Impressões Cinéfilas

Segunda-feira, Maio 30, 2005


EMBARCANDO PARA O CINEPORT

Poucas atualizações, por conta de uma imensa dor nas costas que me impede de digitar em excesso. Lembrei do colega Ailton, que luta contra uma tendinite. Eu rezo para essa dor não me incomodar mais do que durante alguns dias...

Principalmente porque, nesta quarta, embarco para Cataguases (aqui em Minas, terra onde Humberto Mauro mais filmou) para cobrir o I Cineport - Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa. Nem vou detalhar o evento, basta acessarem aqui e saber tudo, desde programação a informações de local, horários e muito mais. Será o primeiro grande festival cinematogáfico em que ficarei do início ao fim (no caso, doze dias) e trabalhando ensandecidamente para o jornal de onde sou repórter.

E claro, pretendo fazer um diarozinho do que está rolando por lá ¿ nem que seja reproduzindo as matérias que eu fizer, mas alguma coisa vou publicar! Espalhem para os amigos: se querem saber do Cineport, o lugar é aqui ou no Cinefilia. Até mais.

Quinta-feira, Maio 26, 2005


É, a maré não está das melhores. Desânimo com o trabalho, desânimo com a vidinha medíocre, desânimo com a falta de tempo para fazer mais coisas de que eu gosto, desânimo com os poucos comentários aqui do blog (apesar do razoável número de acessos), desânimo ainda pela trágica perda de um colega... Isso é parte da vida, né? Ou será que é porque estou com sono neste momento? Não tenho muito do que reclamar. Mas reclamo mesmo assim. Vamos falar de cinema.

O FILHO
Le fils (Bélgica - 2002)
Direção: Jean Pierre e Luc Dardenne

Hoje finalmente criei vergonha e assisti ao maravilhoso O filho (sim, inspirado pela Palma de Ouro para os Dardenne por L'enfant). Sempre quis ver, mas ia deixando pra depois. E o depois chegou. Devia ter visto antes. Lindo filme, de partir o coração ao mesmo tempo em que mostra como o ser humano é capaz de agir das formas mais estranhas possíveis e não ter como explicar o que está fazendo.

Para mim, O filho trata menos de compreensão, redenção, perdão e essas coisas bonitinhas para ser um pequeno tratado sobre o egoísmo. A relação que o marceneiro Olivier cria com o garoto Francis, assassino de seu filho, parece ser a única forma do pai amargurado voltar a estar próximo da criança perdida. Não é à toa que ele roda pelo quarto de Francis e até se deita na cama dele: seu olhar parece estar, a todo instante, tentando entender quem é aquele jovem assassino, vislumbrar sua intimidade, antever seus atos. Com isso, ele pode entender o que aconteceu há cinco anos e invadir os pensamentos da última pessoa a ver seu filho com vida. No fim das contas, Olivier se aproxima de Francis pensando em si mesmo, em suas próprias tensões, em seus próprios pesadelos, numa louca tentativa de exorcizá-los.

Quando falo de egoísmo, então, não é algo pejorativo. Apenas discordo de quem acreditar que Olivier está preocupado em redefinir a vida de Francis, em lhe dar um outro caminho após a saída da prisão. Creio que a preocupação maior é consigo mesmo, não com o pequeno assassino. Apesar disso, a desconcertante cena final só vem nos confundir ainda mais: seriam aquelas cordas e plástico em torno da madeira a improvável união dessas duas pessoas?

Como a linguagem e o tom adotados (sempre com uma câmera sufocando o espectador ao ficar o tempo todo em primeiros planos, chegando a momentos em que quase pedimos que eles abram a imagem para respirarmos - algo que eles jamais fazem), Jean-Pierre e Luc Dardenne não nos deixam ficar sabendo. O cinema deles é de sentimentos, de nuances, de simplicidade sem simplismo. Jamais de respostas. E é isso que os torna grandiosos.

