|
|
Sábado, Abril 30, 2005
Posted
1:34 AM
by MARCELO MIRANDA
PERFIS VI
Tinha esquecido de postar o perfil dessa semana. Como estou enrolado para falar de filmes, nada melhor que um texto pronto para compartilhar. Este é o sexto da série de perfis que estou escrevendo para o jornal PANORAMA, onde trabalho aqui em Juiz de Fora. Como sempre friso, são menores e menos desenvolvidos do que eu gostaria por conta do pouco espaço da mídia impressa. Antes do que nada, claro. Então, vamos a uma das figuras mais queridas, talentosas e menos valorizadas da nossa terra.
O SENHOR DOS TÚMULOS
José Mojica Marins criou no cinema personagem único no imaginário mundial, o Zé do Caixão; marginalizado, cineasta fez história dentro da cultura brasileira
Um sonho definiu a vida de José Mojica Marins: em 1963, durante o sono, ele enxergou uma figura misteriosa, vestida de preto, que o arrastava ao cemitério. Lá, viu o próprio túmulo. Ao acordar, Mojica sentiu que estava ali a chave. Foi quando nasceu Zé do Caixão, o personagem brasileiro mais conhecido, divulgado e comentado em todo o mundo, protagonista de apenas dois filmes, mas presente numa infinidade de outras mídias - incluindo o próprio cinema.
Por conta da hiperexposição, a figura de Mojica está deteriorada hoje. Alvo de piadas e muito preconceito, o diretor/roteirista/produtor/ator enfrenta ostracismo inaceitável para alguém de importância tão grande para a cultura brasileira e de tamanha criatividade e ousadia. Nascido em São Paulo em 1929, de família humilde, amante de cinema desde criança, quando o pai era dono de uma sala exibidora, Mojica começou a filmar cedo. O primeiro filme seria "Sentença de Deus", mas problemas em excesso impediram o projeto. Ele estreou nas telas com o curioso faroeste "Sina do aventureiro" (1958), para em seguida fazer o drama familiar "Meu destino em tuas mãos" (63). Deprimido, sem sucesso, Mojica não sabia para onde ir.
Foi após o sonho fatídico que tudo se clareou. Mojica escreveu, dirigiu e atuou em "À meia-noite levarei sua alma" (64), primeiro filme de terror genuinamente brasileiro. Brasileiro em todos os aspectos. Mojica criou um personagem sem precedentes. Um coveiro traumatizado e obcecado em gerar o filho perfeito para perpetuar seu sangue. Ateu convicto (faz questão de comer carne na sexta-feira santa), faz todo tipo de maldade para alcançar seus objetivos (incluindo matar a esposa usando uma aranha peçonhenta). Dono de um visual assustador, capa preta, cartola e unhas grandes, Zé do Caixão é homem sem escrúpulos e "sem coração" (como diz música-tema do vilão).
Sucesso imediato, o filme levou mais de 7 milhões aos cinemas. Nada dos lucros foi para Mojica: tentando fazer um segundo filme, vendeu os direitos do primeiro. Aliás, foi assim a vida toda, o que jamais o permitiu acumular fortuna, e sempre teve dificuldades de filmar (chegava a usar restos de negativos de outros diretores). "Esta noite encarnarei no teu cadáver" (67) deu seqüência à saga de Zé do Caixão, mostrando-o ainda mais cruel. A figura ficou colada a Mojica de todas as formas: Zé virou tema de quadrinhos, livros, peças, programas de TV e rádio, games. E seguiu sendo o grande trunfo do diretor nos filmes.
A partir de "O despertar da besta" (70), filme proibido pela ditadura e só liberado há sete anos, Mojica se tornaria auto-referente, questionando os significados do próprio Zé do Caixão - fosse analisando sua influência no imaginário das pessoas ("Delírios de um anormal" - 78), fosse enfrentando a si mesmo ("Exorcismo negro" - 74) - o que, de certa forma, o aproxima do cinema praticado pelo italiano Federico Fellini.
Nos anos 80, Mojica ficou quase na miséria. Para sobreviver, ingressou no cinema pornográfico (caminho seguido por dezenas de cineastas brasileiros, aliás), até sair do limbo nos anos 90. Foi quando teve revista e reconhecida sua obra em festivais no exterior, em especial EUA e Europa. Ganhador de muitos prêmios, passou a receber atenção também no Brasil: teve biografia publicada e o lançamento de uma luxuosa caixa de DVDs com seis de seus principais filmes. Ainda assim, José Mojica Marins é um marginal no cinema brasileiro. Enquanto diretores gastam fortunas com filmes medíocres, o gênio de Mojica fica adormecido, à espera de alguma luz que reacenda a magia de seu trabalho artesanal, instintivo, autêntico. Acima de tudo, um cinema sincero e apaixonado, a ser conhecido por quem apenas tem repulsa pela figura sombria de Zé do Caixão.
Sexta-feira, Abril 29, 2005
Posted
2:27 AM
by MARCELO MIRANDA
JÁ VOLTO
Enroladíssimo para falar de filmes aqui (tinha tempo em que eu não ficava dias sem postar alguma coisa por conta de outras ocupações). O trabalho está me torturando. No final de semana, certamente a partir de sábado, dou uma atualizada legal. Por favor, não sumam! Finalmente tenho média de 25 visitas/dia - o que ainda não é lá essas coisas, mas só de saber que tem um tanto de gente lendo o que escrevo, alguns comentando, fico muito feliz. Então, apareçam. Forte abraço.
