Impressões Cinéfilas

Segunda-feira, Janeiro 31, 2005


CHEGANDO DE TIRADENTES - PARTE II

Pois é, andei sumido (de novo), mas por uma boa causa: arregimentei meu retorno à Mostra de Cinema de Tiradentes com a direção do jornal em que trabalho e me tornei o "enviado especial" deles pelo segundo ano. Ou seja: juntei o serviço ao prazer em correr de um lado a outro num festival de filmes na maravilhosa e barroca Tiradentes. Como fiz na semana passada, vou postar aqui nos próximos dias as matérias que fiz por lá - junto a umas e outras impressões.

Agora, cá entre nós, posso contar de antemão que estive com o grande Carlão Reichenbach. Depois de assistir ao último filme dele (o sensacional Bens confiscados, exibido na sexta-feira a uma platéia de aproximadamente mil pessoas - veja foto), saímos eu, ele e a turma da produção e elenco pra jantar. O mais bizarro é que fiquei na cola do Carlão. Foi engraçado, porque morri de vergonha de ficar incomodando. Por ser oportunidade rara, venci a timidez - e Carlão, gentil como sempre, me acolheu muito bem e ainda me ofereceu metade do talharim à putanesca que a mulher dele pediu no restaurante (já que o prato era muito farto, e ela não iria agüentar).

Trocamos várias idéias de cinema, jornalismo, política e mais umas besteiras que vêm junto com a madrugada. Bem bacana. Sobre a mostra, aguardem que ainda hoje eu volto.

Quinta-feira, Janeiro 27, 2005


ELEKTRA
Elektra (EUA - 2005)
Direção: Rob Bowman

Escrevi mais detalhadamente do filme no Cinefilia. Convido a todos para acessarem o site, lerem e comentarem (aqui ou lá). Abaixo, segue trecho do texto:

Se Frank Miller não estivesse vivo, certamente ia se remexer no túmulo. Uma das maiores criações na sua brilhante carreira de quadrinhos, cujo ápice se deu nos anos 60 e 70, ganhou um filme totalmente aquém do que ela realmente é. Aliás, mal dá para entender como "Elektra" passou pelo crivo de Miller - isso, se passou. A produção dirigida por Rob Bowman e escrita por Raven Metzner, Zak Penn e Stu Zicherman praticamente ignora as principais características da personagem original para criar uma história que sequer a trata como o centro da narrativa.

Quarta-feira, Janeiro 26, 2005


"O CINEMA É UMA LÍNGUA"

Abaixo, outra matéria minha publicada no jornal PANORAMA sobre a 8ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Estive na coletiva do Walter Lima Jr, que é o homenageado deste ano. Segue o texto:

Não é à toa que Walter Lima Jr tem uma relação paternalista com seus filmes. Dono de um estilo que agrega sensibilidade ao teor quase sempre doloroso de seus filmes (vide Inocência, A lira do delírio e A ostra e o vento), o diretor carioca de 66 anos está sendo o principal homenageado este ano na 8ª Mostra de Cinema de Tiradentes, maior vitrine do cinema brasileiro em Minas Gerais. Em entrevista na sexta-feira, Walter falou que sente-se como pai e filho em relação aos seus filmes. Disse que "os cria para entregá-los ao mundo".

"Meus filmes falam comigo enquanto os estou fazendo. Depois nem quero saber deles", comentou, reconhecendo a força da obra artística após a feitura e entrega ao público. Público, aliás, que lotou o Cine-Tenda, no mesmo dia, para assistir à cópia restaurada de Menino de engenho (1965), clássico do Cinema Novo e primeiro trabalho de Walter Lima como diretor. O filme mantém o encanto ao contar a vida de um garoto que precisa conviver com a família numa fazenda de cana, após a morte da mãe. Inspirado em romance de José Lins do Rêgo, a produção já apresenta a força do cinema de Walter, o poder de sintetizar sentimentos em poucas e singelas imagens.

