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Quinta-feira, Julho 28, 2005
Posted
1:52 AM
by MARCELO MIRANDA
SOL VERMELHO
Red sun (EUA - 1971)
Direção: Terence Young
Pense numa mistura de Sergio Leone com Akira Kurosawa. Guardadas as proporções, é o que significa esta grata surpresa, que encontrei numa locadora aqui perto, peguei e adorei. Por que ninguém havia pensado nessa mistura de faroeste e filme de samurai antes?! O cara que teve a idéia merecia um prêmio!
Afinal, nada mais interessante e peculiar que juntar duas figuras icônicas de dois universos cinematográficos tão distintos - o pistoleiro sem escrúpulos, a fim de muita grana; e o samurai dotado de ética própria, em busca de honra. Neste filme, a semelhança entre ambos é a vontade de se vingar da mesma pessoa. Mas o enredo, no fim das contas, serve de desculpa para juntar Charles Bronson e Toshiro Mifune (!) na caça ao trapaceiro vivido por Alain Delon (!!). No caminho, contam a traiçoeira ajuda da estonteante Ursula Andress (!!!). Está bom ou quer mais? Bem, no meio aparecem uns índios comanches pra infernizar...
A interação entre Mifune e Bronson é genial. Não bastasse os dois serem atores de grande presença e carisma, o roteiro ajuda nos diálogos impagáveis, que, mesmo através do bom humor, deixam claro o tipo de pensamento de cada um. Certa cena em particular explicita a filosofia desses dois: um homem está sendo torturado pelos bandidos. Mifune e Bronson vêem ao longe. "O que acontece?", pergunta o primeiro. "Ele está apanhando porque não quer revelar o paradeiro de fulano de tal", responde o segundo. "Que homem corajoso", diz Mifune. "Que homem tolo", retruca Bronson.
É assim quase o tempo todo. Um fala, o outro vem com visão totalmente díspare. É claro que, por Sol vermelho se passar no Oeste americano, o pistoleiro soa mais cool e deslocado que o samurai, este aparentemente esquisito com seu comportamento e seus olhares de soslaio - beira a folclorização, mas não chega a tanto, até porque o diretor demonstra respeito ao personagem, principalmente no final, quando parece fazer com que o americano aprenda algumas lições com o japonês.
Aliás, Terence Young, que nunca se mostrou grande diretor apesar de se envolver em projetos de prestígio (são dele alguns dos primeiros filmes com o agente 007), segura bem a ação, misturando esse caldeirão de referências com razoável sucesso e tendo boa noção de corte e montagem nas seqüências mais movimentadas - incluindo quando o samurai usa sua espada contra os inimigos. Sol vermelho é obrigatório, no mínimo para se conhecer um dos encontros mais inusitados e bem resolvidos do cinema. Ver Bronson de um lado, segurando revólveres, todo sujo e de chapéu, e Mifune do outro, paramentado com roupas de samurai, manejando espadas e adagas e até cavalgando, é uma visão para não esquecer nunca. O encontro do mais tradicional de dois mundos. Quem tiver curiosidade, o filme foi lançado em DVD no Brasil pela Continental.
Quarta-feira, Julho 27, 2005
Posted
2:12 AM
by MARCELO MIRANDA
INVASÃO JAPONESA NO TELECINE
É demais pra mim. Não bastasse agosto ser o mês do meu aniversário, eu estar de férias pela primeira vez em anos, poder comprar Quando explode a vingança em DVD e até o seriado do Chaves também digital (sim, sou fã!), agora meu amigo Ronaldo Gazolla me fala que o Telecine vai abrir o armário e despejar na programação do mês um acervo de filmes japoneses de literalmente cair duro em cima da espada de samurai! (EPA)
Sim, meus amigos, preparem o coração e as fitas de vídeo. Olhando por alto, tem filme do Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Takeshi Kitano, Masaki Kobayashi, Akira Kurosawa. Não é brincadeira: está no site!!!
Não deu pra achar todos, mas consegui confirmar alguns. Vou deixar a delícia da busca com vocês, mas consegui "rastrear":
- Ozu: Dias de juventude, Filho único, Meninos de Tóquio, Também fomos felizes
- Kobayashi: Harakiri, Vinte e quatro olhos
- Mizoguchi: A perdição de Osen, A vitória das mulheres
- Kitano: Adrenalina máxima, Verão feliz
- Kurosawa: O idiota
Eu não tenho Telecine, mas darei um jeito de gravar muita coisa aí. Quem quiser dar uma olhada e procurar mais (e avisar, por favor!), pode acessar direto aqui. E viva o Telecine! Clap-clap-clap.