Terça-feira, Abril 26, 2005
Posted
12:40 PM
by MARCELO MIRANDA
RAPIDÍSSIMAS
UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (An american werewolf in London, EUA, 1981) - inspirado pela pauta deste mês da Contracampo, decidi rever esta já clássica mistura de terror e comédia. Tinha visto o filme apenas nas sessões do Cinema em Casa, no SBT, lá em meados dos anos 90. Ou seja, dublado, cortado e cheio de intervalos. Revendo agora em DVD, fiquei abismado: não tinha noção de ser tão maravilhoso! Certamente dos melhores filmes do gênero "monstro" e dos melhores da década de 80. Quase tudo é perfeito, da direção de Landis (que consegue segurar o interesse a cada cena, sempre mantendo o suspense com respeito imenso aos personagens) aos efeitos de maquiagem do mago Rick Baker - duvido, do fundo do coração, que alguém um dia vá conseguir fazer uma metamorfose em lobo tão perfeita, engenhosa e próxima do que provavelmente seria se fosse verdade). Sem falar nas cenas de ataque, impressionantes, e no humor tipicamente inglês (como se Landis tivesse incorporado a finesse de onde filmava). As piadas envolvendo os fantasmas, principalmente no cinema pornô, e as intervenções do amigo do protagonista sempre em decomposição matam a gente de rir. E as aparições do lobo são assombrosas. E o tratamento que Landis dá a tudo é incrivelmente realista: do medo de se tornar um monstro ao acordar no dia seguinte, nu e num zoológico; da atração pela bela estrangeira à tensão em prejudica-la; da questão moral de se matar ou não até a perseguição final e o desfecho, inevitável e mais óbvio possível. Fiquei encantado, já pretendo comprar o DVD (vi alugado) pra poder rever essa pequena obra-prima.
TAXI (EUA, 2004) - deixei pra ver esse filme em DVD tanto por não me animar a ir ao cinema conferir quanto pelo pouco tempo em que foi exibido aqui. Sabe que, de uma forma ou outra, me arrependi? Não é horrível e burro como pensei, simplesmente é uma trama de ação e comédia vazia e sem propósito. Mas diverte que é uma beleza. Vai dizer que acompanhar perseguições de carros em alta velocidade por uma Manhattan movimentadíssima, sem efeitos digitais, e ainda presenciar o esplendor da nossa Gisele Bündchen fazendo cara de malvada em saias e atirando pra todo lado, não é a melhor coisa pra relaxar? Acho que de tão despretensioso e assumidamente debochado, o filme cresce. Claro, estão lá típicos estereótipos (a negra que só sabe falar cantando, o policial desastrado e maltratado, os vilões latinos sem um pingo de desenvolvimento moral, etc etc), mas tudo embalado de forma tão amenizada e caricata que até engolimos numa boa. Fora algumas cenas irritantes (Jimmy Falon aprendendo a dirigir de fato, a relação sempre chata de Quen Latifah com o namorado), há bons momentos além das cenas de ação - e a mãe bêbada de Falon é um achado no roteiro sem pé nem cabeça. Se Gisele é boa atriz? Bem... ahn... Ih, estou atrasado pro trabalho!
Domingo, Abril 24, 2005
Posted
2:25 AM
by MARCELO MIRANDA
SUPER SIZE ME - A DIETA DO PALHAÇO
Super size me (EUA - 2004)
Direção: Morgan Spurlock
Se Michael Moore pode manipular um monte de dados e informações para "provar" suas teorias, por mais furadas que elas sejam, e ainda levar a Palma de Ouro em Cannes por isso, porque um cidadão comum não poderia se expor a um experimento bizarro em prol do bem da humanidade (dando também sua manipuladinha, claro?). Toscamente falando, é isso este documentário: uma tentativa de atacar a indústria McDonald's em que o diretor se torna cobaia de trinta dias de alimentação apenas à base de sanduíches da rede mundial de lanchonetes.
Não tenho argumentos tão bem burilados e fundamentados como os que o Marcos A. Felipe teceu no blog dele. Simplesmente achei que Morgan Spurlock foi gratuito demais ao defender sua tese. Sim, é extremamente interessante o ponto de partida, além de ousado e arriscado. Mas a partir do momento em que o cineasta tem absoluta certeza de onde quer chegar e faz tudo que estiver ao alcance para atingir os objetivos, a coisa perde um pouco de sentido. Afinal, não há dúvidas de que a pretensão maior é acertar em cheio o McDonald's (e os letreiros finais, quando Spurlock ironiza o fato da lanchonete ter abolido as opções "gigantes" de seu cardápio após o lançamento do filme em Sundance, explicita essa idéia), usando dois caminhos: o contexto da alimentação nos EUA, maior país de obesos do mundo; e o tal experimento.
Daí em diante, ele vai fazer de tudo para chegar onde pretende, mostrar aquilo que quer mostrar. Se por um lado parece cool um cara comum se entupir de lanche para enfrentar a gigantesca e globalizada McDonald's, mesmo sofrendo problemas mentais e físicos por conta disso, o filme é todo desenvolvido de forma ao público não perceber suas fragilidades de conteúdo. O próprio Spurlock às vezes não parece levar a sério sua tese. Como no momento em que encontra um cara fissurado por Big Macs e ouve histórias impressionantes. O máximo que o diretor faz é dar boas gargalhadas com aquela figura excêntrica, deixando passar aos olhos de quem vê o mais óbvio e importante que havia ali: um homem que comeu mais de 400 sanduíches industrializados em um ano e não é gordo, tem um casamento feliz e parece ser muito saudável. Por que Spurlock não o usa mais no filme, além de trata-lo apenas como uma peça folclórica? Porque não serviria aos seus propósitos de, ao final, atirar no McDonald's e tornar-se o cool.
Não há aqui neste que escreve qualquer tipo de defesa do McDonald's. Muito pelo contrário: detesto essa lanchonete, passo longe sempre e não dou a mínima para suas mcpromoções. Tenho plena consciência dos malefícios desse tipo de alimentação (não por conta de Spurlock). O que se discute aqui é cinema e as formas como um documentarista tenta transmitir ao espectador aquilo que deseja, da forma como deseja. É o mesmo raciocínio para Fahrenheit 11 de setembro: não precisa ser entusiasta de Bush (alguém o é?) para perceber as grosseiras artimanhas de Michael Moore, tentando a todo custo nos fazer crer naquilo que diz - mesmo que ele próprio saiba que o que diz (ou a forma como o faz) não é crível.
ACRÉSCIMO: pesquisando sobre o filme, achei esta excelente entrevista que Spurlock deu ao crítico pernambucano Kleber Mendonça Filho. Uma de suas respostas é melhor, mais embasada e consistente que todo o seu filme. Kleber referiu-se a uma carta enviada pela assessoria do McDonald's em que a empresa dizia que Spurlock não havia sido honesto no filme porque, se ele comesse qualquer outra coisa, e só esta coisa, durante 30 dias, teria problemas de saúde. Sejamos justos com o cineasta: um contra-argumento infantil e limitado. Enfim, segue o melhor trecho da entrevista.