Segunda-feira, Maio 23, 2005


PERDAS E COMENTÁRIOS

Os últimos quatro dias foram absolutamente terríveis. Um amigo e grande colega de trabalho morreu num acidente de carro na quinta-feira. Apenas 31 anos, pai de um menino de 8 meses, casado, no auge da carreira de repórter esportivo. Perda irreparável e mais inconsolável pela forma inesperada como aconteceu. Ele não era doente, não sofria de nada, não era inconseqüente. Acordou, foi trabalhar, bateu o carro e nos deixou. Difícil entender certas coisas da vida. Difícil, mas necessário. Antônio Marcos, ore por nós onde estiver. Nós, daqui, estaremos rezando pelo seu descanso e tentando aceitar sua partida tão breve.

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Passado o momento melancólico, vamos aos filmes: vi menos coisas do que queria na semana que passou, até por conta do que aconteceu, então não vou detalhar nada agora. Teço abaixo apenas dois breves comentários:

1.
E os irmãos Dardenne mais uma vez levam a Palma em Cannes. Quem diria... Apesar dos elogios ao filme deles, L'enfant, o peso todo estava nos nomes mais "quentes", como Von Trier, Cronenberg, Jarmusch, Haneke e, de última hora, Wenders. Este ano o júri foi eclético e premiou apenas um filme com mais de um troféu - foi o primeiro longa de cinema dirigido pelo Tommy Lee Jones, Os três enterros de Melquíades Estrada, muito elogiado. Levou roteiro (Guilherme Arriaga) e ator (o próprio Jones). Fiquei curioso para ver.

Eu torcia para o David Cronenberg, tanto pela sua importância quanto por ele nunca ter levado a Palma. Sem falar que seu A history of violence (ou O anjo da morte, como virá para o Brasil) parece um filme completamente insano e porra-louca nas atitudes de seu protagonista. Já estou sedento. Outros por quem eu torcia eram o Michael Haneke, que levou melhor diretor com Cachè, para muitos o quase-dono da Palma de Ouro; e claro, o hiper-cool Jim Jarmusch, bastião do cinema independente americano, arrasando com Broken flowers. Levou prêmio do júri.

Pela conta geral, Cannes 2005 dá impressão de ter sido excelente, com filmes de impacto, focando estruturas familiares e conflitos envolvendo a violência. Agora é esperar essa leva ir sendo lançada por aqui, já aceitando que muitos não vão ter o seu espaço (incluindo o grande vencedor, já que o primeiro filme dos Dardenne, Rosetta, ganhador da Palma em 1999, jamais foi exibido comercialmente no país).


2.


Sim, eu vi Guerra nas estrelas: Episódio III - A vingança dos Sith. Sim, gostei à beça. E sim, George Lucas, depois de entregar duas partes meio sem sal, soube fechar a saga que inventou há décadas. Algumas coisas ainda me incomodam, como o insistente clima de video-game, os efeitos especiais beirando o artificialismo de tão "especiais", os diálogos pavorosos de algumas cenas, a interpretação canhestra dos atores. Por outro lado, as referências à trilogia original, os desdobramentos da trama e o fecho ligando este com o filme de 1977 ficaram de babar. Sem falar em Darth Vader, que se não aparece tanto em sua forma mais conhecida, dá as caras em toda a vilania desde o momento em que é nomeado Lorde de Sith pelo Palpatine.

No saldo final, ficam três filmes medianos, com enorme peso para o terceiro. Os outros dois são longínquas sombras do que é, realmente, Guerra nas estrelas. Parece que Lucas esqueceu o que tornou sua criação tão encantadora: os personagens cativantes, a inocência e ingenuidade, o embate bem contra o mal, a ação frenética, a preocupação maior com a aventura e menor com o contexto social-político-militar. Nesta nova trilogia, a atenção se focou excessivamente nas tramóias de alcova, nos golpes de Estado, nas conspirações políticas, no visual arrebatador. Eu, particularmente, não penso que isso seja Guerra nas estrelas. E a julgar pela recepção morna desses filmes recentes (com exceção ao último, por enquanto), não estou tão equivocado.

