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Sábado, Agosto 27, 2005
Posted
12:42 AM
by MARCELO MIRANDA
PAUSA NA VIAGEM E FILMES
Pois é, ainda em Belo Horizonte e com pouco (quase nenhum) acesso à net. Correndo aqui no PC da minha cunhada, dou notícias aos leitores bacanas que costumam entrar aqui (pelas estatísticas de acesso, são vários; pelos comentários, praticamente ninguém!). Um dos motivos que me fez aparecer na capital mineira foi pra ver alguns filmes da Indie - Mostra de Cinema Mundial, festival de filmes independentes que rola aqui todo ano. A programação de 2005 está espetacular, com nada menos que 11 mostras paralelas - como a Mundial, Indie Brasil, Planeta Índia, A África se Filma, Música do Underground e retrospectivas de Bergman, Rohmer e Kieslowski.. Total: 125 filmes de 32 países em 244 sessões durante uma semana. E tem muita coisa boa, que pode ser conferida aqui.
Como estou meio de favor, não tenho tanto trânsito pela cidade, então os filmes estão meio raros (no ano passado vi 17 filmes em quatro dias). A mostra começou ontem, e só hoje pude comparecer, assistindo a dois. Totalmente diferentes, aliás. São os seguintes:
IRMÃOS
Son frère (França - 2003)
Direção: Patrice Chéreau

Este anda rodando os circuitos de arte brasileiros, mas continuava inédito em Minas Gerais. É o drama de dois irmãos às voltas com a doença falat de um deles. O filme ganhou o Urso de Ouro de melhor direção em Berlim e anda sendo elogiadíssimo. Realmente, um filme denso, triste à beça, que foca atenção na relação familiar ressuscitada pela presença da morte. Mas alguma coisa me soou estranha - e acredito que seja a pretensão de Chéreau em ser "arte" demais. O filme tem tudo que uma obra que leva essa alcunha "deve" ter: planos longos, poucos diálogos, narrativa lenta, nudez, alguma polêmica. Só que não parece haver alma no meio disso tudo, soa artificial e forçado demais para parecer poderoso e contundente. Há cenas de impacto verdadeiro (em especial a depilação do protagonista numa cama de hospital) e uma atuação brilhante da dupla principal. Só que o desenvolvimento, somado ao desfecho estranhamente imediato e simplista demais, não encaixa. Ou estarei falando muita besteira?
DEAR WENDY
Dinamarca / França / Alemanha / Inglaterra - 2005
Direção: Thomas Vinterberg
Nova produção de um dos inventores do movimento Dogma 95 (com Festa de família) e do mal visto Dogma do amor. Aqui ele faz parceria com outro "dogmático", Lars von Trier, autor do roteiro, para falar sobre a violência na sociedade americana. De uma forma realmente diferente, a dupla fala sobre deliqüência juvenil: um rapaz solitário e melancólico encontra motivo para se alegrar quando torna-se proprietário de um revólver. Junto a outros amigos, funda o grupo Dândis, com uma filosofia totalmente paradoxal - eles pregam a paz e o não-uso de armas de fogo enquanto utilizam armamento pesado de tiro para relaxarem e passarem o tempo, seguindo regras estritas de utilização. Chegam a dar nome aos objetos e venerarem a capacidade e a qualidade de cada um. Só que, obviamente, isso não dá muito certo, ainda mais num universo tão neurótico e potencialmente explosivo como o dos EUA.