KMF - Recentemente, quando eu escrevi sobre Super Size Me, em Cannes, a assessoria de imprensa da McDonald´s me enviou uma resposta, aparentemente padronizada para todos os mercados McD onde o filme esteja sendo exibido.
Spurlock - Sim, eles levantam o seguinte ponto: Se você comer brócolis, e apenas brócolis, durante 30 dias, os efeitos serão nocivos à sua saúde. A questão é que, da última vez que eu chequei na "McBrócolis", eles não estavam vendendo refeições (ed: "meals" em inglês, "lanche" no Brasil) de brócolis. Na McDonald´s é diferente, eles te vendem um "Quateirão Refeição", ou um "Café da Manhã Refeição", ou almoço, ou jantar-"refeição". Basicamente, o que significa isso, esta forma de embalar o produto para o consumo? Significa que o consumidor entende que está tudo bem em comer essas refeições no café da manhã, almoço ou jantar. E eu estou fazendo exatamente o contrário com o meu filme, estou perguntando o que acontece quando alguém só come essa porcaria. E já que eles dizem que qualquer coisa durante 30 dias faz mal, eu pergunto, com que frequência, portanto, eu poderia consumir sua comida carregada de colesterol, gordura e açúcar? Eu entendi fazendo o filme que mesmo os que sabem que esse tipo de comida faz mal à saúde não têm uma verdadeira idéia do quão nocivos esses produtos são. Preciso esclarecer também que a McDonald´s não é a única comida-lixo do mercado, todas essas outras cadeias fast-food também são. A questão da McD é que seu marketing projeta uma imagem de inocência que me irrita profundamente. No final das contas, eles não estão errados, quem está errado é esse documentarista irresponsável! Para mim, uma empresa que alimenta diariamente 46 milhões de pessoas deveria pensar na sua responsabilidade social.
Sexta-feira, Abril 22, 2005
Posted
8:58 PM
by MARCELO MIRANDA
PERFIS V
Com atraso, publico aqui mais um perfil de diretor. Como venho dizendo, os textos são menores e menos desenvolvidos do que eu gostaria, porque são feitos para publicação em jornal tablóide, então o espaço é pequeno. E como jornal diário é efêmero demais, achei que seria legal registrá-los aqui. Venho recebendo um retorno pequeno, mas imensamente satisfatório. Espero que sigam acompanhando.
ENTRE O REAL E O FANTASIOSO
Tim Burton usa o imaginário para abordar personagens à margem de mundos que não os aceitam
Às vezes alguns diretores de cinema parecem muito esquisitos. É o caso de Tim Burton: por mais comerciais que sejam seus filmes, quanto mais sucesso ele possa fazer, sempre alguma coisa muito estranha ronda suas narrativas. Alguns o consideram bizarro; outros acham que ele usa o gótico e o sombrio para se firmar como autor numa indústria dominada por produtos pasteurizados como Hollywood. Mas acima de tudo, Tim Burton se mantém como um dos cineastas mais interessantes e criativos do cinema americano atual.
Essa estranheza dos filmes feitos por ele vem desde o começo da carreira. Nascido em 1958 na Califórnia, Burton estreou no mundo cinematográfico com dois curtas-metragens que, de tão fora do padrão, nunca foram exibidos em salas comerciais: "Vincent" (1982) e "Frankenweenie" (84), ambos homenagens ao universo de horror que sempre o fascinou. Apesar da recusa de estúdios em lançá-los, os curtas chamaram a atenção da Disney, que convidou Burton para comandar "As aventuras de Pee-wee" (85), trabalho que tornou-se seu primeiro longa. Em seguida veio "Os fantasmas se divertem" (88), comédia sobrenatural que começou a delinear os caminhos seguidos por ele ao longo da carreira.
Foi no filme seguinte a grande entrada no mundo louco de Hollywood, e em grande estilo: "Batman - O filme" (89) chegou carregado por maciça campanha de marketing e fez bilheterias milionárias. A pompa não apagou o que estava impresso na tela. Adaptando os quadrinhos do herói vestido de morcego, Tim Burton expressou o tema preferido de seu cinema: pessoas à margem da sociedade tentando impor visões próprias num mundo que não os aceita. É disso que trata "Batman", através dos traumas de Bruce Wayne (milionário órfão na infância e traumatizado pelo resto da vida, tornando-se um vigilante noturno que luta contra o crime).
É disso também que tratam todos os principais filmes do diretor. "Edward Mãos-de-Tesoura" (90) talvez seja o trabalho mais autoral dessa filmografia. Além do personagem ser fisicamente semelhante a Burton, a idéia do marginalizado vai ao extremo, no drama fabulístico do jovem criado em laboratório que tem tesouras no lugar das mãos. Ele conquista uma pequena cidade, para logo em seguida ser escorraçado por simplesmente não se adequar àquele universo. "Batman - O retorno" (92) dá continuidade à saga do Homem-Morcego, aprofundando obsessões e sensação de isolamento do mascarado. Coloca em cena uma companheira para o herói: a Mulher-Gato nada mais é do que o alter ego de Bruce Wayne. A diferença são os lados da lei escolhidos por cada um (e aí reside a origem da complexa relação entre os dois).
"Ed Wood" (93) é, ao lado de "Edward Mãos-de-Tesoura", o mais pessoal dos filmes de Burton. Não é à toa que ele utiliza o mesmo ator nos dois trabalhos: Johnny Depp é uma espécie de espelho do diretor, o melhor a se encaixar nos mundos que ele cria (como também aconteceu em "A lenda do cavaleiro sem cabeça", de 1999). São mundos repletos de figuras fantasiosas. Podem parecer apenas fictícias, mas são sempre reflexos de nós mesmos - ou, no mínimo, daquilo que não aceitamos. Burton brinca com o real e o imaginário, inserindo protagonistas em lugares que mais parecem pura invenção visual e temática. A dúvida sobre os significados de seus filmes reside exatamente aqui: em onde termina a ilusão e começa o "verdadeiro".