"O cinema é uma língua. E devemos conhecer a linguagem do cinema para desrespeitá-la", afirma, com o conhecimento de quem aprendeu sobre filmes em cineclubes, entupindo-se de clássicos americanos e soviéticos e das "loucuras" da turma do neo-realismo italiano e da nouvelle vague francesa. Ele explica o motivo do rigor e elegância estética de sua obra: "Na base, ainda sou um espectador de cinema. Então, isso se deve a esse meu olhar apurado".

Walter Lima Jr está para começar a filmar seu 12º longa, Os desafinados. Já no clima, diz que "filmar muito é acordar uma nova pessoa todos os dias. Isso é refletido nos filmes". Walter Lima, guerreiro remanescente do Cinema Novo, ex-assistente de Glauber Rocha, produtor, professor, estudioso, é um cineasta ainda a ser mais visto pelo público brasileiro.

Terça-feira, Janeiro 25, 2005


MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES: O PRIMEIRO FINAL DE SEMANA

Abaixo, reprodução de matéria minha, redigida para o jornal PANORAMA e publicada na edição de hoje, sobre os primeiros dias da oitava edição da mostra

Nem a chuva foi capaz de brecar os primeiros três dias da 8ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Na sexta-feira, primeiro dia do evento, a programação, como de praxe, pegou leve: cerimônia de abertura, homenagens (este ano os agraciados foram o diretor carioca Walter Lima Jr e o videomaker mineiro Cao Guimarães) e exibição de um filme (no caso, de Vinho de rosas, longa-metragem de estréia de Elza Cataldo).

Mas é no segundo dia que as coisas esquentam. No sábado, 22 de janeiro, Tiradentes se viu invadida por turistas de todas as partes do país, dispostos a enfrentar filas e filas para uma vaga nas concorridas sessões gratuitas de filmes brasileiros inéditos no circuito comercial. A mostra adotou a edição de 2005 como a do "Primeiro Cinema", boa parte dos longas selecionados é de cineastas estreantes.

A chuva, que despencou dos céus no final da tarde, não segurou o ânimo nem dos organizadores e muito menos dos espectadores. Já que tornou-se impossível exibir em praça pública, no Largo das Fôrras, os filmes programados Vida de menina (foto) e Fábio Fabuloso, ambos foram transferidos para o Cine-Tenda, no Largo da Rodoviária - onde já estavam agendados Menino de engenho e Quase dois irmãos. Resultado: tumulto na entrada da sala, com capacidade para 800 pessoas, mas que acabou comportando muito mais do que isso.

Sem falar na maratona que a mostra se tornou. Se, por conta de horários coincidentes, o espectador precisava escolher filmes para assistir e eliminar outros, o aguaceiro fez com que todos os quatro filmes fossem exibidos na seqüência. Os cinéfilos que insistiram em segurar seus lugares na tenda tomaram uma overdose cinematográfica que durou até pouco antes das 4h da madrugada. Para quem gosta, não podia ter acontecido coisa melhor.

Já no domingo, com a trégua da chuva, finalmente a praça foi espaço para um filme programado. Dom Helder Câmara - O santo rebelde, documentário de Erika Bauer, apresentou a uma multidão a trajetória de um homem ímpar, que sabia como se comunicar com as massas e tinha idéias que propunham, na essência, trazer justiça ao mundo. Na tenda (mais uma vez entupida de gente), dois foram os filmes da noite: outro documentário, O cárcere e a rua, sobre o cotidiano de três mulheres encarceradas na cadeia; e O diabo a quatro, comédia chanchadeira dirigida por Alice de Andrade.

Diferente de boa parte dos festivais de cinema no Brasil, a Mostra de Tiradentes não tem caráter competitivo. Serve mais de vitrine dos filmes do que de uma "guerra silenciosa" entre eles. O que conta é mesmo o público - e não é à toa que a única premiação seja a do júri popular, decidida através de votos dos espectadores nos filmes que assistem. Um termômetro para se perceber o gosto geral é a reação após as sessões. A recepção mais calorosa foi ao filme Quase dois irmãos, de Lucia Murat: aplausos calorosos, gritos efusivos e rosto satisfeito tornaram este pesado drama de prisão, que aborda a guerra entre presos políticos e comuns em plena ditadura militar, num dos favoritos ao Troféu Barroco.