Domingo, Julho 24, 2005
Posted
2:55 AM
by MARCELO MIRANDA
OS MELHORES E PIORES DO SEMESTRE
Com certo atraso, chamo a todos os leitores e amigos deste blog que conheçam os melhores filmes lançados no Brasil entre janeiro e julho deste ano, segundo os votantes da Liga dos Blogues Cinematográficos. O grupo, coordenado pelo colega Chico Fireman, faz enquetes entre os membros periodicamente - incluindo aí o já tradicional Prêmio Alfred, simbolicamente oferecido aos melhores do ano. Essa do semestre foi a primeira "convocação" na qual participei, já que sou, com orgulho, um dos novatos na turma.
Fiquemos, então, com o saldo dos primeiros seis meses de 2005. Não vou postar aqui a lista, vale mais a pena ir direto ao site da Liga e conhecer os filmes, diretores e comentários dos melhores e piores. É só clicarem aqui.
Quinta-feira, Julho 21, 2005
Posted
11:42 PM
by MARCELO MIRANDA
A CASA DE CERA
The house of wax (EUA - 2005)
Direção: Jaume Collet-Serra
Há um estranho fascínio neste filme. Sim, é mais uma refilmagem de filme antigo, é cheio de clichês e coisas sem sentido até para o gênero, mas alguma coisa salta de interesse ao ser assistido. Certamente são, no mínimo, dois fatores: a relação familiar (e ambígua) existente entre dois irmãos no enredo e a curiosidade em saber como pode, afinal, um filme de terror ter como centro narrativo uma casa e pessoas (quase) totalmente feitas de cera. São estes detalhes que salvam o pouco de dignidade existe na produção - outros talvez sejam algumas cenas de terror puro e simples, sem muita "pena" do público ao mostrar cabeças rolando, pedaços de pele se desfazendo e dedos sendo explicitamente cortados.
A seqüência final, na casa propriamente dita, é um primor visual. Finalmente um exemplar desse cinema de encomenda, desse cinema pasteurizado da indústria, conseguiu bolar algo realmente impressionante e chocante - no sentido de nos dar a nítida sensação de perigo, além das típicas e bestas perseguições assassino-mocinha peituda. Desde o momento em que somos apresentados à casa, ficamos curiosos em entrar novamente nela, conhecer seus segredos, enxergar suas entranhas. Mérito do diretor Jaume Collet-Serra, que dosa muito bem cada instante no lugar e o vai mostrando lentamente, até o estouro final, em que acompanhamos menos a tentativa dos protagonistas em escaparem vivos e mais o espetáculo incrível da casa se desfazendo aos poucos.
Pena que A casa de cera acabe se rendendo a concessões idiotas e deixando de ir além do óbvio no roteiro. Não dá para engolir certos acontecimentos, por mais que, nesse tipo de filme, isso importe pouco. É quase como chamar o espectador de burro (sabemos que alguns são mesmo, mas não todos...): um cemitério de animais no meio da mata. Para quê? Susto na platéia! Uma figura sinistra andando de camionete dá carona aos mocinhos. Para quê? Tensão na platéia. A mocinha fica dentro da casa mistérios depois avistar alguma coisa lá fora, enquanto o namorado sai buscando o que acontece. Para quê? Pânico na platéia. A mocinha espera o namorada ir ao banheiro na residência de um qualquer em meio à cidade vazia. Para quê? Apreensão na platéia.
Sem falar nas cenas de semi-nudez da substanciosamente gostosa Elisha Cuthbert (em 24 horas dava para sacar seus atributos, até em Um show de vizinha, mas suas formas aqui são um deleite de babar) e de Paris Hilton (que até fica apagada perto das curvas e seios de Elisha). Não que eu ache ruim ver essas beldades quase sem roupa, mas convenhamos que nenhum dos momentos "mágicos" se encaixa muito bem na engrenagem total. E o tal motorista da estrada? O último diálogo do filme lhe dá uma motivação de existir em cena das piores já inventadas - e indo contra toda a idéia dos tais irmãos anteriormente mostrada.