Essa ambigüidade foi discutida de frente no recente "Peixe grande" (2003). Burton coloca em cena um homem à beira da morte e cujo filho não acredita em suas histórias de vida - por serem exatamente fantasiosas demais. No desfecho, Burton explicita que a fantasia não precisa necessariamente se desvincular do real. Esses dois mundos podem dividir o mesmo espaço.
Quinta-feira, Abril 21, 2005
Posted
11:35 PM
by MARCELO MIRANDA
RAPIDINHAS
Mar adentro (Espanha, 2004) - só agora fui ver este filme tão comentado, elogiado e ganhador do Oscar de melhor estrangeiro. Muito bonito, realmente, tratando do tema eutanásia não da forma como seria mais óbvia (discutindo se é certo ou não), mas se aprofundando na mente e nas lógicas do personagem principal. A história real de Ramón Sampedro, mecânico acidentado que passou 26 anos só se movimentando do pescoço para cima, ganha contornos poéticos e respeitáveis sob a direção de Alejandro Amenábar e, principalmente, na interpretação magistral de Javier Bardem, merecedor de qualquer prêmio que ganhou ou venha a ganhar. O filme apela para tons melodramáticos em excesso em poucas cenas, mas no geral comove, gera reflexão e, o melhor de tudo, consegue falar de um assunto sério e polêmico de forma bem humorada sem jamais cair no mau gosto e muito menos no exagero. Filme pequeno e marcante.
Ritual dos sádicos / O despertar da besta (Brasil,1970) - talvez a maior loucura já inventada pela mente genial de José Mojica Marins. Pela primeira vez ele encara de frente os significados e influências de seu imortal personagem Zé do Caixão, usando para tanto os efeitos de drogas alucinógenas - o que rendeu absurda proibição ao filme por parte dos "inteligentíssimos" censores da ditadura militar. Sofisticado, anárquico e chocante, Mojica faz aqui o que é considerado por muitos entendidos como sua obra-prima. Usando de mote a própria persona criada por ele, o cineasta não apenas faz um filme metalingüístico de raro vigor, como também se aproxima da fase mais elogiada na obra do italiano Federico Fellini. Mas comparar ambos é injustiça: cada um a seu modo fez o cinema evoluir. Mojica, talvez, mais ainda, por ir contra tudo que se considerava certinho e ordeiro, entregando em seus filmes experiências como poucas vezes se têm em filmes do gênero.
Código 46 (Code 46, Reino Unido, 2003) - alguém viu esse filme? Depois de assistir em DVD, cacei críticas na Internet e achei pouquíssimas. Talvez porque não haja muito o que falar mesmo. O inglês Michael Winterbottom fez um filme legal, interessante, mas totalmente esquecível. Sim, o futuro vislumbrado aqui tem sopros de originalidade, mas nada muito melhor do que o visto no superior Gattaca; a relação "proibida" dos personagens é bem desenvolvida, mas nada que chegue perto de Blade Runner; e a direção de Winterbottom é caretona, não dando uma cara própria ao filme. Sei que não é nada profissional ou correto comparar filmes a outros infinitamente melhores, mas nesse caso não tinha muito mais a falar. Não é um desastre, mas dá para passar sem. Como parecem ter feito muitos escritores de cinema da net...
Para sempre Lylia (Lilja 4-ever, Suécia, 2002) - faço minhas as palavras do Ailton Monteiroquando ele comentou este filme: viver na Suécia deve ser muito ruim e triste. Ao menos na visão dos filmes que nos vêm de lá, desde a obra do mestre Bergman até pérolas menos conhecidas (sendo a maior delas Thriller - a cruel picture). No caso do filme de Lukas Moodysson, algo me incomoda: a degradação pela degradação à qual ele impõe sua protagonista parece não levar a lugar algum. Ao final, vem a temível pergunta "e daí?". Gostei bastante do filme, mas esse lado gratuito dele não me deixou adorá-lo. Claro, estão lá questões relevantes, como a (não) inserção das classes baixas num mundo pretensamente globalizado, a falta de comunicação com os pais, o surgimento de laços fraternos inesperados em meio à barbárie. Mas em vez de se deter nesses aspectos (ele consegue fazer isso poucas vezes, como quando coloca em cena a garota sofrida e o menino vizinho, em momentos sublimes), Moodysson prefere enfiar sua personagem num buraco cada vez mais fundo. Ele parece querer simplesmente chocar, em vez de provocar; mostrar o inferno, em vez de questioná-lo. Esse tratamento aparentemente pesado enfraquece seu potencial de ser uma grande obra. Mesmo o citado Thriller, com toda crueza e estranheza, ia fundo, ao colocar a protagonista na mesma posição de seus algozes, tornando-a um deles, ou mesmo pior. De qualquer forma, Para sempre Lylia merece ser visto, principalmente pelo uso primoroso da linguagem cinematográfica, desde a forma como capta a expressividade do elenco (em especial da jovem e fantástica Oksana Akinshina) ao uso explosivo e sufocante da trilha sonora (alguém pode me dizer o nome da música que abre o filme?).
Versus (Japão, 2000) - soube desse filme pelo fanzine Japan Action e me interessei bastante. Vendo-o hoje, a impressão foi a de testemunhar um achado do cinema de ação e terror. Sinta só: é uma mistura equilibrada e perfeita de ação à John Woo, zumbis, artes marciais, samurais, mundos paralelos e muito sangue, vísceras e pedaços de corpos. Os primeiros 40 minutos são inacreditavelmente empolgantes e surpreendentes, com a apresentação de uma trama inicialmente incompreensível e desde já muito movimentada (ajuda o fato de tudo se passar numa floresta infestada por mortos-vivos). Daí em diante a coisa só melhora, inclusive no humor negro e corrosivo. Grande obra de baixo orçamento que parece superprodução, exalando criatividade, originalidade e muita paixão em filmar. Tem que ser visto, é cinema de calibre máximo!
