bush? Talvez, o que em nada justifica os filmes absurdos que andam surgindo. Chamas da vingança é mais um triste exemplo. É covarde a partir do momento em que a primeira hora serve para "amaciar" o público, mostrar o protagonista durão voltando a querer viver por conta da doce garotinha a quem ele protege. Tudo muito bonito e sensível, filmado de forma crua com uma fotografia que faz questão de ressaltar o perigo iminente da América Latina (e não apenas do México, como o filme quer fazer crer).

Aí vem a virada: a garotinha é seqüestrada e o protagonista se arma até os dentes para se vingar. Vale tudo: torturas, invasão de privacidade, ameaça à vida de inocentes, tiroteios no meio da rua. Para que o espectador não ache aquilo uma barbaridade, são recorrentes imagens da garotinha nadando ou sorrindo, para depois voltar às calamidades do "herói". Pensamento imediato: "mas esses mexicanos merecem, como puderam fazer aquilo com uma menina inocente? Tem que se vingar mesmo!" E não tem pra ninguém: dá-lhe Denzel! Arrasa, arranca, explode, atira.

Só que não é apenas o filme que é covarde. O diretor Tony Scott também: na hora da conclusão, cria uma surpresa que mostra toda o seu medo em se assumir um extremista, ao entregar um final moralista e "redentor". Faça-me o favor! Depois desse filme, estou preparando uma coluna sobre o cinema extremista, a ser publicada no Cinefilia. Esses cães...


SHOW DE VIZINHA
The girl next door (EUA - 2004)
Direção: Luke Greenfield

Esse filme saiu de cartaz aqui em Juiz de Fora, mas acabou voltando. Então, fui conferir na repescagem. Confesso que meu único interesse no filme era ver a linda e sensual Elisha Cuthbert (a chata da Kim Bauer na série 24 horas) numa tela grande. Se ela era aquela formosura na tela da TV, imagina no cinema... Nham-nham-nhammmm...

Claro que ficaria melhor se o filme fosse, no mínimo, interessante. Mas é uma besteira e chatice só. Começa bem, engraçado e até divertido (mesmo seguindo os velhos estereótipos de filme-de-colégio-americano, em que os nerds são feios mas legais, e os "burros" são bonitos mas imbecis). Começa bem, com tiradas engraçadas, até que a Elisha revela seu segredinho (ela é uma ex-atriz pornô). Aí o filme descamba, com situações totalmente despropositadas, sem sentido e desnecessárias. Ficaria melhor se fosse mantido o conflito entre o casal principal, mas o roteiro não se satisfaz com isso e quer fazer graça em outras paradas.

Esses filmes adolescentes americanos têm uma visão absurda sobre a juventude: os jovens querem apenas saber de sexo, não são dignos de respeito enquanto não transarem e jamais farão parte da turma dos descolados enquanto não perderem a vrigindade. Idéias vendidas ao mundo em pacotes de besteiras burras e quase de mau gosto. Exceção recente: Meninas malvadas, filmaço cínico, original e nada alienado, que enxerga nessa mesma juventude caminhos perigosos a serem seguidos.

Pena que, para cada Meninas malvadas, existam centenas de pragas como Show de vizinha.


Quer falar comigo? Escreva-me! Site Meter Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com