Bem recebidos também foram os dois documentários, Fábio Fabuloso - uma surpresa inclusive para dois dos três diretores do filme, Antônio Ricardo e Pedro Cézar, que se assustaram (no bom sentido) com a presença maciça do público em pleno início da manhã - e O cárcere e a rua (foto), cujas mulheres abordadas pela diretora Liliana Sulzbach parecem ter conquistado a platéia. O jeito simples e quase ingênuo de Betânia, a força e garra de Cláudia e o desespero sincero mesclado à posterior maturidade de Daniela tornam esse trio muito mais do que condenadas a penas na prisão - elas se tornam sublimes lutadoras por uma vida mais digna. Vida de menina, de Helena Solberg e considerado melhor filme no júri do Festival de Gramado em 2004, teve apenas aplausos diplomáticos, ainda que, no boca-a-boca, pareça ter agradado a muita gente.

Segunda-feira, Janeiro 24, 2005


CHEGANDO DE TIRADENTES

Acabo de chegar da 8ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Foram dois dias, cinco filmes e três coletivas de imprensa (inclusive um papo muito legal com o Walter Lima Jr, homenageado desse ano). Fiz matérias para o jornal PANORAMA, onde trabalho, e para o meu site Cinefilia. Se quiserem ler alguns comentários sobre os filmes que vi no sábado, podem acessar aqui. Os filmes de domingo eu publico ainda hoje no site também. E vou tentar copiar aqui para o blog a matéria sobre o Walter Lima, pra turma conhecer as boas idéias do cara.

Por enquanto é isso.

Sexta-feira, Janeiro 21, 2005


A CAMINHO DE TIRADENTES



Acreditem se quiser, mas o último filme que vi até hoje foi mesmo Bronco Billy, comentado aí embaixo. O que acontece é que esta semana foi quase toda tomada pela "produção" da minha viagem para a Mostra de Cinema de Tiradentes. É um corre-corre por conta de reserva em pousada, passagens, horários que devem bater (são necessários dois ônibus pra chegar daqui até lá) e mais pequenos detalhes bem chatinhos. Então, sobrou pouco tempo para ver filme - ironicamente, tudo para poder ir a um evento de filmes!

O que me anima é que, como todo ano, Tiradentes promete. É a quarta vez que vou à mostra. Nesses anos, vi filmes lá que, depois, nunca mais tive oportunidade: Filme de amor, do Bressane; O signo do caos, último do Sganzerla; Garotas do ABC, do Carlão Reichenbach; Samba Riachão, de Jorge Alfredo; Apolônio Brasil, de Hugo Carvana; De passagem, do Ricardo Elias; e mais uma penca.

Em 2005, devo conseguir pegar Menino de engenho, do grande Walter Lima Jr, que será o homenageado da mostra e cujo filme de estréia, lançado em 1965, será exibido em cópia nova. Também deve rolar Quase dois irmãos, da Lucia Murat, e O diabo a quatro, da Alice Andrade (filha do lendário Joaquim Pedro de Andrade, diretor de Macunaíma e Os inconfidentes).

Como perceberam, a Mostra de Tiradentes, que este ano chega à oitava edição, é exclusivamente de filmes brasileiros - entre longas, curtas e vídeos. Para este ano, estão programadas 149 obras, em nove dias de evento - de hoje até 29 de janeiro. Uma pena que só posso ir este final de semana, por conta do meu trabalho, que não me permite ficar mais tempo. Isso me fará sacrificar filmes que eu queria ver MUITO, como os elogiados Filhas do vento, do Joel Zito Araujo, e Bendito fruto, de Sergio Goldenberg; e principalmente Bens confiscados, novo trabalho do nosso amigo Carlão e em exibição na sexta, dia 28. Paciência...

Podem ver a programação completa da mostra no site oficial.

Devo fazer um pequeno diário da minha viagem no Cinefilia. Quem quiser pode acompanhar. Na volta, talvez eu cole o diário aqui, mas de qualquer forma podem ir acessando o site nos próximos dias para ir sabendo das minhas (sempre bizarras) aventuras na cidade barroca. Fui!

