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Quinta-feira, Março 31, 2005
Posted
3:23 PM
by MARCELO MIRANDA
O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA
Brasil - 2005
Direção: Bruno Barreto
Publiquei crítica deste filme mais-ou-menos do Barretinho no Cinefilia. Quem quiser ler, acessa lá - e depois volte sempre! Fico feliz em dizer também que o mesmo texto será destaque de capa de segunda-feira do prestigioso Digestivo Cultural. É a terceira vez que um texto meu será publicado neste site maravilhoso, a título de colaboração, o que muito me orgulha. Então, ao trabalho!
Antes, eis um trecho da crítica:
A premissa, confessemos, é criativa e bem-vinda. Como não se interessar por algo tão próximo ao nosso cotidiano? Em tempos de quebra-pau nos campos, torna-se saudável acompanhar a aventura de amor de duas pessoas "inimigas" de bola. O problema é que isso não é suficiente para Bruno Barreto. Em vez de deixar seu filme se desenvolver naturalmente, dando margem para as situações cômicas que poderiam surgir quando o "travestido" Ricca se insere em território hostil, o diretor torna a comédia quase um drama existencial - no pior sentido do termo.
Terça-feira, Março 29, 2005
Posted
12:50 PM
by MARCELO MIRANDA
THRILLER - A CRUEL PICTURE
Thriller - en grym film (Suécia - 1974)
Direção: Bo Arne Vibenius
Madeleine é uma jovem maltratada em todos os aspectos da vida. Num impressionante desenrolar de acontecimentos, ela é estuprada, fica traumatiza e nunca mais fala, é viciada em heroína à força, torna-se prostituta para conseguir a droga, tem o olho esquerdo furado por uma faca, é constantemente sodomizada pelos clientes e seus pais suicidam-se ao serem abandonados por ela. Madeleine treina técnicas de ataque e defesa e sai em busca de vingança contra aqueles que destruíram sua vida.
Beatrix integra um grupo de mercenários. Decide se demitir e se casar, grávida. Por conta disso, sofre um atentado que a deixa em coma profundo por anos e ainda a faz perder sua filha. Nesse tempo, é violentada no hospital e, quando sai do coma, se descobre perdida no mundo. Rancorosa com tudo o que lhe aconteceu, Beatrix treina técnicas de ataque e defesa e sai em busca de vingança contra aqueles que destruíram sua vida.
As duas sinopses se referem respectivamente a Thriller - a cruel picture e Kill Bill. Só nessas rápidas sinopses, sente-se a enorme influência que Quentin Tarantino teve da saga de vingança sueca dirigida por Bo A Vibenius (assinando Alex Fridolinsky). Acredito que Thriller talvez tenha sido a maior das milhares de influências em Kill Bill, tanto pelo enredo em si quanto por citações ao longo do filme (como a personagem caolha de Daryl Hannah). Mas o que há em Thriller para chamar tanta atenção?
Um belo filme. Linguagem enxuta e direta, protagonista calada e carismática, cenas de sexo e violência aos montes. Difícil chegar ao final sem se transtornar com alguma cena ou situação. Vibenius arma uma teia de fatos que levam a protagonista a promover banhos de sangue em nome de sua honra. Não há tanto aprendizado ou filosofia aqui quanto em Kill Bill. É tudo na bucha mesmo, sem rodeios: Madeleine chega ao limite, junta dinheiro, treina de tudo (artes marciais, armamentos, direção de carros) e sai detonando.
Outro aspecto evidente no filme é a utilização de câmeras lentas. Este é um recurso que, particularmente, não gosto muito. Enxergo-o como forma de não acreditar na própria imagem e, conseqüentemente, em quem as vê (e abomino com todas as forças qualquer diretor que não é honesto ou não leve em consideração o mínimo de inteligência que o público possa ter). No caso de Thriller, a câmera lenta tem utilidade que não simplesmente "marcar" as cenas.