Dá pra sentir que o autor da história é o mesmo que fez Dogville. A acidez com que Von Trier trata os jovens americanos e sua devoção às armas, usando o argumento cínico de só quererem se divertir sem machucar ninguém, encontra ecos na forma como a violência é enxergada naquelas bandas. O medo impera, a polícia age quando é provocada e, no final das contas, armas de fogo estão fadadas a causar problemas. Vintenberg parece ter se entregado de vez ao estilo de filmar do cinema americano, mas o tema e seu desenrolar fazem toda a diferença. À estrutura careta do longa, somam-se questões pertinentes e atuais, tratadas de forma até bem humorada em alguns momentos, mas tristemente selvagens na maioria - em especial, na impressionante seqüência final, um verdadeiro duelo de faroeste encenada no centro da pequena cidade onde a ação acontece. Na metade, parece que vai cair naquele sentimentalismo barato típico de filmes sobre amigos adolescentes (como no recente Meninos de Deus), mas os desdobramentos da trama levam-na a patamares realmente surpreendentes e sombrios. Poderia até ser considerado um Sobre meninos e lobos protagonizado por jovens. Filme que choca durante a projeção e cresce muito depois de visto.
Segunda-feira, Agosto 22, 2005
Posted
1:02 PM
by MARCELO MIRANDA
OUTRA VIAGEM E MAIS PERFIL
Aproveitando a última semana de férias do trabalho, vou a Belo Horizonte dar umas voltas e tentar curtir a Mostra Indie de Cinema Mundial, que rola lá sempre em agosto. Enquanto isso, não sei de novo como será acesso à net, então nova escassez de atualizações por estas bandas. Pra ninguém me largar pra sempre, publico um novo perfil de diretor (seguindo o que, a princípio, eu queria fazer semanal, como é originalmente no jornal onde trabalho). Se o anterior foi o mestre Hitchcock, agora falamos de um assumido discípulo dele. E até a volta (ou quem sabe, antes dela).
ALÉM DO PLÁGIO
Brian De Palma tem uma obra de filmes cheia de referências a outros diretores, mas ainda assim autoral, original e de grande interesse
Admirador de Alfred Hitchcock e freqüentemente usando os filmes do mestre como base para seus próprios trabalhos, o norte-americano Brian De Palma costuma ser chamado de plagiador por muitos que, às vezes, não têm conhecimento pleno de sua obra. Mas olhando com atenção, valorizando o talento empregado em cenas e gestos, linguagem e significados, De Palma oferece muito mais do que meras cópias de filmes alheios. O universo criado por De Palma é repleto de personagens cercados. Gente encurralada entre a violência e a salvação plena, entre a redenção e o ataque de forças humanas além de seu controle.
Os primeiros filmes do diretor, como "Irmãs diabólicas" (1973), "O fantasma do paraíso" (74) e "Trágica obsessão" (76), eram quase exageradamente variações dos temas e obsessões de Hitchcock. Serviram de primeiros passos de um autor que logo iria se impor. "Carrie, a estranha" (76) começou a provar que De Palma tinha talento próprio. A história da adolescente paranormal que promove um banho de sangue no baile de formatura mescla drama com terror explícito e tornou-se referência na filmografia do cineasta. Após dois trabalhos apenas razoáveis ("A fúria", em 78, e "Terapia de doidos", em 79), De Palma fez uma série incrível de filmes - e ainda que seguindo as referências hitchcockianas, ia conseguindo prestígio através da maneira como desenvolvia as tramas e a forma como as contava.
É o caso de "Vestida para matar" (80). O enredo é praticamente decalcado de "Psicose" (60), apenas atualizado e com mais sensualidade e sexo. Mas tudo é feito com tanto estilo e jogos de câmera que o filme torna-se algo único. O mesmo com "Um tiro na noite" (81), desta vez citando o italiano Michelangelo Antonioni e seu "Blow up" (66). Já "Dublê de corpo" (84) vai além do estilo: a história do homem que presencia um assassinato ao olhar a vizinha pela janela não é nada original, mas seus rumos, sim. Em pleno clímax, no confronto final com o vilão, De Palma corta e mostra as filmagens do próprio filme, num exercício metalingüístico que serve menos de artifício de roteiro e mais como deboche e ironia sobre a pretensão dos filmes de suspense de causarem sustos a qualquer preço.