Até começar a matança e o filme realmente engrenar em alguma coisa que interesse de verdade, custa. Até que o desenvolvimento vai indo muito bem, o que mostra talento de Collet-Serra, mas resvala nesse incômodo jogo gratuito e fortuito de fato-susto. Diferente, por exemplo, do superior O massacre da serra elétrica (versão recente), que se também se entregava a concessões, também lidava com elas de forma menos óbvia e mais surpreendente. Por outro lado, O massacre... não tem uma casa de cera se derretendo no clímax, momento dos mais assombrosos e interessantes do cinema recente americano.
Segunda-feira, Julho 18, 2005
Posted
3:03 PM
by MARCELO MIRANDA
PERFIS: A VOLTA
Depois de um tempo afastados, retorno com os perfis de cineastas que produzo toda semana para o jornal PANORAMA. Deixei de publicá-los aqui por um motivo idiota: eu faço os textos lá na redação, então sempre esqueço de enviá-los aqui pra casa. Aí vou enrolando e enrolando. Mas agora serei mais atento. E para compensar a falta, recomeço em grande estilo, com o mestre dos mestres.
O MEDO ACIMA DE TUDO
Alfred Hitchcock fez de seu cinema veículo para a remissão de pecados e o questionamento ético e moral, através de uma obra de suspense que não se prende ao simples gênero
Quando ainda era garoto, na Inglaterra, Alfred Hitchcock foi levado pelo pai a uma delegacia e trancado, sozinho e no escuro, numa cela durante toda a noite. Ele nunca entendeu o motivo, mas a experiência o marcou pela vida inteira e moldou o que o pequeno Hitchcock se tornaria no futuro: o diretor mais identificado com o gênero do suspense, o maior criador de tensão que o cinema já concebeu. Na última sexta-feira, completaram-se 25 anos de sua morte, ocorrida em 29 de abril de 1980.
Ao longo de 53 filmes, Hitchcock não trabalhou apenas com o suspense. Transitou pela comédia de costumes, pelo drama e pela psicologia. O que permeia cada um de seus trabalhos é mais do que um único gênero: é uma questão moral. O diretor, assumidamente e acima de tudo um grande contador de histórias, criou enredos em que inseria seus personagens em situações que exigiam decisões éticas. E foi católico ao extremo: para cada pecado, os personagens recebiam a punição.
A prova disso está resumida na cena mais famosa de toda a extensa filmografia do cineasta: o assassinato no chuveiro "Psicose" (1960). Marion rouba o dinheiro do patrão e foge em busca do namorado. Pára num motel de beira de estrada e é retalhada a facadas enquanto se banha. Mais do que uma cena precursora para a montagem cinematográfica (com suas dezenas de cortes e planos num único ambiente), aqueles segundos expõem o "castigo" que os pecadores sofrem na Terra. Para alguém tão religioso quanto Hitchcock, o discurso soa coerente.
Não é à toa que grande parte dos protagonistas do diretor são homens acusados de crimes que não cometeram. É uma forma de expurgar o mal que tais protagonistas realizaram na Terra, obrigando-os a sofrer as maiores penitências em busca da justiça.
E será assim em toda a obra do mestre. Primeiro na Inglaterra, nos anos 20 e 30, Hitchcock faz filmes marcantes, tanto mudos ("O inquilino sinistro") quanto falados ("Os 39 degraus", "Chantagem e confissão", "Assassinato", "A dama oculta"). Mas é nos EUA, para onde se muda no final da década de 30 a convite do superprodutor David O. Selznick (responsável por "...E o vento levou"), que o diretor entrega suas grandes obras-primas.
A começar pela estréia na América, com "Rebecca" (1940): de cara, ganha o Oscar de melhor filme - mas ele jamais ganharia o prêmio de direção. Depois de alguns trabalhos que foram burilando seu estilo e linguagem, como "Correspondente estrangeiro"
(40) e "Sabotador" (42), Hitchcock faz uma série de filmes invejável, que ajudou a torná-lo dos maiores - senão o maior - cineasta da história. São desta fase seus trabalhos mais conhecidos e populares, com atores que pontuavam vez ou outra cada um dos
projetos. É James Stewart em "Festim diabólico" (48), "Janela indiscreta" (54), "O homem que sabia demais" (56) e "Um corpo que cai" (58), sendo estes três últimos incluindo a presença das famosas loiras geladas do diretor - Grace Kelly, Doris Day e Kim Novak, respectivamente. É também Cary Grant em "Ladrão de casaca" (55), "Interlúdio" (46) e "Intriga internacional" (59). São outras loiras como Tippi Hedren ("Os pássaros" - 63) e, claro, Janet Leigh, a morta no chuveiro.