Sua principal função é potencializar a violência. Sente-se em Vibenius a vontade de tornar cada ataque um acontecimento em si, algo único e épico. Pode-se perceber que ele usa a câmera lenta apenas quanto o alvo é atingido (com exceção de um único momento), reforçando a dor e o vermelho do ferimento. Há algo de Sam Peckinpah, há ecos do que posteriormente John Woo faria nas suas fitas de ação vertiginosa. Estão nestes nomes usos autênticos e honestos do recurso de câmera lenta, sem jamais tirar a crença no espectador.
Thriller é seco, áspero, quase intangível. O sexo explícito surgindo catalisado na tela ao som de uma trilha sonora incômoda, o sofrimento quase imperceptível no rosto gelado de Madeleine, a raiva e o tormento existentes no seu cotidiano, a explosão acumulada de uma vida ordinária. Filme-porrada, filme-ataque dos bons, para expurgar as frustrações da alma.
Segunda-feira, Março 28, 2005
Posted
7:29 PM
by MARCELO MIRANDA
ENCOTOVELADO
Mais ou menos assim que estou me sentindo hoje:
Sexta-feira, Março 25, 2005
Posted
3:32 PM
by MARCELO MIRANDA
PERFIS II
Seguindo a publicação dos perfis (leia detalhes no post abaixo), agora é a vez do mestre Luis Buñuel. E em breve volto para comentar algumas pérolas assistidas.
CHOQUE SURREAL
A obra do espanhol Luis Buñuel é marcada por três elementos: religião, crítica social e sexualidade
Se existe um cineasta que não se enquadra em gêneros ou escolas, este é o espanhol Luis Buñuel. Sua obra de 32 filmes marcou o cinema como poucas. Reduzi-lo apenas à alcunha de "mestre do surrealismo nas telas" é fechar as portas para um universo de significados emanados de cada um dos seus filmes.
Buñuel nasceu em Calanda, em 1900. Na juventude, mudou-se para Madri, onde ficou amigo de importantes nomes das artes: o dramaturgo Federico Garcia Lorca e o artista plástico Salvador Dalí. Em parceria com este último, Buñuel estreou no cinema. "Um cão andaluz" (1928) foi um curta-metragem de enorme impacto, já trazendo algumas idéias que seriam ainda melhor desenvolvidas durante toda a trajetória do diretor. Seu segundo trabalho, também com Dalí, foi o média-metragem "A idade do ouro" (1930), igualmente chocante e polêmico. Com a Guerra Civil Espanhola que estourou em 1936, o cineasta saiu do país.
Depois de uma temporada nos EUA (onde não conseguiu fazer com que roteiros seus fossem filmados), Buñuel fixou-se no México, país notório por receber exilados espanhóis na época. E foi lá, depois de catorze anos sem filmar, que o diretor espanhol receberia o reconhecimento mundial. Não com o primeiro trabalho em terras mexicanas, o musical "Gran casino" (1947), tremendo fracasso comercial, mas com "Os esquecidos" (50). Obra-prima de cunho social, o filme acompanha o cotidiano de garotos de rua sem perspectivas, numa visão extremamente pessimista.
Três foram as maiores obsessões de Buñuel: a religião, o sexo e a crítica social. Não há um filme sequer dele que não contenha algum desses elementos, por vezes acompanhados de um toque surreal proveniente de seus trabalhos iniciais. Os personagens de Buñuel estão constantemente em choque, descobrindo coisas que os surpreendem e os mantêm de alguma forma presos a realidades por vezes absurdas. O espanhol não perdia oportunidade de alfinetar a forma perversiva que o sexo pode tomar, as atitudes equivocadas da classe burguesa ou os conceitos extremados da religião, em especial a católica.
Essa trinca temática aparece em maior ou menor intensidade de acordo com o filme. "Viridiana" (61) mostra a tragédia de uma ex-freira em potencial que tenta ser solidária e provoca o caos entre mendigos - com direito a analogias à Santa Ceia. Em "O anjo exterminador" (62), vemos grupo da alta sociedade sem condições de sair da sala de casa, exceto se olharem para dentro de si mesmos e reconhecerem suas condições animalescas. Ou "A bela da tarde" (1967, já quando o diretor filmava na França), filme que segue a visão de esposa frustrada (a belíssima Catherine Deneuve), que tem sonhos impublicáveis à noite e só se satisfaz quando torna-se prostituta durante a tarde.