Terça-feira, Abril 19, 2005
Posted
11:28 AM
by MARCELO MIRANDA
FESTIVAL DE CANNES 2005
Foram divulgados hoje de manhã 20 filmes de 13 países que vão disputar as premiações, incluindo a mítica Palma de Ouro, do maior e mais importante evento cinematográfico do mundo. Surpresa para a indicação de Sin City, adaptação dos quadrinhos de Frank Miller dirigida pelo próprio junto a Robert Rodriguez; para um filme dirigido pelo ator Tommy Lee Jones, The tree burial of melquiades estrada; e destaque para a volta de nomes de respeito e interesse, como Jim Jarmusch, Lars Von Trier, Gus Van Sant, David Cronenberg, Amos Gitai e Michael Haneke. E nada de Michael Moore desta vez, graças aos deuses cinematográficos.
Não deu Brasil na seleção competitiva. O único latino-americano na disputa é o mexicano Batalla en el cielo, de Carlos Reygadas. Os brasileiros vão estar representados na prestigiosa mostra paralela "Um Certo Olhar", com os filmes Cinema, aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes, e Cidade baixa, de Sergio Machado.
O 58º festival acontece de 11 a 22 de maio, na França. O presidente do júri oficial, que escolhe os melhores do ano, vai ser presidido pelo cineasta bósnio Emir Kusturica, ganhador da Palma por duas vezes, pelos filmes Quando papai saiu em viagem de negócios e Underground - Mentiras de guerra.
Confira abaixo todos os selecionados para a competição em Cannes. E comentem o que vocês acharam!
- "Lemming", de Dominik Moll (França)
- "A History of Violence", de David Cronenberg (Canadá)
- "L'Enfant", de Jean-Pierre e Luc Dardenne (Bélgica)
- "Where The Truth Lies", de Atom Egoyan (Canadá)
- "Free Zone", de Amos Gitai (Israel)
- "The Best of Our Times", de Hou Hsiao-Hsien (Taiwan)
- "Broken Flowers", de Jim Jarmusch (EUA)
- "The Three Burial of Melquiades Estrada", de Tommy Lee Jones (EUA)
- "Bashing", de Masahiro Kobayashi (Japão)
- "Sin City", de Frank Miller e Robert Rodríguez (EUA)
- "Batalla en el Cielo", de Carlos Reygadas (México)
- "Kilometer Zero", de Hiner Saleem (Iraque)
- "Election", de Johnny To (Hong Kong)
- "Quando Sei Nato Non Puoi Piu Nascorderti", de Marco Tullio Giordana (Itália)
- "Last Days", de Gus Van Sant (EUA)
- "Manderlay", de Lars Von Trier (Dinamarca)
- "Shanghai Dreams", de Wang Xiaoshuai (China)
- "Don't Come Knockin'", de Wim Wenders (Alemanha)
- "Cache", de Michael Haneke (França)
- "Peindre ou Faire L'Amour", de Arnaud e Jean-Marie Larrieu (França)
Domingo, Abril 17, 2005
Posted
4:51 PM
by MARCELO MIRANDA
CHAKUSHIN ARI (ONE MISSED CALL)
Japão - 2004
Direção: Takashi Miike
Definitivamente a eletrônica é algo que assusta os japoneses. Ao menos no cinema, em que os líderes das invenções mais mirabolantes parecem exorcizar seus demônios através das mais engenhosas histórias de terror. O primeiro a chamar atenção aqui no Ocidente foi Ringu, de Hideo Nakata, filme em que o perigo vinha de uma fita VHS e que ganhou refilmagem nos EUA como O chamado. Hoje eu vi Chakushin ari, penúltimo trabalho do Takashi Miike (autor de maluquices como Gozu e da pérola extraordinária Audition). O vilão aqui são os telefones celulares. E tem ainda The pulse, do Kioshi Kurosawa, que ainda preciso ver, em que, parece, a morte vem da Internet.
Mas falando do Chakushin ari. Filme interessante, assustador e cheio de cenas arrepiantes. Só que algo incomoda, e muito: toda a estrutura é idêntica ao Ringu. Pegue a fita assassina deste, troque por celulares e pronto. Está feito o novo filme de Miike. Não pense que é exagero meu: é igualzinho!
Temos uma lenda urbana eliminando alguns jovens - corre por aí que uma mulher vinga-se de alguma coisa do passado enviando mensagens para celulares alheios avisando ao dono do telefone o dia e a hora da sua morte, além de deixá-lo ouvir as últimas palavras - o assombro de uma garota frente ao inexplicável, quando ela percebe que a tal lenda é real, sua cumplicidade com um homem que a ajuda a descobrir os segredos por trás das ameaça (que envolve uma menina de cabelos pretos e longos, de novo) e, claro, a virada no final, em que o clímax é apenas o começo de um problema maior.
Nem faz tanta diferença o filme ser dirigido por Miike. Este japonês alucinado está mais contido, menos explícito, apenas entregando o burocrático. Claro, há grandes momentos, principalmente a seqüência num estúdio de TV (a melhor do filme, quando uma das potenciais vítimas da maldição é levada a um programa tipo Ratinho e filmada e exorcizada, ao vivo, minutos antes da hora marcada para a morte - e com direito a relógio em contagem regressiva, mostrado para todo o país!). Ainda assim, falta alguma coisa. Certamente, originalidade. Quem viu Ringu, ou mesmo apenas a versão americana, vai se sentir meio incomodado com tantas semelhanças. Quem não viu, talvez curta mais, o que não redime Miike, cineasta dos mais fundamentais em atividade, que aqui não parece ser ele mesmo.
Para piorar, Chakushin ari já tem engatilhada uma refilmagem nos EUA. Claro, alguém duvidava? Sou fã do novo cinema de terror do Japão, chego a dizer que os nipônicos vêm fazendo o melhor terror da atualidade. Só que a fonte aparenta estar secando. Ainda não vi Dark water, do Nakata. Logo que vir, falo aqui.