PS: o Mario Sergio Conti, jornalista de primeira linha mas dublê de crítico de cinema de quinta, escreveu artigo muito interessante sobre a saga no site No Mínimo. Visão bastante imparcial, fria até, e polêmica e discutível por natureza. Toca em pontos óbvios da saga que poucas vezes paramos para pensar. Recomendo a leitura - que, desde já, vai gerar debate. Podem ler aqui.

Quarta-feira, Maio 18, 2005


É HOJE


Domingo, Maio 15, 2005


PERFIS VII

Sumiço por sumiço, ao menos a galera tem comentado os posts. É isso que mais quero aqui: trocar idéias, repercutir opiniões minhas e dos outros. A falta de tempo é compensado por isso, da melhor forma, aliás. E continuo com a série de perfis publicados no PANORAMA, escritos por mim, de alguns dos grandes diretores do cinema. Segue o próximo, um cara que admiro demais.

OUSADIA NA MESA
O dinamarquês Lars von trier não tem medo de ir além do óbvio, usando a maldade humana como tema de seus filmes


Manter um estilo ousado no viciado cinema contemporâneo é tarefa para poucos artistas de verdade. Talvez o maior deles que tem filmes lançados no Brasil seja o dinamarquês Lars von Trier. Numa filmografia razoavelmente curta (sete longas e algumas séries de TV em 20 anos de carreira), este diretor experimentou novas estéticas, estilos e linguagens que causam polêmica e reações de amor e ódio por onde seus trabalhos são exibidos.

Aliás, uma particularidade de Von Trier foi conseguir essa visibilidade rara fora de seu país. Desde Carl Dreyer, lá nos anos 20 e 30, que a Dinamarca não exportava um cineasta de tamanho impacto para o cinema mundial. Todos os longas-metragens de Von Trier (com exceção de um) concorreram ao prêmio mais importante do cinema, a Palma de Ouro em Cannes, na França. A começar pelo primeiro, "Elemento do crime" (84). Pouco lembrado, é um policial investigativo estranho, de clima pesado e sinistro que chamou atenção para o então jovem realizador. A promessa, de início, não se cumpriu: o filme seguinte, "Epidemic" (88), foi um fracasso.

Von Trier se firmaria com "Europa" (91). Numa fotografia preto-e-branco e apenas detalhes em cor, contando trama sobre as conseqüências do pós-guerra no Velho Continente, o diretor conquistou platéias e crítica com seu modo estranho de narrar as histórias, usando recursos diferentes do habitual (a começar pela falta de cor) e narrativa cheia de mistério e poucas explicações. Após o enorme impacto que causou com a série de TV "O reino" (94), em que mostrava o cotidiano de um hospital mal assombrado, Von Trier definiu seu caminho.

"Ondas do destino" (96) é o começo de uma trilogia informal em que a mulher será sempre colocada em posição frágil perante o mundo e terá que se adaptar a situações além de seu controle, enfrentando vilanias de um mundo no qual elas não cabem. Mesmo quando foi um dos fundadores do movimento Dogma 95 (que pregava a produção de filmes sem uso de efeitos especiais, trilha sonora, atores famosos e outros recursos típicos), Von Trier não fugiu dessa ambição de inserir a mulher num universo cruel.

Para entender (e gostar) dessa fase do diretor, é preciso aceitar a realidade que ele cria, em que o ser humano é reduzido a seres manipulativos, pouco importando o bem estar do próximo. E que a única saída pode ser fugir dessa realidade por formas nem sempre honestas (como em "Os idiotas", em que os personagens se fingem de deficientes mentais para serem aceitos nos meios sociais). Com "Dançando no escuro" (2000) Von Trier maltrata de todas as formas sua protagonista, vivida pela cantora Björk. Ela é uma imigrante tentando a vida nos EUA, sofre de cegueira progressiva e é acusada de assassinato. Para fugir dos problemas, só lhe resta cantar, tentando trazer a fantasia para sua sofrida rotina. Mas nem isso vai livrá-la do destino mais terrível que Von Trier lhe reserva: a pena de morte.