Buñuel parece até trabalhar em gêneros quando usa o melodrama em "Escravos do rancor" (53), ou a aventura em "Robinson Crusoé" (52), ou mesmo brinca com o suspense em "Ensaio de um crime" (55). Só que estes filmes estão longe de se fecharem em "prisões" do cinema de gênero - que tem seu valor guardado, obviamente.
Mas não com Luis Buñuel. Morto em 1983, este artista completo se fixou em boa parte da inovação do cinema, transitando entre o clássico e o moderno, o arcaico e o contemporâneo, o real e a fantasia. Jamais pode ser esquecido.
Segunda-feira, Março 21, 2005
Posted
7:01 PM
by MARCELO MIRANDA
PERFIS
Como muitos sabem, sou repórter de Cultura do jornal PANORAMA, diário aqui de Juiz de Fora e região. Aproveito para dar uns pitacos sobre cinema, claro. Recentemente, inauguramos uma página semanal para falar de diretores. Sai todas as segundas-feiras, com perfis de cineastas de diversas épocas, com fotos e filmografia. Como jornal impresso é algo muito efêmero (no dia seguinte vira embrulho de peixe), acho que posso aproveitar essas minhas matérias aqui no blog - ao menos outras pessoas, de fora da Zona da Mata mineira, poderão ler e comentar.
Então, semanalmente, publicarei esses perfis aqui. Já saíram dois. Segue o primeiro, publicado na segunda-feira passada:
A VIOLÊNCIA POP
De atendente de locadora a ícone do cinema atual, a trajetória de sangue e ironia de Quentin Tarantino
Ninguém daria um tostão por um garoto viciado em filmes, trabalhando como atendente de videolocadora e sabendo de cabeça cenas e personagens dos mais obscuros filmes asiáticos. Mas este garoto cresceu e se tornou o cineasta Quentin Tarantino, um dos profissionais mais inventivos, polêmicos e sarcásticos concebidos pelo cinema americano.
Antes de estrear como diretor, Tarantino ganhou algum dinheiro vendendo roteiros para a indústria de Hollywood. São dele os textos de "Assassinos por natureza", que seria dirigido por Oliver Stone e lançado em 1994, e de "Amor à queima-roupa", de Tony Scott e lançado em 1993. Graças a essas vendas, Tarantino realizou seu maior intento: tornar-se mais um diretor dentro do mundo que tanto venerou a vida inteira. A estréia se deu em grande estilo, num filme independente violento e de grande impacto: "Cães de aluguel" (1992).
Ali, logo no primeiro trabalho, já podem ser percebidas características fundamentais para se compreender os caminhos que Tarantino seguiria depois. Gângteres perigosos e vingativos, personagens ambíguos, diálogos banais em meio a situações-limite envolvendo altos graus de violência, a crença de que nada é o que aparenta e de que cada um enxerga os acontecimentos de uma forma distinta e única. A trama inspirada em "Rashomon" (clássico de 1950 do japonês Akira Kurosawa) dava voltas e voltas em seqüências pesadas, com maior destaque para o momento em que o criminoso interpretado por Michael Madsen tortura um policial (culminando no decepamento de uma orelha).
Tarantino chamou a atenção de espectadores e críticos atentos a algo novo proporcionado pelo cinema. Porém, foi seu filme seguinte que virou a maior referência pop dos anos 90 nas telas. "Pulp fiction - Tempo de violência" (1994) caiu como uma bomba. Mostrando de forma ainda mais intensa o cotidiano de quadrilhas e matadores de aluguel bem humorados, pop e glamourizados, Tarantino assinou seu trabalho de maior sucesso. Ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de roteiro original. Não foi por menos: por mais que tantas diluições e cópias apresentadas nos últimos dez anos tentassem apagar seu significado, "Pulp fiction" entrou para o imaginário mundial como uma obra ímpar, de criatividade e ousadia raras num mercado dominado por superproduções milionárias e vazias. Ainda hoje, é experiência de grande satisfação e descoberta ver ou revê-lo.
