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Quarta-feira, Junho 29, 2005
Posted
1:06 AM
by MARCELO MIRANDA
VOLTANDO (DE NOVO)
Vergonhosamente uma semana sem atualização. Nem vou encher o saco de quem se aventura a acessar o maltratado blog com explicações e mais explicações. Basta ver uns posts abaixo. Não mudou muita coisa. Pra eu ser perdoado, vamos a dois filmes vistos hoje:
ANJO DO MAL
Pick up on south street (EUA - 1953)
Direção: Samuel Fuller
Parece estar havendo, finalmente, um revival da obra de Samuel Fuller. Diretor americano valorizado e respeitado no mundo todo, nunca teve reconhecimento suficiente no Brasil - vale resgistrar que onde mais se lê sobre ele é no blog do amigo Comodoro Carlão Reichenbach, assumido adorador do cineasta. De resto, a obra de Fuller é quase totalmente desconhecida do público brasileiro. Isso pode mudar a partir de duas ótimas notícias: o lançamento da versão dupla de Agonia e glória, um dos últimos filmes dele e também dos mais elogiados; e a chegada no mercado do selo Aurora DVD, que contém no magnífico catálogo vários trabalhos de Fuller, e já lança este mês O beijo amargo. Ai, meu bolso...
Aproveitando essa possível "onda Fuller", assisti a Anjo do mal, numa gravação ordinária do antigo Telecine 5 que um amigo me emprestou. Foi meu primeiro passo na obra do diretor. O primeiro de muitos, com certeza. O filme é fantástico e funciona como uma espécie de "anti-noir": mulher é roubada num trem. Nos seus pertences estava um microfilme contendo informações a serem transmitidas aos comunistas. Obrigada pelo marido, ela precisava encontrar o ladrão e recuperar o microfilme. No encalço do trio estão investigadores da polícia.
Simples e direto, Fuller parece que vai seguir o caminho típico dessas tramas, mas não faz isso. Cria dois eixos nos quais o filme vai se sustentar: a relação do ladrão, vivido por Richard Widmark, com a "vendedora de informações" (a melhor personagem da trama); e a paixão avassalodora que a protagonista sente pelo gatuno. Trabalhando com maestria nesses subtextos, o diretor cria um filme tenso e envolvente, daquelas que a gente quer sempre saber logo a cena seguinte. E a cena seguinte de Fuller é sempre melhor que outra. Ele filma maravilhosamente bem, em planos à altura dos personagens (numa linguagem semelhante à de Howard Hawks) mas dosando bem alguns closes nos momentos de mais impacto. E como faz Clint Eastwood, cria um cinema de ação, no sentido de movimento: os significados dependem do todo, do desfecho, das atitudes e da moral dos personagens. Apenas quando o filme se fecha é que podemos concluir alguma coisa. No fim das contas, trata-se aqui de violência, usada para fins nada justos, mas sempre a única forma de se conseguir atingir os objetivos escusos.
Interessante ainda notar como o comunismo é o grande vilão do filme. Basta que se insinue que alguém seja comunista e há motivo de espanto e repreensão. Faz sentido, numa época em que os defensores dos ideais "vermelhos" eram perseguidos em todos os EUA - incluindo aí cineastas. Talvez Samuel Fuller estivesse fazendo o papel dele de se proteger. Vai saber.
ESCRAVOS DO RANCOR
Abismos de passiòn (México - 1954)
Direção: Luis Buñuel
Trabalho de encomenda do diretor espanhol, é um belo filme, mas certamente não dos seus melhores. O que mais causa impacto e interesse é o fato de Buñuel fazer uma obra desbragadamente romântica, assumidamente melodramática em todos os aspectos - auxiliado pelo texto do livro O morro dos ventos uivantes, claro. Os diálogos são melosos, exagerados, tendo o amor como a peça para a vida ou a morte. Ações extremadas, pensamentos simplistas, personagens passionais. Escravos do rancor deixa um pouco de lado o surrealismo típico do cineasta para mostrar o quanto o amor pode ser egoísta e mortal. Mesmo assim, estão lá algumas cenas que identificam de imediato a atmosfera buñueliana, em especial a última seqüência, no cemitério. Ali o filme cresce mais do que havia sido até então e termina numa explosão de sentimentalismo.