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005


BRONCO BILLY
Bronco Billy (EUA - 1980)
Direção: Clint Eastwood

Na espera ansiosíssima por Menina de ouro, assisti ontem a Bronco Billy, única comédia dirigida por Clint Eastwood. Pois é, o cara que radiografa como poucos a realidade e violência da América enveredou pelo humor no início dos anos 80. Foi uma experiência fracassada, já que o filme não fez sucesso. De qualquer forma, é obra importante na carreira do diretor por dois motivos, no mínimo: manter algumas de suas idéias, trabalhadas ao longo da carreira; e ser, assumidamente, um filme pelo qual o próprio Eastwood guarda enorme carinho.

Não é para menos: é um dos personagens mais carismáticos de sua carreira. Ambíguo, por vezes durão e irritado, Billy McCoy é realmente adorável. Sempre preocupado com o bem-estar dos colegas, ele coordena um mixuruca espetáculo inspirado no Velho Oeste (analogia ao próprio passado de cowboy de Eastwood). É uma produção que destoa da filmografia do diretor exatamente pelo seu lado meio utópico e otimista: inspirado na obra de Frank Capra, ele usa de artifícios simples e sensíveis para contar a história.

São pessoas comuns, do povo, ex-condenados que tentam uma segunda chance na vida. Paralelamente, surge em cena a dondoca que vai ter a vida modificada por essas pessoas e aprender a duras penas o que é ser humilde. Muito bonito, não é? Pois espere até ver quando a trupe se apresentar numa lona toda costurada com bandeiras norte-americanas!...

Bronco Billy é isso: um conto moral, em que todos sempre têm sua segunda chance, não importa quem ou como sejam. Para um cara que fez obras chocantes como Os imperdoáveis e Sobre meninos e lobos (sem falar dos mais antigos, como O estranho sem nome e Bird), soa realmente estranho encontrar algo como este filme na sua filmografia. Mas aí é que reside o interesse: conhecer a faceta "família" de Eastwood, seu lado humanista e cheio de fé. Não é de suas melhores obras, mas é obrigatória para conhecer a essência de seu cinema.

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005


AVE, CLINT!!!



Globo de Ouro de melhor direção por Menina de ouro


O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO
Brasil - 1968
Direção: José Mojica Marins

Impressionante este filme do mestre Mojica. Depois do impacto de À meia-noite levarei sua alma e Esta noite encarnarei no teu cadáver, pensei que não ia curtir tanto os outros filmes do diretor. Puro engano e precipitação: aqui, o cineasta mostra todo o seu talento, coloca à prova a capacidade incrível de contar histórias e cala a boca de qualquer um que tenha preconceitos contra o seu cinema.

O estranho mundo de Zé do Caixão é composto por três pequenos contos de terror. Todos falam, basicamente, de sexo e as suas variadas formas. Como católico ardoroso que é, Mojica, de forma moralista e sincera, parece condenar a sexualidade. Em cada uma das narrativas, não há subterfúgios: O fabricante de bonecas mostra quatro marginais tentando violentar quatro belas jovens, para sentirem a fúria do pai delas; Tara, o mais sublime e sensível dos contos, apresenta um vendedor de balões fissurado numa garota, esteja ela viva ou morta; e Ideologia leva ao extremo a idéia, na história de uma espécie de cientista tentando provar que o ser humano é movido por instintos.

Este último, inclusive, é bastante pesado: tem cenas explícitas de sadismo, crueldade, tortura e canibalismo. Há algo de Sergei Eisenstein quando Mojica mescla cenas de pessoas comendo partes de corpos humanos a imagens de animais peçonhentos. Barra pesada, mas no fundo está a vontade de Mojica em mostrar o quanto a perversão e o instinto desenfreado pode nos levar à decadência moral.

Tara é uma pequena obra-prima. Sem um único diálogo, a trama é apresentada. Mais uma vez o sexo aparece, aqui menos "condenado". De qualquer forma, o protagonista apenas consegue aplacar seu desejo com o sumiço da amada. E o vendedor colocando os sapatos nos pés da adorada após a concretização de seu maior desejo é quase de chorar...