"Jackie Brown" (1997) foi um freio no furacão que se tornou a vida de Tarantino. Filme menos contundente, marca momento de maturidade, quando ele sai das "brincadeiras" do trabalho anterior. O cineasta ficou, então, seis anos longe do cinema. Voltou em 2003 mais amalucado que nunca, com as mil referências de "Kill Bill" (os dois volumes), espécie de síntese de suas paixões e obsessões dos tempos em que era apenas o atendente de uma locadora.
Posted
3:01 PM
by MARCELO MIRANDA
JOGOS MORTAIS 2: COMEÇA A PICARETAGEM
Olha o cartaz da continuação do excelente Jogos mortais:
Sei lá, hein. Simplesmente pegaram uma cena-chave do primeiro filme, colaram no cartaz e escreveram uma chamadinha mais do que batida ("o jogo continua"). Se o filme nem precisava de seqüência, imagine de uma que não vá acrescentar nada. Que pena.
Domingo, Março 20, 2005
Posted
7:37 PM
by MARCELO MIRANDA
MINHA BELA DAMA
My fair lady (EUA - 1964)
Direção: George Cukor
Apesar do sumiço, a semana foi bem interessante em termos cinematográficos. Como eu precisava escrever um artigo sobre o Luis Buñuel, vi ou revi alguns filmes dele, em especial os fantásticos Os esquecidos e Ensaio de um crime. Igual a esse espanhol não há nem nunca haverá ninguém...
Mas nada como um bom e delicioso musical para lavar a alma depois do pessimismo de Buñuel e dos climas de terror de Bava e cia. Pois a tarefa foi de Minha bela dama, magnífico filme que eu ainda não tinha visto. É daqueles clássicos inesquecíveis do gênero, tendo ainda no elenco talvez a atriz mais adorável de Hollywood, Audrey Hepburn. Apesar de encantado com este seu papel (a florista pobre que se torna dama da alta sociedade), ainda prefiro Hepburn em A princesa e o plebeu ou mesmo Bonequinha de luxo, mas isso nada invalida a participação dela nesta fita.
Aliás, participação meio pela metade, porque a maioria das cenas de música não era ela quem cantava. Dizem que sua voz era suave demais para atingir a nota das canções - mas em dois momentos em que ela mesma canta, isso não parece verdade. Coisas de produtores. O que importa é que sua presença é hipnótica, um deleite aos olhos e ao coração. Vê-la como maltrapilha, toda sujinha e mal educada, apenas atiça nossa vontade dela aparecer logo em todo o esplendor. E não tarda: quando a moça surge em cena com um chapelão e exalando charme e doçura, fica impossível não suspirar. E a cena em que ela canta que "dançaria a noite toda" é de arrepiar. Ah, Audrey...
O filme é grande (2h50), mas passa como relâmpago. O sucesso deve-se não apenas à protagonista e ao diretor George Cukor, mas aos demais personagens, todos carismáticos e em grande forma - em especial Rex Harrison, que levou o Oscar de ator no papel do professor de lingüística; e Stanley Holloway, como o pai da florista e que possui a melhor cena sem a presença de Audrey: a que ele canta que, para se viver feliz, basta ter "um pouco de sorte".
Ao final, só sobra a vontade de voltar e rever alguns pontos mais marcantes e ameaçar aplaudir o espetáculo. Não bastasse toda a suntuosidade de elenco e produção, Minha bela dama dá literalmente uma aula de como é fundamental a educação existir para se ter consciência das coisas da vida - a florista só percebe que era maltratada quando é educada pelo professor, e logo se volta contra ele por perceber que servira apenas como pecinha de jogo. Uma ironia esplêndida, que enriquece ainda mais a experiência de ver o filme.
Terça-feira, Março 15, 2005
Posted
1:16 AM
by MARCELO MIRANDA
AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR
I tre volti della paura (Itália - 1963)
Direção: Mario Bava
Impressionante o nível de suspense deste filme. É apenas a segunda obra do Mario Bava a que assisto, e já saquei porque o cara é considerado mestre. Eu havia adorado A máscara de Satã, apesar de algumas ressalvas quanto ao final meio feliz demais (em contraponto ao clima mórbido de todo o filme). Mas aqui Bava extrapola e faz um verdadeiro tratado sobre a existência do medo e daquilo que não se vê, que está escondido.