A partir do final da década de 80, Brian De Palma deixou um pouco de lado as referências explícitas ao seu maior influenciador e se preocupou com histórias mais independentes - sem esquecer a temática da fuga e das batalhas contra a vontade. "Os intocáveis" (87), por muitos considerado seu melhor filme, é um policial de primeira linha. A equipe montada para enfrentaro o gânsgter Al Capone e seu tráfico de bebidas na era da Lei Seca era formada por personagens de grande carisma, que não só conquistaram o público como se tornaram marco no gênero - e algumas cenas são geniais, como o ataque ao "intocável" interpretado por Sean Connery e a seqüência na escadaria, lembrando Eisenstein e seu "O encouraçado Potemkin" (25). De Palma já tinha retratado o universo dos gângsteres em "Scarface" (83), violentíssimo épico sobre a vida de traficante cubano que traz a cocaína para o mercado negro dos EUA. E repetiria esse mundo na obra-prima "O pagamento final" (93), com o mesmo ator - Al Pacino - e menos virulência, mas com contundência e discurso ainda mais pesados sobre redenção e impossibilidade de fuga do próprio destino.
Apesar de se aventurar em trabalhos fora dos gêneros que melhor sabe trabalhar (foi o que houve com a comédia "A fogueira das vaidades" em 90 e com a guerra em "Pecados de guerra", lançado no ano de 1989), De Palma se saiu bem em trabalhos estritamente comerciais como "Missão impossível" (95), "Olhos de serpente" (98) e "Missão: Marte" (2000). Mas voltou às origens dos anos 70 e 80 ao fazer "Femme fatale" (2002), ainda seu último trabalho lançado, um exercício complexo em cima do suspense que serve também de grande deboche à mania dos "finais-surpresa" de Hollywood. É Brian De Palma passando longe do plágio e sendo um discreto provocador. Ainda tem muito a nos mostrar.
Sábado, Agosto 20, 2005
Posted
7:05 PM
by MARCELO MIRANDA
RIFIFI
Du rififi chez les hommes (França - 1955)
Direção: Jules Dassin
Mais um lançamento da Aurora DVD, aportando no mercado digital de filmes. E que aporte! Não bastasse ter surgido com o fantástico O beijo amargo, pérola de Samuel Fuller, agora fui assistir a Rififi, suspense francês lançado em 1955. É um filme genuinamente noir (e para Truffaut, o melhor de todos os noirs). Leva às últimas conseqüências os atos dos personagens, é bem contado e atuado. Não à toa, levou prêmio de direção em Cannes (para o norte-americano Jules Dassin, banido dos EUA por conta do macarthismo, depois se exilando na Europa, onde fez carreira de sucesso). Um deleite para olhos e ouvidos ávidos por bom cinema clássico, tendendo ao moderno.
A trama envolve o assalto milionário a uma joalheria. Quatro bandidos se reúnem para o crime e armam tudo à perfeição. A seqüência do assalto propriamente dito ficou famosa: são 30 minutos sem diálogo e música. Mais do que isso, o que impressiona é o controle absoluto da mise-en-scéne. Dassin encena um roubo espetacular sem jamais ser espetaculoso. Esqueça os crimes filmados de forma épica e grandiosa, como nos recentes Armadilha, Uma saída de mestre ou Onze homens e um segredo, entre tantos mais. Aqui, tudo é no silêncio, valorizando olhares, expressões, movimentos. Os únicos sons, lindamente trabalhados pelo filme para aumentar a tensão, são do martelo batendo suavemente, do alarme abafado, do cofre sendo arrombado, do teto sendo aberto.
Esperto, Dassin não enrola muito com preparativos. Apresenta os personagens principais e logo chega a esse momento-chave. Só depois é que haverá algum desenvolvimento, e ainda assim ligado ao assalto. Neste ponto, Rififi lembra um pouco a obra-prima brasileira de Roberto Farias Assalto ao trem pagador, por focar na repercussão do roubo entre os autores e quem os rodeia. Enquanto Farias discutia, através de um cinema tido como de entretenimento, a desigualdade social e o preconceito racial dentro da sociedade brasileira, Dassin está mais preocupado simplesmente com a ação pós-crime. Além do assalto, o filme tem assassinatos, seqüestros, extorsão, espancamento e uma gama de coisas detestáveis que marcam o subgênero noir. Por outro lado, tem o instante delicioso em que uma pomposa e suculenta Magali Noël (linda atriz turca de vasta filmografia) canta música que dá título ao filme.