Quarta-feira, Junho 22, 2005
Posted
12:38 PM
by MARCELO MIRANDA
NOTÍCIAS RÁPIDAS
1) fui aceito e me tornei integrante da Liga dos Blogues Cinematográficos, divertida e relevante comunidade criada pelo colega Chico Fireman - entre suas várias "ações" no universo blogueiro, está o Prêmio Alfred, dado aos melhores filmes de cada ano, numa grande eleição com todos os membros.
Fico muito honrado e feliz com a escolha por mim (foi votação, que definiu vários novos membros), mesmo sendo este blog meio maltratado. Vou fazer por onde e valorizar a decisão da turma.
2) coluna nova minha no Digestivo Cultural. Eu ia escrever aqui mesmo sobre o Cineport - Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, que rolou em Cataguases (MG) e onde passei doze dias trabalhando e vendo filmes. Mas como eu pretendia também fazer pro Digestivo, decidi bolar um texto só e divulgá-lo. Então, por favor, leiam e fiquem à vontade pra comentar. Podem acessar direto aqui.
Domingo, Junho 19, 2005
Posted
12:19 AM
by MARCELO MIRANDA
BATMAN BEGINS
EUA - 2005
Direção: Christopher Nolan
Sem muitas palavras: filmaço. Ou filmaraço, como diz o colega Paulo Ricardo. Impressionante como conseguiram fazer um filme do morcegão simplesmente levando-o ao mundo real. Nolan transformou o personagem de quadrinhos em alguém palpável, dando contornos complexos à sua personalidade.
Eu escrevi mais detalhadamente do filme no Cinefilia (leiam aqui). Seguem trecho para incentivar:
Dizer que a única motivação é a morte dos pais seria simplista. Nolan, junto ao roteirista David Goyer, delineia diversas outras visões, fazendo com que Bruce Wayne se mobilize mais pelo medo do que pela dor. Porque é de medo que trata ¿Batman Begins¿. É este sentimento que motiva Bruce, é este sentimento que o mentor Ducard tenta reaproveitar no órfão, é este sentimento que o Dr. Jonathan Crane potencializa para derrubar suas vítimas. E é este sentimento que dá vazão para o surgimento do símbolo que Bruce vai carregar nas noites de Gotham. A diferenciação entre vingança e justiça é outro elemento somado à origem do vigilante mascarado.
Quinta-feira, Junho 16, 2005
Posted
1:20 PM
by MARCELO MIRANDA
CRIMES EM WONDERLAND
Wonderland (EUA, 2003)
Direção: James Cox
A vida do astro pornô John Holmes foi adaptada informalmente no excelente Boogie nights, do Paul Thomas Anderson. Na época eu nem sabia que aquilo era levemente inspirado na realidade - até porque Anderson é um diretor de talento tão grande que pouco importa de onde tirou suas idéias. Agora está nas locadoras outro filme com Holmes como centro da trama, desta vez assumidamente. Este Crimes em Wonderland foca caso específico da vida do cara: o envolvimento dele num massacre ocorrido em Los Angeles em 1981.
O diretor James Cox escolheu o estilo Rashomon de contar a história. Mostra várias versões do crime em diferentes pontos de vista. Lembra um pouco Os suspeitos. O filme é interessante e tem interpretação muito boa do Val Kilmer (parece que ele só funciona quando encarna personagens amalucados), mas cai nos vícios do "cinema independente": câmera tremulante, montagem cheia de firulas, cortes rápidos e mesclados a elementos de cena, tentativas de transmitir pela mis-en-scène a loucura de se consumir drogas. Os recursos utilizados por Cox são tão óbvios e batidos que tiram a atenção do drama do protagonista, o faz cair no vazio, não deixa que o próprio enredo se desenvolva aos nossos olhos. Melhor que estudar a personalidade de Holmes é mostrar aquele movimento maneiro de câmera, deve pensar Cox.
Resultado: potencial perdido num filme forçadamente "alternativo". No fundo, nada há de realmente atrativo. Os acontecimentos verdadeiros são muito mais dignos de atenção do que a forma como são apresentados. A certa altura, o filme fica tão carregado de maneirismos que surge a tentação de avançar algumas cenas para sabermos logo (nem que seja pelos letreiros finais) o que diabos rolou na noite de 1º de julho de 1981. Mérito de James Cox? Não, de jeito nenhum. Aqui, a vida se sobrepõe à (tentativa de) arte.