Depois de finalmente levar a Palma de Ouro em Cannes por "Dançando no escuro", o diretor se manteve nessa mesma linha de mulheres sofridas, mas decidiu radicalizar em todos os aspectos, tanto de linguagem quanto de conteúdo: em "Dogville" (2003), retirou o cenário e colocou atores contracenando num galpão fechado, apenas com móveis e marcas de giz delineando onde ficava o que (igreja, casas, lojas). O enredo sobre uma mulher fugindo de gângsteres e se refugiando numa pequena vila nas montanhas (onde será levada ao limite pelos moradores, que a obrigarão a lhes servir das formas mais sádicas, em troca de proteção) causou furor por servir de crítica aos EUA, país no qual Von Trier jamais esteve.

Besteira. O que se sobressai em "Dogville" é a acidez da degradação de uma personagem, seu mergulho nas mais profundas trevas da maldade, a transformação da solidariedade em vingança. Se o espectador não suporta tamanho estouro de pessimismo, não é Von Trier que vai acariciá-lo: já está selecionado para Cannes 2005, em maio, "Manderlay", seqüência de "Dogville". Von Trier provavelmente vai oferecer nova experiência única e genial, provocando o espectador e desafiando as normas impostas pelo cinema comercial. Não se pode pedir mais nada.

Quarta-feira, Maio 11, 2005


CONVITES

A loucura do trabalho sem minha colega (que está de férias) continua me consumindo quase por inteiro. O tempo que sobra é para cumprir outros compromissos e cuidar de coisas básicas da vida. O blog, coitado, mais uma vez é relevado para quase último plano - o que me deixa imensamente entristecido e frustrado. Não adianta chorar. Então, enquanto a coisa tá louca, seguem dois convites de leitura de textos meus recentemente publicados por aí.

1) agora que sou efetivamente um colunista do Digestivo Cultural, tenho certa liberdade em escrever de assuntos que talvez não coubessem em outros espaços. Gostaria que todos lessem minha coluna recente, "A falta de paciência com o cinema", e trocassem idéias comigo a respeito desse desabafo. O texto foi elaborado a partir da recepção exageradamente esbaforida ao sensível e estranho Reencarnação. Dêem uma olhada lá e me digam o que acham - aqui ou lá mesmo.

2) crítica do filme O lenhador: escrita para o Cinefilia, meu querido site. Foi algo meio de instinto. Vi o filme ontem e, à medida que ele se desenvolvia, fui já pensando em como escreveria algo. E foi chegar em casa que saiu. Sei lá se ficou bom. Mas o maior objetivo foi chamar atenção para este filme pequeno, independente, quase não divulgado pela grande mídia - mais preocupada com as potenciais intenções bélicas de Ridley Scott e seu pretensioso Cruzada. Então, dê uma chance ao amargurado Walter. Leia o texto aqui. E se animar, comente também.

Domingo, Maio 08, 2005


ALGUNS ATRASOS

Desde terça-feira sem atualizar. Que feio. Não teve jeito mesmo, a coisa tá complicada no trabalho. Agora estou relaxando na casa da minha mãe, de folga. Então consegui um tempinho no PC da minha irmã. Em homenagem ao xará Carrard (que elogiou essa forma de falar dos filmes), vou comentar algumas coisas que vi nos últimos dias. Como estou atrasado em atualizações, falo de filmes fundamentais que indesculpavelmente eu ainda não tinha visto (ou seja, estou em atraso com eles também).