Falando em mulher, é interessante como a figura feminina tem importância fundamental no filme. O assalto apenas ocorre devido à decepção do personagem principal (vivido pelo francês Jean Servais) com a ex-esposa, o que o leva a deixar de lado os riscos da condicional para se envolver no roubo. E o plano acaba se complicando quando o arrombador do cofre (interpretado pelo diretor do filme, curiosamente creditado com o nome de Perlo Vita) se deixa seduzir por Noël. Uma separação é estopim para a união dos bandidos; uma aproximação é estopim para sua desunião. Sutilezas que enriquecem ainda mais o que já era sensacional. Um filme a ser visto. Brilhante, memorável e exemplar.
Ah, e "rififi", segundo a música cantada por Nöel, é gíria francesa para "luta de morte", "encrenca", "problema".
PS: esta semana foi noticiado que Rififi vai ganhar um refilmagem americana, programada para o ano que vem. O papel principal deve ficar com Al Pacino, e a direção será de Harold Becker (Vítimas de uma paixão). Nem vou comentar.
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12:20 PM
by MARCELO MIRANDA
2 FILHOS DE FRANCISCO
Brasil - 2005
Direção: Breno Silveira
Quem diria, há meses, que o provável melhor filme brasileiro do ano seria a vida de uma dupla sertaneja? Pois é, essa estréia do diretor Breno Silveira exala humanismo, sinceridade e alma que tantos exemplares recentes produzidos aqui na terrinha não têm. Impressionante como o filme é cadenciado, bem contado, bem dirigido, bem atuado... Enfrente qualquer tipo de preconceito e se deixe levar. Escrevi uma crítica detalhada do filme no Cinefilia. Segue um trechinho:
Breno Silveira ainda se dá ao luxo de inserir elementos que poderiam ser taxados de neo-realistas, em especial ao mostrar o auge da miséria da família em Goiânia: o choro desesperado da mãe, a chuva que não pára, a fome, as crianças brincando na areia que recobre o chão da casa. Tudo quase no silêncio, no intimismo, minimalista. O rosto sofrido de Dira Paes, a cara tristemente conformada dos pequenos.
E tem muito mais. Dêem o crédito e leiam aqui. Depois me digam o que acharam.
Sexta-feira, Agosto 19, 2005
Posted
12:31 PM
by MARCELO MIRANDA
PARA LEVAR PRA CASA
Se eu pudesse escolher uma única atriz do cinema atual para levar pra minha casa e ficar apenas olhando, esta sem dúvida alguma seria Scarlett Johansson. Não apenas pela sua beleza absolutamente estonteante, mas pelo talento, graça, carisma e inteligência - tudo testemunhado em obras de pura singeleza (dela e do filme) como Encontros e desencontros e Moça com brinco de pérola.
Post inspirado pelo explosivo A ilha, do destruidor-mor do cinema americano Michael Bay, em que Scarlett, apesar de "vulgarizada", como bem disse Ricardo Calil, está genuinamente maravilhosa. Caso se interessem em saber do filme, leiam crítica minha.