Quinta-feira, Abril 14, 2005
Posted
3:12 PM
by MARCELO MIRANDA
REENCARNAÇÃO
Birth (EUA - 2004)
Direção: Jonathan Glazer
Uma pena que este filme esteja sendo tão mal recebido pelo público. O que está acontecendo? As pessoas estão tão impacientes a ponto de não suportarem um filme mais lento e pausado? Não sabem apreciar a beleza de uma imagem, a poesia de um gesto, o significado dos sons? Será que a TV está tão impregnada na cabeça do espectador que, quando ele se depara com algo nada televisivo, a única resposta é a rejeição? Só sei que recebi tanta falação de alguns colegas por ter gostado do filme ("o que? você gostou? Tá doido, filme não acontece nada, não envolve, não conta a história direito") que andei pensando em escrever artigo sobre o assunto, falando dessa relação dos filmes com o público e das diferenças de quem vê e de quem analisa cinema. Essas reações me lembraram algo semelhante ocorrido na estréia de Encontros e desencontros, outro trabalho belíssimo feito fora dos padrões ditos "normais".
De qualquer forma, podem ler minha crítica sobre Reencarnação no Cinefilia. Depois voltem para comentar, aqui ou lá.
Segunda-feira, Abril 11, 2005
Posted
6:42 PM
by MARCELO MIRANDA
PERFIS IV
Mais um perfil de cineasta escrito por mim e publicado no jornal PANORAMA, onde trabalho. Vale registrar que, por serem escritos para jornal, os textos não são tão extensos e desenvolvidos como eu gostaria. É mais uma apresentação do cineasta aos leitores, tentando compreender alguma coisa de sua obra. Venho tentando variar entre um na ativa e outro não mais trabalhando (seja por aposentadoria ou morte). Então, segue o desta semana:
UM CINEASTA VISIONÁRIO
Stanley Kubrick marcou as telas com seu olhar sobre a ambição
Poucos cineastas foram tão visionários quanto Stanley Kubrick. Seus filmes representaram uma visão de mundo ímpar, à frente do tempo. Nascido em Nova York em 1928, Kubrick começou a carreira como fotógrafo para a famosa revista Look, ainda aos 17 anos. Provavelmente o olhar apurado o fez se apaixonar não apenas pelas imagens estáticas das fotografias, mas também pelo movimento do cinema. E igualmente por conta do lado fotógrafo, os poucos 13 filmes foram, todos, sem exceção, preciosismos de enquadramento, visual, desenho de cena.
As idéias de Kubrick também eram preciosas. Fosse qualquer período abordado, ele sempre ia além do óbvio, jamais preso ao tempo: sociedades modernizadas que nada mudaram em sua essência com relação ao passado, sociedades arcaicas que previam a desestabilização do ser humano no futuro. Jamais deixava de lado os pensamentos do presente, a frieza do mundo, a ambição do homem.
Ambição. Este talvez fosse o grande tema de Stanley Kubrick. Em todos os seus filmes, do primeiro ao último, há o personagem não satisfeito com o que lhe é dado. Ele quer mais. Nisso, surge a busca por algo novo, ainda que não se saiba bem o que se quer. Procura-se a revelação, a descoberta, a epifania, o choque, a modificação. É disso que se originam os finais geralmente incômodos e aparentemente incompletos de muitas das obras de Kubrick: quando chega o impacto, é hora de parar. Já se tem o resultado da ambição - para o bem ou para o mal.
Não precisamos ir longe para comprovar. Os mais significativos filmes de Kubrick falam por si só. O coronel de "Glória feita de sangue" (1957) busca justiça em nome dos soldados erroneamente julgados em plena 1ª Guerra Mundial; o escravo Spartacus quer liberdade para o seu povo, mesmo que precise derrubar os líderes de Roma, no épico "Spartacus" (60); o professor de "Lolita" quer apenas um amor verdadeiramente ardoroso, e a pequena ninfeta completa seus desejos. Até quando trabalha na farsa, o diretor insere a procura pelo choque: em "Dr. Fantástico" (64), sátira política sobre a possibilidade de guerra atômica entre EUA e a então União Soviética, o amalucado general americano insiste que a única possibilidade de resolução do conflito é destruir o lado oposto.
Mas foi nas obras-primas que vieram depois que Stanley Kubrick deixou de vez um dos maiores testamentos do cinema mundial. "2001" e "Laranja mecânica" (71) são duas visões de futuro que têm mais de presente do que qualquer outra coisa. No primeiro, não há inovações tecnológicas, naves espaciais ou viagens interplanetárias que suplantem a selvageria humana, o interesse pelo puro e simples sucesso acima da própria humanidade. Irônico que essas idéias surjam não pelas ações de pessoas no filme, mas dos macacos ancestrais e do computador HAL-9000, mais "gente" que qualquer outra coisa em cena. Já "Laranja mecânica" adianta em duas décadas as comuns brigas de gangues que infestam as ruas do mundo atual. A covardia de Alex e seus amigos não pode ser eliminada nem mesmo através de lavagem cerebral. É preciso se acostumar à convivência com essas verdadeiras bestas humanas.
Os três últimos filmes de Kubrick mantiveram a linha. "O iluminado" (80) parte para o terror do isolamento e a procura de um escritor por algo que lhe inspire - e, conseqüentemente, é levado à loucura. "Nascido para matar" (87) também tem algo de louco naqueles soldados que treinam para lutar no Vietnã, na frieza e obediência quase robótica dos pobres recrutas - que não demoram a gerar suas próprias atitudes loucas. Por fim, no seu testamento cinematográfico, Kubrick lançou "De olhos bem fechados" (99), dias antes de morrer. Ainda pouco compreendido, é uma estranha crônica sobre relacionamento entre casais e as paranóias do medo da traição. Há ambigüidade, mistério, enigmas. Como em toda a obra magnífica de Stanley Kubrick.
Domingo, Abril 10, 2005
Posted
5:04 PM
by MARCELO MIRANDA
THE BROWN BUNNY
EUA - 2003
Direção: Vincent Gallo
Incrível como alguns filmes têm capacidade de gerar repercussão além do que eles mesmos representam. Vejam o caso deste The brown bunny: concorrente à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2003, foi enchovalhado pelos críticos porque, perto do final, há uma cena explícita de sexo oral. E só. Esse foi o maior motivo da má recepção do filme (um certo "crítico" brasileiro chegou a dizer que era o pior filme já exibido em Cannes). O resto? Que se dane!