O PAGAMENTO FINAL (Carlito¿s way, EUA, 1993. Direção: Brian De Palma) - fiquei absolutamente impressionado com este filme. Sabia ser de grande qualidade, mas não imaginava que fosse parecer uma obra-prima aos meus olhos. Cala a boca de qualquer engraçadinho insistente em dizer que o De Palma é mero plagiador. Do início fenomenal, que já conta o desfecho, até as últimas palavras do protagonista, tudo beira a perfeição. Dos enquadramentos aos cortes. Do roteiro à fotografia. Da direção ao elenco, encabeçado por um Al Pacino iluminado e um Sean Penn ainda mais. Sem falar nas implicações e significados da trama, na discussão sobre a fuga de um destino que insiste em bater na nossa porta.

Carlito só quer ficar longe do crime. Só que o crime vem até ele, não importa para onde vá. Os momentos em que o personagem demonstra claramente a vontade de estar fora dos esquemas armados pelos capangas são sublimes. O olhar de Pacino extravasa essa ânsia de dizer "não". Inexiste aqui aquele papo furado do bandido tentando um último golpe pra se aposentar: o que há é o ex-bandido que só aceita o último golpe por força de circunstâncias e seguindo uma ética pessoal que, para ele, não possui questionamento - é fazer ou fazer, pois ele está em dívida (algo semelhante à filosofia samurai) com o próximo. Algo peculiar no filme é como o amor de Carlito serve de anjinho, tentando dissuadi-lo de suas ações, e o advogado corrupto é o diabinho, insistindo e inserindo-o de volta ao universo da ilegalidade. Filmaraço, de babar. Como não vi antes???


BIRD (EUA, 1988. Direção: Clint Eastwood) - para um assumido fã desse diretor, falha imperdoável (citando certa obra-prima do Clint) nunca ter visto um de seus trabalhos mais elogiados e importantes. Coisas da vida. O que importa é que Bird brilha, exala força, explode numa melodia de pura melancolia e tristeza, dor e frustração. Como em toda a sua trajetória brilhante de cineasta, Eastwood filma fantasmas.

Fantasmas andando pela cidade, sem ter para onde ir, perdidos num mundo só deles, numa autodestruição prejudicial a todos à sua volta. Homens amargurados, que tentam últimas chances numa vida sem perspectivas. O saxofonista Charlie Parker, apesar de toda a genialidade na música, era praticamente um suicida, mergulhado em drogas e alcoolismo desde jovem, consciente de sua situação deplorável mas lutando para fazer a diferença e representar algo de substancial num universo onde ele não quer se integrar da forma correta. Nunca condenamos o Parker de Clint porque essa consciência o faz salvar quem se aventura na mesma flagelação que ele. A música é subterfúgio para se redimir de um nada que ele acredita representar, é o caminho escolhido para não perecer, ainda que morto jovem, aos 34 anos - a cena em que seu corpo está sendo retirado, e alguém comenta que Bird parecia ter "aproximadamente 65 anos", para em seguida a última pessoa a vê-lo vivo frisar que ele tinha apenas 34, é sublime em tudo aquilo que transmite ao espectador. Ainda que não tivéssemos acompanhando a queda de Parker, só por este diálogo teríamos exata noção de sua decadência física e mental, graças a olhares trocados, rápidas palavras de ampla representação e a filmagem triste de um gênio sendo levado embora para sempre. São momentos como esse que fazem do bom cinema arte tão admirável, e de cineastas como Clint gente a ser venerada.

Ajudam ainda mais atores como Forest Whitaker, verdadeira encarnação de Charlie Parker em toda a sua complexidade moral e artística - e longe da interpretação mediúnica tão exageradamente valorizada de trabalhos apenas corretos como o recente Ray. O filme de Eastwood não é apenas a biografia de um revolucionário do jazz. É um tratado sobre caminhos que o ser humano pode ou não seguir.