Terça-feira, Agosto 16, 2005
Posted
12:07 PM
by MARCELO MIRANDA
NOVA TEOREMA
Uma das melhores publicações impressas sobre cinema a circular no Brasil (e raro espaço para análises e idéias sobre filmes), a revista Teorema chega milagrosamente à sua sétima edição. Milagre não pela qualidade, que lhe garantiria vida eterna, mas pelo mercado editorial brasileiro, em que só fazem sucesso revistas de fofocas e afins (Caras ainda é a mais vendida?). Por conta disso,e até onde eu sei, a Teorema só circula no Rio Grande do Sul, onde é editada, e em São Paulo, em algumas livrarias grandes. Eu consegui as minhas edições anteriores pedindo diretamente aos responsáveis, especificamente a Ivonete Pinto, uma das coordenadoras. O e-mail deles é revistateorema@yahoo.com.br
Nesta nova edição, o foco é mais do que oportuno: o cinema asiático. Abaixo eu tomo a liberdade de reproduzir o que o Carlão Reichenbach publicou sobre a revista, boa parte certamente retirada do editorial dela:
Editada pelos críticos Fabiano de Souza, Flávio Guirland, Fernando Mascarello, Ivonete Pinto e Marcus Mello, a pauta desta sétima edição é o cinema oriental. Nos últimos anos o Oriente tem sido responsável por algumas das mais importantes fontes de renovação estética no cenário cinematográfico internacional. Coréia do Sul, Japão e China, o chamado Extremo Oriente, lideram essa invasão amarela, mas nomes do Sudeste Asiático, como o tailandês Apichatpong Weerasethakul e o cambodjano Rithy Panh, vêm afirmando a sobrevivência de um cinema mais autoral e menos pasteurizado. E é justamente Rithy Panh, diretor do extraordinário documentário S-21, a máquina de morte do Khmer Vermelho, o entrevistado deste número. Sua obra é analisada em dois textos, um assinado por Ivonete Pinto e outro pelo documentarista João Moreira Salles.
Thomaz Albornoz faz um apanhado do atual boom do cinema de horror produzido no Japão e na Coréia do Sul, cuja contribuição está revitalizando o gênero, invadindo até mesmo o mainstream de Hollywood. Fernando Mascarello detém-se no renascimento dos filmes de artes marciais, através do díptico formado por Herói e O clã das adagas voadoras, de Zhang Yimou, e do recente Kung-Fusão, de Stephen Chow. Kathrin Rosenfield reavalia o clássico Rashomon, de Akira Kurosawa, filme-marco que revelou ao Ocidente o cinema japonês.
Rodrigo John debruça-se sobre o universo do mestre da animação japonês Hayao Miyazaki, estabelecendo comparações entre uma das obras-primas do diretor, A viagem de Chihiro, com outras escolas de animação. Flávio Guirland escreve sobre um dos filmes-sensação da temporada, Old boy, do coreano Park Chan-wook, bem sucedida adaptação de um popular mangá, os populares quadrinhos japoneses. O texto de Flávio Guirland, a propósito, faz a relação com o outro tema em pauta na Teorema 7, o diálogo entre quadrinhos e cinema.
Aproveitando a oportuna estréia de Sin City, de Robert Rodriguez e Frank Miller, Fábio Zimbres investiga os meandros dessa relação. Marcus Mello escreve sobre Batman begins, optando por um registro cronístico ao refletir sobre os efeitos de assistir ao filme de Christopher Nolan sobre o herói mascarado das HQ, estando ainda contaminado pelas imagens de Terra em transe, a obra-prima de Glauber Rocha que voltou aos cinemas em cópia restaurada. Finalmente, Fabiano de Souza escreve sobre um filme que destoa dos temas elencados para esta edição, Bom dia, noite, de Marco Bellocchio. O entusiasmo provocado pelo filme do italiano entre os editores fez com que a pauta oriental fosse furada.
Domingo, Agosto 14, 2005
Posted
6:06 PM
by MARCELO MIRANDA
RETORNO E FILME
Voltei de viagem na quarta, mas não tinha conseguido tempo pra escrever no blog. Foi legal em São Paulo, conheci o até então amigo virtual Marcelo Costa (do ótimo Scream & Yell) e o editor do Digestivo Cultural, Julio Daio Borges. Todos gente-fina, pra ter amizades eternas. Valeu pela atenção. E na semana que vem, ainda em ritmo de férias, vou a Belo Horizonte. Enquanto isso...