Com "Psicose", Hitchcock teve seu maior retorno de público. Delineou Norman Bates, uma das personalidades mais intrigantes do cinema, vivido pelo ator Anthony Perkins, perfeito em sua aparência de fragilidade e inocência - mas sempre atento ao que acontece no motel e na casa da mãe. A criação do medo em Hitchcock estava nos pequenos detalhes. Em chaves, garrafas, jornais, baús, animais aparentemente dóceis. O inglês conseguia moldar a tensão em cima de situações corriqueiras, numa realidade às vezes não muito verossímil, mas próxima do real. Deixou a desejar nos últimos trabalhos ("Topázio" - 69 e "Trama macabra" - 76). Só que Hitchcock já está livre do pecado: assinou um patrimônio de cinema perpetuado e reverenciado ainda hoje.
Sexta-feira, Julho 15, 2005
Posted
11:16 AM
by MARCELO MIRANDA
DICAS E NOTAS
1) recebi a informação de que a versão do fabuloso Quando explode a vingança que será lançada em DVD no Brasil no mês que vem (detalhes em alguns posts abaixo) não é a dupla que chegou ao mercado europeu, mas uma simples com coméntários e trailer. Essa Fox é maluca. Custa a disponibilizar o filme e, quando o faz, não aproveita todo o potencial. Deveriam se espalhar no grande sucesso que fez o duplo de Três homens em conflito, do mesmo Leone. Só não reclamo mais porque já é digno de respeito o filme ser disponibilizado. Mas que poderiam ter caprichado, poderiam...
2) escrevi na minha coluna da semana passada no Digestivo Cultural sobre o seriado 24 horas, exibido pela Fox. Está em sua quarta temporada no Brasil e já teve as três anteriores lançadas em DVD. Eu escrevi sobre do que, afinal, a série trata e de que forma ela se insere na atual conjuntura global dos EUA. Quem se interessar em ler, clique aqui. Fique à vontade para comentar, aqui ou lá.
3) alguém teria ou saberia me dizer onde encontrar Sela de prata, faroeste do Lucio Fulci que marcou o fim das produções do gênero na Itália? Quem tiver notícia por favor me deixe um comentário e a gente se fala.
Terça-feira, Julho 12, 2005
Posted
1:11 PM
by MARCELO MIRANDA
OS QUATRO DO APOCALIPSE
I quattro dell'apocalisse (Itália - 1975)
Direção: Lucio Fulci
O mestre do horror gore italiano dirigindo um faroeste é algo inusitado. Tinha comprado esse filme há tempos e só agora peguei para vê-lo. Muito interessante, bem diferente do que eu imaginava - o que é quase sempre bom. Narra as desventuras de quatro infelizes no meio do Oeste de 1873: um jogador de cartas trapaceiro, uma prostituta grávida, um maluco que diz conversar com mortos e um bêbado que faz qualquer coisa pela bebida.
Deve ser dos grupos mais estranhos já abordados em filmes do gênero. Não há heróis na produção, todos têm passado sujo e misterioso. Existe um arremedo de vilão, um pistoleiro sanguinário que surge do nada, mas até ele é desenhado de forma a não ser apenas antagonista. Acompanhamos o caminhar dos quatro personagens enfrentando situações sempre mais difíceis, encontrando a morte e a maldade de tempos em que a sobrevivência estava acima de qualquer outra coisa. Não há humor, não há moralismos, não há deboche. Pelo contrário: é melancólico, triste até, uma espécie de funeral dedicado a almas perdidas.
A seqüência que mais gostei foi a do nascimento do bebê. Numa cidade em que a morte reina, os poucos moradores que restam, a princípio, celebram a chegada de uma mulher, para em seguida comemorarem a chegada da nova vida, da esperança, de um facho de luz. Há até mesmo algo bíblico aqui, como se estivessem a testemunhar a gênese de um salvador dos maus tempos. É emocionante o momento em que todos atiram para o alto e, mais ainda, o respeito que demonstram pelo "pequeno diabinho" que nasce - a expressão, usada por um dos homens, é o contraponto perfeito ao signifcado daquela criança.