Ainda que não seja tão espetacular quando os dois anteriores, O fabricante de bonecas funciona bem como conto de horror. Mojica talvez abuse um pouco na cena do estupro, estendendo-a além da conta, mas isso ajuda a concordarmos com o desfecho e mais uma vez encararmos o jeitão "pudico" e até conservador do diretor.

Sábado, Janeiro 15, 2005


AUDITION
Ôdishon (Japão - 1999)
Direção: Takashi Miike

O terror japonês está começando a se pasteurizar e repetir, muito por conta das constantes refilmagens americanas de filmes de sucesso como Ringu e Ju-on. Daqui a pouco ainda tem Dark water e The eye, pra falar dos mais badalados. Particularmente, acho que o melhor terror do mundo, hoje, é feito no Japão. Tomara que Hollywood não estrague isso.

A introdução serve para falar de Audition, longa apavorante dirigido pelo controvertido Takashi Miike e diferente dessa linhagem de terror que vem aparecendo mais. Duvido que os americanos topariam refilmar uma pérola dessas. Afinal, as cenas sádicas e de extrema crueza física jamais seriam sequer exibidas em cinemas ianques. O que valoriza ainda mais este filme raro: ele é único, existe em si mesmo e tem tudo para atingir seus objetivos.

Claramente dividido em duas partes distintas, Audition é cultuado por fãs de cinema extremo. Nosso amigo Carlão Reichenbach, inclusive, já o exibiu em sua notável Sessão do Comodoro. Começa como um drama romântico, razoavelmente sensível, para culminar numa série de choques e cenas de tortura das mais agonizantes. O talento de Miike em dosar essas duas partes, deixando sempre claro ao espectador que algo de muito ruim está para acontecer, é o grande trunfo: ele cria climas de tensão em cenas banais, como um telefonema; mantém por diversas vezes a câmera fixa, em tomadas longas, realçando a interatividade dos personagens e aumentando o jeito perturbador de carregar a história. Sem falar na seqüência da academia de balé, das coisas mais incômodas que já vi: fotografia fortemente avermelhada, lugar fechado e opressivo, sala vazia e um único homem ao piano, enquadrado de longe e de costas, sussurando palavras pouco inteligíveis. Arrepiante. Só vendo.

Destaque para toda a cena final, quando a "verdade" dos fatos é revelada e toda a maldade de Miike com seu público vem à tona, em momentos sem piedade com quem o assiste. É violência na cara, para mostrar que a paixão pode reservar surpresas sempre desagradáveis, por mais mágica que seja. E ainda nos ensina que, em determinadas situações, o sonho é a melhor solução para se fugir da maldade.


CAPITÃO SKY E O MUNDO DE AMANHÃ
Captain Sky and the world of tomorrow (EUA - 2004)
Direção: Kerry Conran

Demorou, mas finalmente assisti a esse filme (houve atrasos com a cópia enviada a Juiz de Fora, e só na semana passada entrou em cartaz). Confesso que poderia ter passado sem ele. Não que seja um filme ruim, mas não fez muita diferença pra mim. Claro que isso não é parâmetro de análise, mas me permito essas "licenças poéticas" aqui no blog...

O que acontece é que o filme é uma grande brincadeira referencial com seriados antigos e quadrinhos clássicos. Mas e daí? Quando aparece uma revistinha do Buck Rogers em cena, que diferença isso faz? Ou as cenas de perseguição com aviões dos anos 30? Como bem definiu um amigo meu, Cristiano Lopes, "o filme é morto". Referência por referência, não fala a que veio.

Quer sentir a diferença? Pense em Kill Bill e todo o seu jogo de citações. Aquilo jamais soa gratuito, mas sim uma forma de levar a trama, de desenvolver a saga da Noiva sem se prender a joguetes de roteiro e referências gratuitas. Tarantino usa a sua cinefilia extrema para contar uma aventura através de imagens e palavras (mais imagens no volume 1, mais palavras no volume 2), e não para simplesmente se mostrar "o" entendido. Já Kerry Conran, no seu Capitão Sky, parece fazer o filme pra ele mesmo se deleitar nas suas lembranças. Isso não se torna problema até o ponto em que não significa absolutamente nada ao espectador - outro mal exemplo disso é o irritante O impérido (do besteirol) contra-ataca, do picareta Kevin Smith.