Pois The brown bunny é muito mais do que a felação entre Vincent Gallo e Chloë Sevigny. É simplesmente um dos filmes mais românticos dos últimos tempos, uma história de amor como poucas vezes se vê, um conto de paixão e aceitação da perda que comove, provoca, cativa. A andança aparentemente sem rumo de Gallo (também diretor) não tem propósito definido exceto achar a mulher amada, reencontrar ou pelo menos entender como ela pode ter sumido de sua vida.
Road movie que é, torna-se interessante perceber que a jornada de Gallo difere-se da maioria dos filmes desse estilo, pois o protagonista não sai em busca de alguma coisa: ele volta em busca de alguma coisa. Isso faz toda a diferença, porque ele sabe o que quer e onde esse ¿objeto¿ está, e não simplesmente sai pela estrada atrás de algo ainda indefinido. Sim, Gallo-personagem é um homem claramente transtornado, e seu comportamento só vai ser explicado no último minuto do filme. Mas até lá, acompanhamos seu vai-e-vém tendo plena consciência de que ele sabe o destino final - como o próprio deixa claro no primeiro diálogo, numa pequena mercearia. "Preciso estar em Los Angeles até sexta-feira".
Essa frase define o destino e já gera no espectador a curiosidade. Dali em diante, veremos Gallo dirigindo, conversando, beijando mulheres, abastecendo o carro, andando de moto pelo deserto, pensando na amada. Isso é chato? De jeito nenhum: o Gallo-diretor conduz a (falta de) narrativa com precisão milimétrica, poucos cortes, poucas falas, muita expressão e dúvida no ar. Há algo de Kiarostami na relação do personagem com a gente que encontra pelo caminho: aparentemente ele não tem motivos para abordá-las (talvez buscar um novo amor?), mas são naqueles rápidos momentos que ele se humaniza e, provavelmente, coloca o pé no chão e percebe em que mundo está. Kiarostami usa essas abordagens como forma de investigação e apuração; Gallo as torna formas de conscientização.
De alguma forma, há uma postura política aqui: só interagindo com o outro é que conseguiremos nos manter firmes e não enlouquecer frente às adversidades. Se nos enfiarmos num casulo, agindo de forma unilateral, provavelmente o resultado vai ser catastrófico - raciocínio que se atualiza com a nova onda de massacres perpetrados por gente comum nos EUA, ou mesmo a forma do governo Bush de lidar com os problemas geopolíticos.
Viram como The Brown bunny não se resume à felação? Pobres desses "críticos" que não querem entender e se envolver nas propostas de filmes ricos e ousados como esse.
PS: após escrever este texto, vi que o Ailton também falou do mesmo filme esta semana. Que legal, quando mais gente o vir e comentar, melhor!
Sábado, Abril 09, 2005
Posted
11:48 PM
by MARCELO MIRANDA
UMA TRINCA
O sumiço é justificável: trabalhando demais, vendo muitos filmes e razoavelmente cansado. Mas deixa esse papo pra depois e vamos dar uma passada rápida em algumas das muitas coisinhas vistas nos últimos dias. Digam o que acham:
MAL DOS TRÓPICOS (Sud pralad, Apichatpong Weerasethakul, Tailândia, 2004) - um dos filmes mais estranhos que eu já vi. Concorrente em Cannes no ano passado, furacão de elogios nas únicas exibições no Brasil, nos festivais do Rio e São Paulo, é um conto de dois amantes vivendo bucólico romance. Ou pode ser também o inferno que vive um soldado tailandês no meio da mata às voltas com o misterioso xamã que parece assombrar o lugar. O filme é claramente dividido em duas partes (mais claramente do que você pode imaginar), mas mantém certas ligações que não o tornam episódico. A diferença dessas partes é gritante: enquanto a primeira acompanha os momentos felizes de dois homens atraídos um pelo outro, a segunda é claustrofóbica, tensa e absolutamente surreal - sem falar que quase não possui falas, valorizando ao extremo os sons emanando da selva.
O que mais falar? Assisti ao filme hoje, ainda estou meio zonzo, não tenho muito a dizer. Não é à toa que a imprensa brasileira em Cannes não se empolgou com Mal dos trópicos: não é filme para sair da sala e escrever imediatamente sobre ele. É para matutar, refletir, tentar entender os zilhões de significados que emanam da tela. Estou com grande necessidade de revê-lo. Aí volto e falo melhor. Por ora, desculpem.
O CHAMADO 2 (The ring 2, Hideo Nakata, EUA, 2005) - continuação do excelente original lançado em 2003, que era refilmagem de um japonês. Agora comandado pelo diretor da versão nipônica, o filme não ganha tantos pontos a mais do que o primeiro. Pelo contrário: é menos original, menos inventivo, menos assustador. De qualquer forma, gostei, principalmente pelo caminho dramático que a narrativa toma, colocando a protagonista num dilema que, mais do que causar medo, provoca apreensão e dor. E a relação mãe-filho apresentada aqui também é fator de interesse.
ERA UMA VEZ NA CHINA 2 (Wong Fei-hung ji yi: Naam yi dong ji keung, Tsui Hark, Hong Kong, 1992) - nunca tinha visto um filme legitimamente do Hark (a única obra dele que eu conhecia era o fraco A colônia, feito nos EUA). Agora sim entendo porque ele é considerado dos mais importantes cineastas do Oriente: Era uma vez na China 2 é uma maravilha no gênero das artes marciais, mostrando a história de um jovem enfrentando o caldeirão que está Hong Kong após a 2ª Guerra Mundial e o impasse com os ingleses, que anexariam a ilha logo depois. Além das brigas fantásticas, o filme deixa espaço para discutir a autonomia do país, mostrando, de um lado, gente comum e simples tendo que aceitar a invasão e, de outro, grupos radicais e extremistas lutando de todas as formas contra a opressão. É de onde surge o conflito e se insere o protagonista, jogado meio por acaso nessa confusão. Jet Li interpreta o personagem principal, valha-me Deus, como esse cara luta! Vê-lo em Hollywood não é nada perto do que ele se mostra capaz de fazer. Ah, gostei tanto da música-tema que baixei da Internet três versões dela.
Soube por fonte segura que o primeiro Era uma vez na China é ainda melhor. Já estou programando vê-lo logo e me deleitar com a arte de Tsui Hark e Jet Li.