Terça-feira, Junho 14, 2005
Posted
10:34 AM
by MARCELO MIRANDA
COLUNA NO DIGESTIVO
A correria e as coisas inesperadas dos últimos dias nem me deixaram recomendar minha última coluna publicada no Digestivo Cultural. Saiu na semana passada, mas se mantém no ar. Gostaria que todos lessem, principalmente porque é especial sobre blogs de cinema. Acho que vão gostar. O texto pode ser acessado diretamente aqui. Depois me digam o que acharam - podem comentar lá mesmo, se preferirem.
Domingo, Junho 12, 2005
Posted
11:39 PM
by MARCELO MIRANDA
NOTÍCIAS DE UM DESAVENTURADO CINÉFILO
E foi para as cucuias minha intenção de fazer um diário do 1º Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, que rolou nos últimos doze dias em Cataguases, terra de Humberto Mauro aqui em Minas Gerais. Fui ao evento como repórter do PANORAMA, estive lá o tempo todo e vi muita coisa. Trabalhei à beça e poderia ter escrito aqui também, não fosse a porcaria dos computadores da sala de imprensa não acessarem NENHUMA página do Blogger desde a semana passada. Nunca vi isso acontecer, se alguém souber me diga. Ficava apenas buscando e buscando e depois dava mensagem de erro. Até consegui nos primeiros dias, depois pifou de vez.
Pretendo fazer um resumão do festival, com certeza. Não vou falar detalhes agora por um motivo justo: a irmã mais velha da minha mãe acaba de falecer, vítima de um câncer na garganta. Mal cheguei de viagem, nem tive tempo de celebrar o Dia dos Namorados e recebo essa péssima notícia. Embarco para o Rio de Janeiro amanhã (a família da minha mãe é do interior de Minas, mas três irmãs dela moram no Rio). Vou e volto no mesmo dia. Na terça, se estiver melhor, escrevo do festival. Força a todos nós.
Sábado, Junho 04, 2005
Posted
3:06 PM
by MARCELO MIRANDA
CINEPORT - PARTE 1
Ufa! Nunca imaginei que cobrir um festival de cinema desde o início fosse tão corrido. E olha que o Cineport - Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, que tá rolando em Cataguases (MG), mal começou. Será que sobrevivo até o dia 12?
Poucos filmes, até agora. Estou na cidade desde quarta-feira, mas a progamação só esquenta amanhã. Enquanto isso, conferi os únicos três filmes mais relevantes inéditos exibido. O brasileiro Garrincha - Estrela solitária não me agradou quase nada. Nem tanto pela aparente falta de talento do diretor Milton Alencar, mas pelo protagonista André Gonçalves, sofrível no papel do jogador do Botafogo. Há momentos de puro constrangimento, principalmente nas cenas dramáticas. Nas de sexo, André parece aproveitar chupando aquele monte de seio, uma beleza. Nós, no público, ficamos com inveja e não conseguimos enxergar o Garrincha. Cenas de futebol? Poucas, dividas em duas vertentes: imagens de arquivo do verdadeiro jogador, essas de tirar o chapéu e de babar mesmo; e umas recriações tendo o André e que dão vontade de chorar de desgosto. A pior cena, na verdade, nem é especificamente dele: é quando uns agentes da ditadura invadem a casa do ponta direita. Os personagens são tão caricatos e fora de tom que detonam a cena (com direito a tiros em cachorros e esmagamento de passarinhos com as mãos, pra mostrar como eles são maldosos. Lamentável). Enfim, quase uma bomba total.
Na quinta rolou a co-produção Brasil e Portugal Tudo isto é fado. Simpático, mas nada demais. Mistura filme de assalto com triângulo amoroso e tem de melhor a interação do elenco, todos muito bons. Agora não cobrem roteiro, lances de direção nem nada disso. O filme é mais ou menos.
E ontem conferi o melhor até agora. ¿Nha fala¿, da Guiné-Bissau e dirigido pelo Flora Gomes. Excelente, um musical de encher os olhos que me surpreendeu em todos os aspectos. Rico em imagens, símbolos, sacadas de câmera e com atores excepcionais, é dos melhores que vi este ano. Vou escrever em detalhes dele ainda, pode aguardar.
Por enquanto, é isso, somado ao corre-corre do cinema para a sala de imprensa e rápidas participações na TV (estou pelo jornal, mas a empresa onde trabalho também tem canal de televisão, é afiliada da Globo, então dou um apoio com comentários dos filmes. É, meio José Wilker mesmo...). Volto em breve!
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