Porque o que une os três contos deste filme é a noção dos personagens de que algo de muito ruim se esconde nas sombras, de que uma força maior está prestes a emergir e levá-los para o mundo das trevas. E não é à toa que a palavra "medo" está presente em boa parte dos diálogos do filme: é o medo que move esses personagens, que os faz ir de encontro ao mal.
Seja a garota amedrontada pelo antigo namorado e que pede ajuda à ex-amiga em "O telefone"; a filha devotada que, temerosa de fugir, volta em busca da família e se depara com o mais puro pavor, em "O wurdulack"; ou a mulher de "A gota d'água" (o melhor dos três contos), que se vê cercada por sons e luzes (ou a falta de) após roubar o anel de um cadáver. O diretor catalisa ainda mais essa tensão ao dar uma atenção especial para os cenários: a câmera de Bava passeia pelas salas e florestas, jamais apresenta uma pessoa antes de apresentar o ambiente onde ela vai interagir com seu medo.
São histórias rápidas, curtas, mas sempre intensas e crescentes no assombro que provocam. Bava soube desenvolver esse crescendo não apenas dentro de cada conto, mas na estrutura geral do filme: começamos pelo mais "leve", sem elementos sobrenaturais; passamos por um já "pesado", mas fantasioso demais por se localizar em outra época; e chegamos ao mais apavorante de todos, com elementos cotidianos que nos amedrontam exatamente por serem formados por pequenas coisinhas do dia-a-dia (gotas, janelas se movendo, falta de energia, a possível presença dos mortos). É uma jogada de gênio, tornando As três máscaras do terror um dos maiores e mais imprescindíveis filmes do gênero.
Sábado, Março 12, 2005
Posted
6:36 PM
by MARCELO MIRANDA
O AVIADOR
The aviator (EUA - 2004)
Direção: Martin Scorsese
Não há dúvidas de que O aviador seja um filmaço. As más críticas que pipocaram sobre o filme falavam mais do que não estava na tela do que o realmente abordado por Martin Scorsese. Ora, ficar reclamando de que o diretor deixou muita coisa de fora é chover no molhado: para conseguir concretizar a realização do filme, Scorsese precisava decidir qual foco dar à sua visão de Howard Hughes. Resolveu iluminar o lado mais glamouroso e menos polêmico da vida do magnata, dando atenção especial aos seus transtornos compulsivos. Bissexual? Fascista? Sexista? Sim, Hughes era isso tudo, mas Scorsese preferiu deixar de lado. Como bem disse o crítico Paulo Ricardo de Almeida, do blog Los Olvidados, ficar cobrando essas informações é querer fazer fofoca gratuita.
Então, ao filme: O aviador, nas suas quase três horas de duração, nunca cansa. Scorsese é craque em filmar, montar, desenvolver o roteiro, dar uma vitalidade impressionante a cada acontecimento apresentado. Só que, ainda assim, uma coisa me incomodou durante e depois da exibição. O aviador não parece um filme de Martin Scorsese. Eu diria que, se não soubesse quem era o diretor, jamais diria ser do baixinho.
Sim, está aqui sua característica de contar a vida de pessoas à margem, isoladas, diferentes das demais, excepcionais em algum aspecto. Mas seria clichê eu falar que o filme não tem alma? Que parece não respirar? Que Scorsese simplesmente cospe na tela aquela personalidade perturbada e tenta fazer com que acompanhemos, apiedados, todo o drama? Onde está a audácia e garra de um Touro indomável, onde estão os questionamentos e dilemas de um Táxi driver, cadê a violência e a ironia de Os bons companheiros e Cassino, a sujeira de Caminhos perigosos? Acima de tudo: onde está Scorsese em O aviador?
Falar de um filme usando de parâmetro outros do mesmo autor é meio covarde e sem sentido. O caso aqui é de ser quem é: Martin Scorsese, um dos maiores mestres americanos em atividade. Ouso dizer que mesmo o subestimado Gangues de Nova York era muito mais autoral do que esta superprodução - que, como eu disse, é um filmaço, só que apenas isso.