Sem falar que toda aquela história de cenários virtuais e apenas atores reais diz menos ainda. Alguém acha mesmo que isso seja uma "revolução no cinema", como determinada revista mensal estampou na sua capa? Claro, é relevante enxregarmos as novas tecnologias do cinema como formas econômicas de produzir um filme. Mas até onde isso vai interferir na qualidade da obra? Porque um filme não se torna "revolucionário" por apenas usar uma técnica recente. Alguém pode dizer que Final fantasy é revolucionário? Ou melhor: alguém lembra de Final fantasy?! Então, quem quiser fazer "revolução", precisa jogar dos dois lados: na forma e no conteúdo. Isso, Capitão Sky e o mundo de amanhã não faz. E se é pra ver no cinema visual de videogame, eu prefiro comprar um Playstation e ficar em casa.

Sexta-feira, Janeiro 14, 2005


PRELÚDIO

No prelo para comentar mais alguns filmes que vi recentemente (como Depois de horas, fita "menor" de Scorsese), postar finalmente meus melhores do ano (ainda tá em tempo) e falar de dois filmaços do Dario Argento que comprei em DVDs genuinamente brasileiros: Suspiria e Sleepless (ou Insônia, como é chamado no Brasil). Coisa fina, hein!

Então, me aguardem. Novidades a caminho!

Quarta-feira, Janeiro 12, 2005


A PANTERA COR-DE-ROSA
The pink panther (EUA - 1964)
Direção: Blake Edwards

Eu já tinha visto de relance alguns filmes de Blake Edwards, mas numa época em que não tinha no cinema um fator preponderante da minha vida. Agora, vendo de verdade A pantera cor-de-rosa, depois de ter assistido primeiro a Um tiro no escuro numa madrugada qualquer do SBT, entendo perfeitamente quando chamam Edwards de gênio da comédia.

Fazendo comédia física, beirando o pastelão puramente caricato e com piadas inocentes e simples (em tomadas longas, coisa incomum e sempre ousada), o diretor dosa à perfeição o bom humor com as surpresas da história. O curioso é que, assim como o mestre Hitchcock, Edwards parece sempre usar um "mcguffin", um pretexto sem importância prática que serve de gancho para a ação do filme. No caso de A pantera cor-de-rosa, a desculpa é o roubo de um diamante valiosíssimo.

Mas ao longo das quase duas horas de filme, o que menos importa é o roubo. Impossível pensar nele na seqüência do quarto, quando o Inspetor Closeau (personagem eternizado por Peter Sellers) não sabe que sua mulher está acompanhada de outros dois homens; ou mesmo nos rápidos instantes em que o policial se atrapalha com qualquer objeto surgido no caminho; ou ainda na perseguição final, das coisas mais gozadas já mostradas na tela, com aquele velhinho melancólico sem entender patavinas dos reais motivos de tanto movimento numa rua normalmente entregue às moscas.

Outra curiosidade é que, como os créditos iniciais adiantam, o verdadeiro astro do filme é David Niven, no papel do ladrão. Ele participa da maioria das cenas, e Sellers chega por vezes a ser apenas coadjuvante. Ainda bem que, em vista do sucesso e carisma do inspetor, os produtores o tornaram o real protagonista dos filmes seguintes.

Por fim, vale registrar a animação inicial. Foi ela que deu o pontapé para a produção do clássico desenho animado da Pantera. Mesclado à música de Henri Mancini (outro clássico), o desenho ainda hoje conquista crianças e adultos.