SANGUE DE HERÓIS
Sap saam taai bo (Hong Kong - 1970)
Direção: Chang Cheh
Os clássicos de artes marciais da produtora de Hong Kong Shaw Brothers marcaram o cinema oriental e ainda reverberam no ocidental - vide John Woo na América. A grande parte dos melhores filmes do estúdio se concentra nos anos 60 e 70, quando nomes como King Hu e Chang Cheh se firmaram com os mais autorais diretores da época, trabalhando dentro de um sistema razoavelmente semelhante a Hollywood (no sentido da linha de produção) sem se deixarem esconder ou serem abafados pela infinidade de projetos lançados. Recentemente a China Vídeo lançou no Brasil o excelente box Origens com três filmes da Era de Ouro dos Shaw: O grande mestre beberrão, de Hu, e Sangue de heróis e Irmãos de sangue, de Cheh.
Eu já tinha visto o primeiro mas não comentei aqui. Já era. Hoje vi o segundo e não posso deixar passar, até porque o impacto foi muito grande. Sangue de heróis é um épico dos mais grandiosos e pomposos, de produção caprichada e técnica perfeita. Só que a força imensa do filme está no seu interior, na sua ação: durante a Dinastia Tang, um homem mantém os 13 filhos como os principais guarda-costas de seu reino, aliado do imperador. Juntos, vão tomando territórios e derrotando inimigos rebeldes. Aparenta apenas uma história de batalhas, mas 15 anos da obra-prima Ran, de Kurosawa, Chang Cheh introduziu na trama as intrigas familiares que são um câncer para o desenvolvimento de relações e estratégias.
Invejosos do filho preferido do rei, alguns irmãos vão se rebelar contra si próprios, criando problemas internos que vão desestabilizar a família. Muito parecido com o que seria feito dos herdeiros de Hidetora Ichimonji após a partilha das terras na epopéia shakespeareana de Kurosawa. Em ambos os casos, as conseqüências são catastróficas e sempre há o patriarca assistindo a tudo, impotente e passivo, sem força para deter a ganância, orgulho e cobiça de quem o rodeia. Mais difícil do que enfrentar rebeldes e algozes do imperador é superar os conflitos dentro da própria casa.
Não fosse toda essa complexidade (apenas explicitada na segunda metade), o filme tem cenas de batalha sensacionais. Há elementos fantasiosos que prenunciam O tigre e o dragão de Ang Lee e a dupla incursão de Zhang Yimou no gênero (Herói e O clã das adagas voadoras), mas predomina o realismo: enfrentamentos violentos, duros e diretos entre espadachins e guerreiros, com ardor e fúria. Os sons das armas batendo ou no ar ou nos antagonistas, o sangue a princípio tímido para depois explodir em cena (rola até um personagem dissecado em cinco pedaços!), a defesa alucinada do pai por parte do filho... Chang Cheh mostra aqui que o importante no seu cinema é combinar visual ao conteúdo, oferecendo imagens e resoluções de roteiro igualmente poderosas.
Ainda falta ver Irmãos de sangue no DVD da coleção e outros do Cheh que tenho em Divx - principalmente a trilogia do One-armed swordsman, que estou enrolando. A pensar neste aqui, a vontade apenas aumentou.
Sexta-feira, Agosto 05, 2005
Posted
5:46 PM
by MARCELO MIRANDA
EM VIAGEM
Estou de férias do trabalho. Amanhã embarco para uma viagem a São Paulo e fico até a quarta-feira. Então, nesse período, nada de blog (muito mal internet, olhe lá...). Assim, sem atualizações. Espero que esse espaço não fique às moscas no período, ainda mais depois dessa semana agitada, com vários comentários e trocas de idéias.
Pra não ficar no vácuo, deixo abaixo links para minhas duas últimas colunas no Digestivo Cultural. A saber:
1) uma amalucada relação entre o cinema e esse abismo em que está a política (ou seria politicalha) brasileira. Leiam aqui.
2) uma tentativa de entender se o faroeste, como gênero de filmes, está ou não morto, como tantos dizem. Podem clicar aqui.
E tenho dito. Até a volta, que os céus permitam!