Se pensarmos na carga moral, no peso, na complexidade de algo muito menos ambicioso como Menina de ouro ("adversário" de O aviador nesta temporada), sentiremos o quanto faz falta a tinta de Scorsese. Clint Eastwood sai na frente, mantendo firme um cinema humano, verdadeiro. O aviador beira a superficilidade, simplesmente porque seu realizador parece não ter dado a alma pelo trabalho, como tantas vezes fez em outras épocas. Ou numa analogia com o próprio retratatado: Scorsese não jogou pesado como Hughes fez a vida inteira.
ACRÉSCIMO: revendo o trailer do filme, me lembrei de diversas passagens memoráveis que marcam tão apenas pelo talento de Scorsese, mas pela fabulosa interpretação de Leonardo DiCaprio. Pois é, o jovem ator está no melhor papel de sua carreira, sem dúvida, e se entrega a um Howard Hughes variando entre o psicótico e o visionário. Há momentos encantadores e tristes, como as tentativas de controle do transtorno que afligia Hughes - e DiCaprio apresenta uma sensibilidade autêntica e realista nessas cenas. O garoto merece aplausos, e mesmo sem ainda ter visto Ray, entro para a turma que acreditar que DiCaprio está melhor que Jammie Foxx, a despeito do que mídia e Oscar propalaram. Afinal, é mais difícil encarnar, com riqueza de nuances e sutilezas, alguém pouquíssimo registrado do que um ícone da música onipresente em discos e televisão e cheio de trejeitos característicos.
Quinta-feira, Março 10, 2005
Posted
2:33 PM
by MARCELO MIRANDA
O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA
Texas chainsaw massacre (EUA - 1974 e 2003)
Direção: Tobe Hooper e Marcus Nispel
Ontem me submeti a uma sessão dupla de O massacre da serra elétrica. Pela manhã assisti ao filme original de Tobe Hooper, lançado em 1974. Clássico do terror, continua assombrosamente tenebroso, um primor de medo e pânico em alta potência. Meio escuro, por vezes indefinido nas imagens, choca não pelo que mostra, mas pelo que nos faz acreditar. A mocinha Marilyn Burns e o personagem Leatherface formam uma dupla imbatível de selvageria e gritos. E convenhamos: um psicopata portando uma motosserra e perseguindo garota inocente é genial. Hopper inovou ao mostrar tudo isso num filme claustrofóbico, em 16mm (dando uma imagem mais próxima de gravações verdadeiras), seco e cru.
Praticamente o inverso da refilmagem. Não que O massacre da serra elétrica atual seja ruim. Mas perde feio na comparação, já que usa uma estética "moderninha" demais para retratar uma história que pede sujeira, incômodo visual. Ainda assim, este filme de Marcus Nispel está muito acima da média das fitas atuais de terror. Há cenas absolutamente aterradoras, como os ataques de Leatherface, a tortura psicológica do policial obrigando o suicídio de determinado personagem e até mesmo uma cena de "eutanásia". Em alguns aspectos, Nispel catalisou o que o filme de Hooper tinha de melhor; em outros, diminuiu drasticamente (a subtrama envolvendo tráfico de drogas é infinitamente inferior à da violação de túmulos da versão de 1974; sem falar que a versão atual ignora que a família era composta por canibais). O saldo é positivo (aumentado às alturas com Jessica Biel - o que é aquela mulher, meu Deus do céu!!!).
Mas nada é como a visão de Hooper para aqueles bizarros acontecimentos.
Domingo, Março 06, 2005
Posted
2:27 AM
by MARCELO MIRANDA
TRABALHOS DE MESTRES SOBRE UM MESTRE
A vantagem de um blog é que se faz o que se bem entende. De cinema, então, assunto não falta (falta é tempo!). Ontem tive acesso a dois trabalhos excepcionais tendo como inspiração nosso grande e amado Clint Eastwood, recém-oscarizado com sua Menina de ouro. Dêem uma olhada e digam se não são maravilhosos:
Charge do meu colega de trabalho Alberto Pinto publicada no jornal PANORAMA do dia 2 de março, satirizando o resultado do Oscar 2005
Pequena brincadeira do meu amigo Carlos Alberto Reis, que passou o dia zoando minha adoração ao Eastwood para, depois, me mandar esta maravilha. Nem se fosse verdadeiro seria tão legal!