PS- mesmo que eu não gostasse do filme, ao menos uma coisa me conquistaria de qualquer forma: me identifico ao extremo com o Inspetor Closeau! Atrapalhado, sempre colocando em risco a segurança de quem estiver por perto (por conta do seu "estabanamento") e ingênuo em algumas atitudes. Tipicamente este que escreve, sempre tentando ser o gente-fina, mas por vezes pagando mico, derrubando coisas ou simplesmente achando que estão todos escondendo alguma coisa dele. Mas sem deixar a dignidade cair, :-)

Segunda-feira, Janeiro 10, 2005


O GRITO
The grudge (EUA - Japão, 2004)
Direção: Takashi Shimizu

Escrevi uma crítica mais detalhada deste filme no Cinefilia. Podem acessar lá. Segue um trechinho do texto:

O filme de Shimizu segue a tradição típica das recentes obras de terror japonesas. São fantasmas assombrando pessoas inocentes, que não entendem os motivos daquelas situações sinistras e por vezes surreais. O gancho desses filmes está sempre em acontecimentos do passado, traumas de infância, crenças populares ou, principalmente, em conflituosas relações familiares (pense, por exemplo, em "Ringu" que originou "O chamado" e "Jian gui", ou "The eye - A herança", como foi lançado no Brasil)

Leia o texto completo aqui.

Domingo, Janeiro 09, 2005


OS INCONFIDENTES
Brasil - 1975
Direção: Joaquim Pedro de Andrade

Clássico do cinema histórico brasileiro, este filme reconstitui as negociações e prisão de Tiradentes e seus aliados na luta contra a Coroa Portuguesa, em 1789. Muito bem produzido e atuado, mas talvez por ser inspirado nos Autos da Devassa (de autoria de Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, poetas participantes da revolta mineira) o filme soa declamado demais em grande parte das cenas.

Não sei se chega a ser um defeito essa falação poética. Nada contra a poesia, mas particularmente sempre preferi ler a ouvir poemas. Nada melhor do que se deliciar com palavras bem escritas e rimadas, acompanhando todo o desenvolvimento das linhas. Quando isso passa para outro, quando sai da boca de terceiro, pra mim a magia se perde, por mais bem declamado que seja o texto. No caso de Os inconfidentes, me incomodou muito atores do calibre de Paulo César Pereio e José Wilker se prendendo ao texto previamente fabricado.

Mas esses pontos são menores no filme. Importa mais a forma como o excelente Joaquim Pedro (diretor também do grande Macunaíma) trata o fato: mostrando os desdobramentos da revolta de dentro da prisão, "ouvindo" cada um dos prisioneiros e expondo suas incoerências. É uma espécie de Rashomon menos ousado, mas igualmente intrigante. Ainda mais pensando na época de produção do filme, auge da ditadura militar e de luta por liberdade. Exemplo perfeito é a Inconfidência Mineira para ilustrar tanto o desejo de vencer os poderosos imponentes quanto a frustração em não obter o êxito e ter que se contentar com o fracasso da batalha mas o sucesso da ideologia.

Bem menos extremista que Independência ou morte, de Cláudio Coimbra e transformado em panfleto oficial do regime linha-dura no Brasil (vale dizer que o recente livro de Luiz Carlos Merten para a Coleção Aplauso, Um homem único, desmistifica um pouco essa história, ao biografar e ouvir Coimbra sobre o assunto).

Sábado, Janeiro 08, 2005


FOTOS DA NOITE DO QUEPE DO COMODORO


Leandro, webdesigner do Cinefilia; Paulo, redator do Plano a Plano; eu, palpiteiro do Cinefilia e deste blog; e Bruno, redator do Plano a Plano


Comigo no meio, todos no Habib's já de madrugada, os camaradas da Contracampo Daniel Caetano e Duda Valente. Parabéns pela merecida premiação, colegas!