O PRISIONEIRO DA GRADE DE FERRO (Brasil, 2004. Direção: Paulo Sacramento) - a vergonhosa e viciada distribuição de filmes no Brasil me impediu de ver este documentário no cinema. O jeito é resgatar em DVD. Valeu a demora. Sacramento oferece ao espectador mais do que o registro do cotidiano no hoje extinto presídio do Carandiru, em São Paulo. Vemos ali a visão de presos confinados não apenas por grades, mas pela ineficiência do Estado brasileiro em dar-lhes o mínimo como seres humanos que são.

Sim, há criaturas monstruosas ali, mas nada justifica algumas cenas vistas pelas lentes de Sacramento. Antes de condenar um criminoso ao inferno, o governo deve ter ciência de que um dia ele vai sair e se reagrupar à sociedade. E se ele não foi tratado como gente, ele não vai tratar os outros de maneira diferente. A maior força do filme está na opção de Sacramento entregar câmeras aos próprios detentos, deixando-os livres para filmarem dentro das celas. É um olhar único e inédito de um mundo que, a cada dia, nos parece tão distante e ao mesmo tempo tão próximo.

O questionamento sobre o fato de ter sido Sacramento o verdadeiro artífice da ordem das imagens apresentadas, como montador do filme (o que poderia diminuir a sensação de "real" daquilo captado pelos detentos) é válido, mas fica diminuído ante a simples decisão de dar àquele pessoal a oportunidade de se filmar. Porque por mais que Sacramento monte a obra como quiser, o que está gravado naquelas imagens veio de decisões de quem empunhava a câmera. Da vontade em exibir ratos correndo pelo pátio, de mandar recados à família ou aos Direitos Humanos, de mostrar desenhos, de acompanhar o final e o início de mais um dia atrás das grades. Esses lampejos de sinceridade não se perdem em montagens e decisões de corte.

Outro aspecto que chama atenção é Sacramento valorizar as manifestações artísticas dos condenados. Vemos tatuagens, artesanato, apresentações musicais (incrível como o rap exterioriza as sensações de quem está ali), pinturas e pequenas construções. A importância dessa tentativa de recuperação e o valor que o cineasta dá a esses instantes oferecem uma carga poética a um filme que prima por nos jogar na cara o lado doloroso e muito longe da fantasia e da polêmica gratuita (Babenco?) que o tema poderia suscitar. Paulo Sacramento é ético nas escolhas, moral na filmagem e deixa claro não sua ojeriza ou admiração pelos presos que porventura ele tenha. Nem glorifica essas pessoas, ou mesmo as condena. Acima de tudo, ele respeita quem ele retrata.

Terça-feira, Maio 03, 2005


ROLOS E NOVIDADES

1) pois é, os posts continuam escassos. Tudo porque minha colega de trabalho no jornal saiu de férias e eu estou cuidando sozinho da editoria. Isso mesmo que você entendeu: somos apenas dois. Acredito que até o final da semana eu ganhe um reforço. Até lá, sai de baixo quanto a trabalho, hora extra e falta de tempo. Ai, ai... Pelo menos tenho visto bastantes filmes, o que evita me deixar deprimido. Ontem fui conferir Assalto à 13ª DP e, apesar de ressalvas, gostei do resultado. Nada comparado ao original de John Carpenter, mas dá pro gasto. O que acharam?

2) por outro lado, não poderia ter recebido notícia mais animadora: fui convidado pelo editor do excelente site Digestivo Cultural a ser integrante fixo do quadro de colunistas! O que significa que, quinzenalmente, estarei marcando presença nas páginas deste portal de cultura, editado por Julio Daio Borges há cinco anos. Fiquei muito feliz e animado, principalmente com a liberdade que ele me deu de escrever absolutamente do que quiser - e vou aproveitar o espaço para falar de cinema, algo do que entendo um pouco mais, e literatura, outra paixão. Gostaria MUITO que todos que acessam este humilde blog dessem uma passadinha no Digestivo vez ou outra, e assinem o boletim semanal do site, sempre enviado com as colunas dos últimos dias. É coisa fina. O endereço é www.digestivocultural.com


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