Sexta-feira, Março 04, 2005
Posted
1:39 AM
by MARCELO MIRANDA
TREMENDO NAS BASES
Alguém já comentou aqui que gosto de falar de filmes de terror. Confesso que tenho propensão ao gênero, sem preconceito algum: slashers, fantasmas, zumbis, canibais, assassinos seriais, monstros. O tipo que menos gosto é o que envolve bichos (cobras, ratos), mas vejo na boa também. Meu gênero preferido? Não diria, acho que nem tenho um. Mas gosto muito.
Nas últimas semanas, entre filmes de Oscar e lançamentos de locadoras, venho assistindo a algumas pérolas bem maquiavélicas. Comento um pouquinho de cada uma logo abaixo. Se tiverem indicações, mandem brasa nos comentários!
TETSUO (1988 - Shinya Tsukamoto): já começo por um que nem sei se entraria na categoria de horror. De qualquer forma, é um filme assombroso, em todos os aspectos. Dura pouco mais de uma hora e mostra a transformação de um homem em puro metal. Começa meio confuso e misterioso, para se tornar um pesadelo digno dos livros de Franz Kafka, com imagens aterradoras (num preto-e-branco que as realça ainda mais) e sufocantes. O diretor não priva o espectador de mostrar detalhes da metamorfose, em planos fechados e às vezes sem cortes. Talvez o momento mais impressionante seja quando o protagonista mata a namorada ao penetrá-la com seu pênis de ferro! A luta final entre os dois homens de aço é bizarra ao extremo. O filme teve uma continuação poucos anos depois, mas não a vi - sei que é praticamente a mesma história e com o mesmo ator principal.
TERROR NA ÓPERA (1987 - Dario Argento): mais um grande giallo do diretor italiano, em momentos lembrando uma de suas obras-primas, Suspiria, mas sem o lado sobrenatural. Há cenas particularmente sádicas, a principal delas sendo a forma como o assassino tortura sua vítima principal (coloca adesivo cheio de pequenas agulhas logo abaixo dos olhos dela, impedindo-a de sequer piscar). A história é meio mal contada, mas quando é Argento quem comanda, isso importa menos do que as imagens e o suspense crescente. Claro que quando ele junta bem as duas coisas (vide Profondo rosso), atinge o sublime. Mas aqui ele demonstra boa carga de seu talento.
HAUTE TENSION (2002 - Alexandre Aja): filme de terror francês. Francês?! Pois é isso mesmo, a terra de Godard também tem seus representantes no gênero. Esta produção vem fazendo bastante sucesso no circuito e já tem lançamento previsto nos EUA. Quem sabe também não chega ao Brasil? Acho difícil de ganhar grande espaço no circuito, por conta da enorme carga de violência gráfica, com direito a muito (mas muito!) sangue e cabeças decepadas. A protagonista é uma loirinha peituda que nem é tão bonita, mas sexy como poucas. Ela sofre horrores nas mãos de um esquisito psicopata, responsável por massacrar uma família e seqüestrar sua melhor amiga. O filme tem uma reviravolta estúpida e batida no terço final, o que quase o estraga. Quase: afinal, essa virada serve mais para inventar uma explicação para os crimes do assassino (nem que tal explicação seja meio sem noção). O que mais importa aqui são mesmo as cenas de morte e perseguição, tensas e chocantes. Tem a maior cara de que vai ganhar refilmagem americana, certamente não com tanta violência.