Quarta-feira, Abril 06, 2005
Posted
9:35 PM
by MARCELO MIRANDA
RECORDE
Hoje é um dia especial. Provavelmente graças à divulgação do sempre amigo Carlão Reichenbach, meu humilde blog atingiu o recorde de visitas diárias: até o momento em que escrevo, foram 34 visitantes computados. Sim, é um número modesto, mas minha média não passava de 15 diariamente. Ou seja, mais que dobrou.
Estou nesse ramo de blog há pouco tempo. Entrei nisso na tentativa de aprimorar minhas impressões sobre os filmes aos quais assisto (tentando escrever sobre tudo) e sob forte influência de blogueiros mais veteranos, como Ailton Monteiro e José Roberto Rocha. Com o tempo, fui conhecendo e mantendo contatos com outros colegas e, atualmente, sinto-me muito bem acompahado nesta atividade meio maluca. Fui surpreendido em janeiro, quando ganhei menção honrosa na categoria "Blog de Cinema" do Quepe do Comodoro - o prêmio principal foi justamente ganho pelo Ailton.
Minha ambição não é tornar isso aqui um campeão de audiência. Gosto é que leiam e comentem meus textos, porque uma das maiores motivações desse blog é exatamente trocar impressões com os amigos cinéfilos (olha o nome aí em cima, aliás). Então, quanto mais gente aparecer, melhor.
Assim, peço a todos que voltem sempre. Participem, escrevam, xinguem, perguntem. Acho que ainda atualizo menos do que deveria, mas outras atividades me impedem de ser mais "fiel". Mas tenham a certeza de que sempre estou pensando no que e quando postar novidades por aqui. Conto com a participação e colaboração de todos. Vamos ver se supero minha marquinha de 34 visitas/dia, :-)
Abraços a todos e até o próximo post. Apareçam também no Cinefilia, site que fundei com uma turma de amigos, sou um dos "palpiteiros" e escrevo regularmente.
Segunda-feira, Abril 04, 2005
Posted
3:40 PM
by MARCELO MIRANDA
PERFIS III
Seguindo os perfis de diretores, que publico semanalmente no jornal em que trabalho, segue o da semana passada. Espero que gostem. Logo mais volto pra falar de filmes específicos.
AMOR BIZARRO
David Lynch filma personagens sem controle inseridos num universo de pesadelo
Uma mulher está sentada escrevendo carta ao seu grande amor. Ela não tem as pernas. Enquanto ouvimos o texto escrito, entra um enfermeiro que faz curativo num dos "tocos" de perna da mulher. Algo acontece. Começa a jorrar sangue incessantemente. O enfermeiro tenta, por cinco minutos e sem sucesso, conter a sangueira. E a mulher ignora, ainda escrevendo a carta.
Esta única cena do curta-metragem "A amputada" (1974) resume à perfeição o cinema de seu autor, o diretor americano David Lynch. Desde os primeiros trabalhos em animação, chegando ao longa-metragem em 1977 com "Eraserhead" e culminando, até agora, com seu último filme lançado, "Cidade dos sonhos" (2001), toda a obra de Lynch se fixa nessa premissa: personagens jogados em situações nas quais eles não têm nenhum controle e, exatamente por isso, acabam expostos a todo tipo de bizarrice e acontecimentos fora do que seria chamado de normal.
David Lynch é muito mais que um diretor "difícil" ou que gosta de embaralhar as histórias que conta. Antes de ser "difícil" (no sentido de complicado), Lynch é um provocador. Ele tem prazer de brincar com o espectador, levando-o a seguir caminhos que quase nunca são os corretos, mas sempre levam a algum lugar. Por isso seus filmes carregam atmosferas de estranhamento, de algo fora de lugar, de universos afastados do realismo ¿ mas no fundo, Lynch filma o ser humano e suas consciências, porque, de uma forma ou outra, o que move esses personagens é a busca por amor e afeto.
É assim com Henry, trabalhador que se vê na responsabilidade de ser pai mas não aceita a situação, em "Eraserhead"; com John Merrick, deformado que se torna a atração da sociedade inglesa, em "O homem-elefante" (80); com Paul Atreides, que se vê transformado num Messias em "Duna" (84); com Jeffrey, envolvido numa trama sórdida e violenta em "Veludo azul" (86); com o agente Cooper, perdido entre tantas pistas do assassinato da jovem Laura Palmer em "Twin Peaks" (90), seriado de TV concebido e dirigido por Lynch. E em todos os demais protagonistas dos outros filmes: do casal de "Coração selvagem" (90) ao saxofonista de "Estrada perdida" (97), do velho em busca do irmão de "História real" (99) às duas amantes de "Cidade dos sonhos".
David Lynch filma, sim, o ser humano e seus amores, mas de uma ótica do pesadelo. É o cineasta contemporâneo que mais sabe como entrar na mente daqueles que aborda, que mais se insere não em psicologismos baratos, mas em perturbações da alma, agonias da vida, desesperos do cotidiano. Não é à toa que a maioria das ambientações dos filmes seja em pequenas cidades americanas, onde tudo parece chato e normal demais. O início de "Veludo azul" deixa isso claro: vemos pessoas gentis e simpáticas em frente a lindos jardins. Parece tudo na mais harmônica paz, quando surge em primeiro plano uma orelha humana arrancada do corpo. Ela será a chave para toda a loucura que virá a seguir.
O que por vezes pode parecer incompreensível e grotesco em David Lynch é simplesmente a forma como ele tenta transmitir todos esses significados. A pior forma de um espectador assistir a qualquer filme do diretor é se fixar apenas nas estripulias de roteiro. O roteiro, em Lynch, é um elemento entre milhares de outros, talvez um dos menos importantes. Não é um cineasta de histórias amarradas, de linguagem tradicional. Até quando parece seguir o clássico ("Duna", "História real"), surge diferenciações na maneira de enxergar o próprio enredo. Lynch deve ser sentido, seus pesadelos precisam se entranhar no público. Dessa forma que os filmes deste mestre podem ser apreciados da melhor forma. E é neste contexto que Lynch se torna fundamental no cinema feito hoje.
|