Momento histórico pra mim!!! Eu recebendo a menção especial por este blog, ganhando prêmios das mãos de ninguém menos que o Carlão Reichenbach, talvez o segundo mais importante diretor brasileiro vivo e em atividade (o primeiro lugar, Carlão há de concordar comigo, é Nelson Pereira dos Santos)

!
Não parece, mas os dois pontinhos pretos somos eu (mais alto) e o Carlão, na entrega da menção especial. Foto gentilmente cedida pelo profissional em máquinas digitais Leandro "sem flash" Neumann



Momento de confraternização: os três agraciados com menção especial para os blogs. Marcelo, do Mondo Paura; Francis Vogner, representando José Roberto, do Era uma vez na Paraíba; e eu, literalmente empurrado pelo braço do Francis pra perder a timidez

Sexta-feira, Janeiro 07, 2005


QUEPE DO COMODORO 2005


"Estamos nos sentindo candidatos brasileiros ao Oscar de filme estrangeiro". Ninguém definiu melhor minha sensação do que o Leandro Neumann, meu amigo e designer do Cinefilia. Em meio a tanta gente boa e talentosa concorrendo ao Quepe do Comodoro, eu sabia que não tínhamos grandes chances. E não deu outra: o vencedor de melhor site de cinema foi a Contracampo, mais do que merecido. Fiquei muito feliz em "perder" para um site tão fabuloso. Não saí frustrado, de jeito nenhum.

E eu estava tão ligado no Cinefilia no páreo que tinha me esquecido que este maltratado blog estava na disputa também! Pois a surpresa que eu tive ao ver meu nome no telão do Cinesesc foi gigantesca! Gelei da cabeça aos pés e - juro, juro, juro - não sabia o que fazer. Levantei meio por impulso, dei um abraço efusivo no grande Carlão e me dirigi ao microfone sem ter idéia do que falar. Agradeci à galera, expliquei que o blog estava tendo dificuldades mas era feito com carinho e tive o privilégio de ser o primeiro premiado da noite a dar um beijo na lindíssima e talentosa Vanessa Goulart, apresentadora oficial! Foi mal aí, rapaziada, :-)

Sem falar na exibição do genial e fantástico Profondo rosso, do Dario Argento. Minha primeira experiência com o diretor. Fiquei profundamente encantado e impactado com o filme, me surpreendi com aqueles movimentos de câmera, o suspense crescente e as cenas de morte, das mais cruéis que já vi. Sem falar que aquela bonequinha pendurada pelo pescoço é das coisas mais perturbadoras que o cinema já deve ter feito. Sem palavras...

A noite foi mesmo mágica. Não bastasse ter ganhado uma menção especial com este blog, vi gente que eu aprendi a gostar na net sendo ovacionada, como o José Roberto, Adilson Marcelino, Hermes Leal e o Ailton Monteiro, outro merecedor do prêmio principal. Sem falar de ter conhecido gente que eu admiro também, como Otávio Moulin, Bruno Amato, Duda Valente, Daniel Caetano, Vebis, Francis... Toda essa galera fera!

E, claro, o astro da noite, o maior de todos: Carlos Reichenbach. Demonstrando toda a sua sensibilidade, perspicácia e inteligência, conquistou a todos com seu jeitão, foi atencioso e simpático e me reconheceu quando olhou pra mim! (já tínhamos conversado antes, na Mostra de Tiradentes, há um ano). Carlão, você merece todo o sucesso. Tenho certeza de que esse primeiro Quepe é apenas o primeiro de muitos. E se, feito na raça e coragem, foi esse estouro, imagina quando se consolidar de vez? Deus queira, estaremos todos lá.

Valeu pela confiança, do Carlão e de todos que aqui me lêem. Ao André Setaro, que votou no Impressões Cinéfilas, um abraço forte. Continuem conosco, aqui e no Cinefilia. Com esse gás, vou dar um jeito de turbinar esse blog de vez! Assim que eu tiver fotos da festa eu posto aqui. Até

Sábado, Janeiro 01, 2005


FELIZ 2005

Desejo a todos um ano repleto de realizações, felicidade. sucesso e, claro, filmes e mais filmes. Peço novamente desculpas pela baixa freqüência de posts aqui, mas espero que, nos próximos meses, as coisas se regularizem. Agradeço do fundo do coração a todos aqueles que vêm deixando mensagens nos comentérios me elogiando, pedindo para continuar ou simplesmente saudando meus eternos retornos. E também a todos que, de uma forma ou de outra, curtem entrar aqui e ler meus modestos pitacos.

Abraço forte!


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