DEMENTIA 13 (1963 - Francis Ford Coppola): o primeiro longa do homem que faria depois o santificado O poderoso chefão (ajoelhem-se todos!). Acho que o Coppola, autor do roteiro, tirou umas idéias de Psicose, lançado pelo Hitchcock três anos antes. Seu filme tem elementos razoavelmente semelhantes: a presença de uma mãe dominadora e obcecada; uma loira gelada e maquiavélica (e deliciosamente sensual, vivida por Luana Anders); a morte brutal de determinado personagem, dividindo o filme em duas partes (e que, de uma forma ou outra, acontece inesperadamente e durante um banho); e a resolução do mistério por conta de traumas infantis. De qualquer forma, Coppola consegue ser original no desenvolvimento da trama, mantendo clima sempre de que algo ruim vai acontecer. Ajuda a locação, um castelo com a maior cara de mal assombrado. Filme curioso, um dos pioneiros do chamado slasher movie (filmes que "fatiam" os personagens).
GUINEA PIG (1985) - esse é um média-metragem japonês muito maldoso. Corre a lenda de que o ator Charlie Sheen o viu e, chocado, ligou para o FBI e pediu investigação, acreditando serem imagens reais. O criador desse negócio foi obrigado a levar os atores à Justiça (como aconteceu com Ruggero Deodato e seu Canibal holocausto) e provar que estavam vivos. Não é pra menos: o filme tem imagens absolutamente chocantes. Simplesmente são 45 minutos mostrando três homens torturando uma mulher. E dá-lhe tapas, chutes, experimentos com calor, vermes e inserção de agulhas. Ao menos duas cenas quase convencem de que aquilo tudo é real: um vermezinho entrando no olho da mulher; e uma agulha perfurando da lateral até a órbita do (mais uma vez) olho. Coisinha de arrepiar...
Quarta-feira, Março 02, 2005
Posted
12:20 AM
by MARCELO MIRANDA
EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA
Finding Neverland (EUA - 2004)
Direção: Marc Foster
Depois de ver este filme, meu conceito quanto a Sideways aumentou consideravelmente. Afinal, o filme de Alexander Payne é infinitamente mais sincero e humano do que este lacrimejante longa de Marc Foster. Fico até sem jeito ao falar negativamente de um filme em que, ao final, boa parte da sala de cinema sai aos prantos e que, na tela, apresenta a bonita história de um escritor que encontra em quatro crianças a chave para uma nova vida de sonhos e esperanças.
Mas vamos abrir mão da piedade e olhar para a coisa friamente: Foster fez um trabalho desonesto. É muito fácil causar comoção mostrando um bando de garotos órfãos e sem rumo, a mãe às portas da morte, lágrimas recorrentes e uma música estrondosamente alta. Hmmm, Olga? Não, não sejamos tão cruéis com o pobre Foster...
Dá para sentir que a intenção era fazer um filme comovente de verdade. Mas parece que o diretor perdeu a mão na sanha em emocionar e abusou dos artifícios mais básicos e primários para atingir suas intenções. Isso o torna artificial e sem muito sentido, já que, por vezes, as situações apresentadas comoveriam por si só. É como se o próprio Foster não acreditasse na capacidade de seu público em entender o que acontece na tela (pensamento comum no cinema americano, aliás).
Sem falar que as inserções das fantasias do protagonista surgem meio desconjuntadas do todo (principalmente num momento em que ele brinca de pirata - a montagem mistura o real e a ficção por mais vezes que o suportável). Não significam tanto quanto gostariam de significar, não dizem a quem vieram, não se encaixam com o desenvolvimento da narrativa. Sim, representam os pensamentos do escritor, sua evolução dentro de um universo imaginário. Só que a forma como surgem essas inserções não é eficiente em mostrar realmente o que se passa na cabeça do personagem - diferente da primeira vez em que isso acontece, logo no começo do filme, quando ele olha a platéia que não está gostando de sua nova peça. Ali, o recurso funciona bem.
Johnny Depp está ótimo, diferente do seu habitual. Interessante vê-lo num papel contido e introspectivo. Pena que o conjunto do filme não honre essa entrega: enquanto ele interpreta para dentro e tenta mostrar os conflitos de um homem consciente de sua condição mediocrizada, Marc Foster explode a tela com ânsia de provocar choro. Ele não parece ter entendido o que é, afinal, a Terra do Nunca idealizada pelo escritor James Barrie.
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