Os quatro do apocalipse não é um faroeste comum. Soa positivamente estranho, é violento (com cenas brutais de morte e até a insinuação de canibalismo) e cheio de momentos brilhantes. Foi dos últimos western spaghetti, e já se sente a reta final desse linhagem. Vi ainda pouquíssima coisa do Fulci (menos do que gostaria, na verdade), mas acho difícil outro filme dele com tanta carga de sentimentalismo e de pessimismo com a realidade, ao mesmo tempo que demonstra otimista com o futuro.
Domingo, Julho 10, 2005
Posted
4:34 AM
by MARCELO MIRANDA
QUARTETO FANTÁSTICO
Fantastic Four (EUA - 2005)
Direção: Tim Story
Até heresia falar de uma atrocidade como esta depois de comentar Eastwood e Leone. Mas o cinema nos proporciona esse tipo de coisa, então ao trabalho: Quarteto Fantástico, nova adaptação de quadrinhos da Marvel, beira o fiasco. Não chega a tanto (como foi com Elektra e Mulher-Gato recentemente) por conta de alguns pequenos instantes legais, como os dilemas do Coisa, a maravilha que é a Jessica Alba e o rápido comentário sobre a cultura da celebridade no mundo. De resto, tremenda porcaria: efeitos, roteiro, direção, elenco, tudo um caos. Escrevi com detalhes do filme no Cinefilia. Dêem uma lida aqui. E se tiverem oportunidade, dêem preferência à versão maldita do filme, produzida em 1994 e jamais lançada - mas que possui cópias clandestinas rolando por aí. É tosco, mas é de coração. Já esta nova versão...
Sexta-feira, Julho 08, 2005
Posted
1:26 AM
by MARCELO MIRANDA
INTERLÚDIO DE AMOR
Breezy (EUA - 1973)
Direção: Clint Eastwood
E depois de louvar o grande mestre Leone aí embaixo, lá venho eu falar de mais um, curiosamente cria deste italiano: Clint Eastwood, ator dos bons e diretor dos maiores! Cito-o para comentar Interlúdio de amor, dos poucos filmes dele que ainda não tinha visto e dos únicos não disponíveis no mercado de vídeo brasileiro. O que é uma pena, por ser um drama romântico sensível e autenticamente apaixonado, daqueles que nos envolvem sem grandes enredos ou mesmo surpresas. Simplesmente porque aborda gente comum, pessoas como eu e você, às voltas com sentimentos difíceis de definir e enfrentar.
A história é sobre Breezy (a lindinha Kay Lenz, que trabalhou com George Lucas em Loucuras de verão), menina errante pelas estradas americanas que por acaso "rouba" uma carona de Frank (William Holden, fantástico), homem turrão, experiente e solitário. A relação dos dois vai se desenvolvendo, misturando repugnância, solidariedade, piedade, tesão, paixão e, por fim, amor - não antes de atravessar dúvidas, preconceitos, conflitos. É um filme muito simples, pequeno na sua trama mas grandioso nas relações que apresenta na tela. Não é dos mais intensos de Clint, pelo contrário. A delicadeza é o maior trunfo deste trabalho, através de gestos e olhares que dizem mais que as palavras.
De um lado, a garota meio hippie, quase adolescente, sem rumo, assumidamente "vagabunda"; de outro, o senhor divorciado, trabalhador, bem de vida, que não abre mão de seu humor ranzinza nem de seu direito a não ter ninguém na convivência íntima. Duas pessoas absolutamente diferentes, que vão ter um no outro a chave para a felicidade, o norte a seguir, a felicidade que eles não sabiam poder existir. Uma delícia esse Interlúdio de amor. Sem firulas, com leves toques de ironia, nos leva a pequenos instantes de puro prazer humano, no sentido de entendermos, sem muita explicação, o que acontece.
Foi o terceiro trabalho de direção de Clint (depois da estréia com o suspense Perversa paixão, seguido pelo brilhante faroeste O estranho sem nome) e o primeiro trabalho de sua autoria em que ele não atua, apenas dirige. Tomara que alguma distribuidora tenha a dignidade de aparecer com esse filme, porque os cinéfilos perdem muito em não conhecê-lo. Apesar de não considerar como um dos filmes fundamentais na genial trajetória de Eastwood, aqui sentem-se o desenrolar de sua mão autoral, idéias que seriam cada vez mais retrabalhadas ao longo dos anos em obras cada vez melhores e mais complexas. Sempre enriquecedor conhecer a semente de uma árvore tão frondosa.
Segunda-feira, Julho 04, 2005
Posted
1:08 AM
by MARCELO MIRANDA
GRANDE LANÇAMENTO E JUSTIÇA A LEONE
A melhor e mais surpreendente notícia do ano, em se tratando de DVDs, eu recebi esta semana, via comunidade no Orkut: o filme "maldito" do mestre italiano Sergio Leone vai ser lançado em formato digital e versão original! Sim, a obra-prima renegada Quando explode a vingança sai em agosto pela Fox - eu, pelo menos, só acreditei quando vi pré-venda aqui. Espero (mais sedento) que seja em edição dupla, como foi nos EUA.
Juro que não acreditava que este filme seria lançado em DVD por aqui. Mesmo com todos os Leone aparecendo no mercado (inclusive seu primeiro longa, O colosso de Rodes), minhas esperanças neste seu último faroeste eram pífias. Até então, a única versão possível de encontrar no Brasil era um VHS velho, da Opção Produções Cine e Vídeo, com versão 20 minutos menor que a original e dublado em português (!!!). Raridade da boa, que aliás consegui comprar num sebo depois de ficar secando a fita numa locadora por meses (adendo: a tal locadora fechou e vendeu todo o acervo para o tal sebo, onde certo dia me deparei quase magicamente com a fita, enfiada no meio de tantas outras empoeiradas. Nessas horas volto a me lembrar da lição do bom colega Marcelo Carrard, do Mondo Paura: os filmes sempre acabam chegando até nós).
Para quem não sabe ou não viu, Quando explode a vingança foi lançado em 1971, após a bem sucedida "trilogia dos dólares" de Leone. Tentando fazer outro tipo de cinema, ele passou a lidar com temas mais profundos que a simples busca por dinheiro. Começou com Era uma vez no Oeste, que não foi tão bom de bilheteria quanto os trabalhos anteriores. E depois veio Quando explode a vingança, que tapou o caixão: o fracasso retumbante de público. Deu prejuízo aos produtores e levou Leone à depressão e a um ostracismo de doze anos sem dirigir (apenas produziu nesse tempo). Voltou com carga máxima no projeto de sua vida, Era uma vez na América, e morreu em seguida.
Fácil entender tamanho fracasso. Os espectadores ficaram mal acostumados com as fitas baratas do diretor feitas nos anos 60 e protagonizadas por Clint Eastwood. Quando ele decidiu ser mais politizado e reflexivo, desabou em descrédito. Poucos reconheceram a força e o impacto de Quando explode a vingança, levando o filme ao quase total desconhecimento. Pecado mortal, que pode (e vai) ser revertido com esse histórico lançamento em DVD - e o filme chega às lojas uma semana antes do meu aniversário. Quer presente melhor?
Agora todos os filmes do Leone estão em DVD, alguns em edição caprichada (Três homens em conflito e Era uma vez na América são duplos), outros nem tanto (Por um punhado de dólares está em disco sofrível, Por uns dólares a mais está num apenas razoável e O colosso de Rodes engana bem).
Para quem quiser saber mais sobre Quando explode a vingança e Sergio Leone (um dos poucos diretores que realmente idolatro), segue lista com dicas de leitura:
- eu mesmo escrevi um comentário do filme aqui no blog
- sobre Leone, há um perfil bem legal que foi publicado na Revista de Cinema, escrito pelo Marcelo Lyra
- Ruy Gardnier escreveu um tratado positivo sobre a produção, na Contracampo, quando o filme foi exibido no Festival do Rio, em 2004. Belíssimo texto.
Sábado, Julho 02, 2005
Posted
10:06 PM
by MARCELO MIRANDA
ÁGUA NEGRA (Dark water)
Honogurai mizu no soko kara - Japão, 2002
Direção: Hideo Nakata
Pois é, decidiram traduzir a refilmagem deste terror para o título ao pé da letra. E ficou muito bom, então já começo usando o nome em português. Água negra é mais um terror de sucesso no Japão que vai ganhar versão made in USA. Só que com gostinho brasileiro: o diretor é Walter Salles, no seu primeiro trabalho de encomenda e fora do país. Vamos ver como ele se sai, principalmente por ser um gênero inédito na carreira dele e por ter como protagonista a lindíssima e talentosíssima Jennifer Connelly [suspiros...].
Mas vamos falar da versão japonesa, a original. Particularmente eu vi elementos no filme que me fizeram gostar mais dele do que do badalado Ringu. Os ambientes fechados, a relação maternal, o terror ainda mais sugerido que explícito... A história mostra mãe e filha se mudando para um prédio - lugar velho, sinistro, com cara de abandonado (não é á toa que, de moradores, só vemos as duas mesmo). Logo coisas estranhas começam a acontecer, sempre relacionadas a água e aparentemente ligadas a antiga moradora desaparecida.
Nakata não investe tanto no terror quanto em outros trabalho seus. Aqui, talvez importe mais o relacionamento da dupla protagonista. Tudo acontece devagar, o desenvolvimento é crescente mas jamais acelerado, os olhares e gestos importam além do suspense (algo me lembrou Kiyoshi Kurosawa, que segue essa linha). É como se os acontecimentos ali servissem para aproximar (ou afastar) duas pessoas passando por difícil momento de vida, tentando superar adversidades - uma, já madura mas questionando seu próprio papel de adulta; a outra, ingênua, porém decidida sobre a importância da mãe. Ambas terão um momento decisivo, e a escolha, por mais dolorosa que seja, deverá ser feita para que, de alguma forma, tudo termine bem.
Obviamente que o interesse maior no filme acaba sendo o terror mesmo. Quem não se importar com as sutilezas da direção e do roteiro vai ter muito o que aproveitar com algumas cenas realmente assustadoras (em especial, quando a mãe está no terraço ou quando entra no misterioso apartamento de cima). Sem falar em pequenos detalhes que causam tensão, como a bolsa vermelha e as gotículas de água que insistem em cair do teto. Vale destacar a interpretação maravilhosa das duas atrizes, mais ainda da pequena Rio Kanno (num tempo em que crianças sempre parecem encarnar adultos, ver alguma delas sendo apenas criança e com tamanho talento é animador).
Já estava curioso para ver a visão de Salles para este filme. Agora, fiquei ainda mais. Só que o trailer tem algo de incômodo: extremamente "videoclíptico", poucos diálogos e alguns efeitos visuais que podem ameaçar o tom intimista do original. Só vendo, ainda mais por ser filme de produtor. Mas não quais os riscos.
PS: entendi finalmente porque alguns colegas diziam que o Hideo Nakata tinha passado a perna no Walter Salles quando dirigiu O chamado 2. É porque há momentos neste que remetem de imediato ao Água negra, do próprio Nakata, como se ele tivesse ficado fulo por não ter comandado o remake e decidido se vingar inserindo em outro filme ao qual ficou responsável trechos semelhantes. Quem não souber disso ou mesmo nunca ter ouvido falar no original vai pensar que o filme de Salles chupou elementos de O chamado 2. Irônico.
RABBITS
EUA - 2002
Direção: David Lynch
Alguém sabe me dizer o que David Lynch aprontou? Se no cinema, pago por produtores sedentos por grana, o diretor não faz concessões e entrega filmes bizarros e fora do padrão, imagine num trabalho experimental e totalmente autoral, feito especialmente para seu site pessoal? É assim com esta série de curtas retratando três coelhos (!) às voltas com algum invasor e com medo da chuva que nunca pára. Diálogos sem nexo, aplausos e risadas de uma platéia indefinida e trilha sonora incrivelmente climática, é das produções de Lynch que mais se aproximam do tom de pesadelo característico de seu cinema - como já escrevi em artigo recente e publiquei aqui.
Impressionante que, em 40 minutos sem sentido aparente e câmera parada (com exceção de um único corte), fiquemos tão grudados e atentos, esperando a próxima surpresa que certamente vai surgir. É, no fundo, pequeno conto sobre medo e desespero. Se analisado mais a fundo, chega-se a um breve comentário sobre a própria miséria humana. Até algum tempo atrás eu achava Lynch apenas um maluco. Revendo ou vendo todos os seus filmes (sim, já consegui ver todos, até os curtas de início de carreira), percebi o quanto ele é genial e necessário para o cinema americano. Volte à tela grande, Mr. Lynch!
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