Posted
1:11 AM
by MARCELO MIRANDA
CONTAMINAÇÃO
Contaminated man (EUA, Reino Unido, Alemanha - 2000)
Direção: Anthony Hickox
Olha aí mais um filme visto totalmente sob influência do mestre Carlão Reichenbach. Fã assumido e apaixonado do diretor de ação Anthony Hickox, Carlão escreve tão ardentemente desse cineasta que fica difícil não se interessar em assistir a algum filme dele. Pois eu havia visto dois, o excelente A última missão e o divertido Conspiração fatal. Na última madrugada a Globo exibiu este Contaminação, e aproveitei.
Menos movimentado que os outros que vi, trata de um homem infectado com perigosa e contagiante toxina que sai em busca da família e acredita estar sendo perseguido por militares (o cara é vivido pelo envelhecido Peter Weller, de Robocop). Em seu encalço aparece o personagem de William Hurt, antigo portador da mesma toxina que talvez seja o único disposto a ajudá-lo. O filme tem um desenvolvimento muito bom, apesar de lidar com tema batido - principalmente depois da eletrizante terceira temporada de 24 horas, que tratava do mesmo assunto.
Ainda assim, Hickox filma bem, mantém a tensão o tempo todo e ainda ironiza a paranóica polícia americana, ao mostrá-la desesperada por achar que está lidando com o membro de um grupo terrorista disposto a disseminar doenças nos EUA - tudo baseado num acidente químico e nas misteriosas letras escritas pelo infectado num pedaço de papel. Esse tipo de ironia parece ser uma marca - em Conspiração fatal, por exemplo, Hickcox mostrava um louco disposto a explodir a Casa Branca com seu avião (antecipou 11 de setembro, quem diria, como novamente faz com o pós-11 de setembro em Contaminação).
O filme começa chocante, ao mostrar Hurt chegando em casa e, sem saber, provocar a morte da esposa e da filha pela toxina que carrega no corpo. Anos depois, é Weller o portador, e mal sabem que tudo faz parte de uma conspiração maior. Com menos perseguições e explosões do que outros trabalhos, Hickox entrega um entretenimento de qualidade, em especial a angustiante (e dura) seqüência final. Gostei desta terceira experiência com o diretor. Me animou a ver Consequence, que Carlão exibiu na Sessão do Comodoro e eu baixei na net.
Quarta-feira, Agosto 03, 2005
Posted
1:51 AM
by MARCELO MIRANDA
PAVOR NOS BASTIDORES
Stage fright (Reino Unido - 1950)
Direção: Alfred Hitchcock
Até ler o magnífico Hitchcock / Truffaut: Entrevistas, eu nunca tinha ouvido falar de Pavor nos bastidores, filme lançado pelo mestre inglês em 1950, logo antes de Pacto sinistro. Talvez por ter sido um fracasso de público e crítica - e o próprio diretor desdenhava o filme, assumindo ter errado em diversos aspectos (escolha de elenco, roteiro, narrativa, linguagem).
Nem achei para tanto. É um filme divertido, não brilhante, claro. Tem passagens memoráveis, em especial os momentos de humor. Só que falta tempero, não existe muito química em cena e apenas Marlene Dietrich, como a suposta vilã, se sobressai, com sua beleza glamourosa e presença gigantesca na tela. A historinha diz respeito a uma garota que, apaixonada, faz de tudo para proteger e inocentar o homem que ama, acusado de matar o marido da amante - esta, uma diva do teatro (Dietrich) que só teria a ganhar com a morte do companheiro.
O filme ficou famoso pela seqüência em flashback logo no início: Hitchcock ousou mentir ao espectador ao apresentar cenas "reais" que não aconteceram realmente daquela forma. Curioso no documentário que acompanha o DVD um dos comentaristas (acho que o Richard Franklin, diretor de Psicose II) dizer considerar isso revolucionário da parte do Hitch. Eu penso meio parecido, e acho que o tal falso flashback antecipou muita coisa. O que seria do recente Os suspeitos (1994), por exemplo, não fosse essas imagens "enganosas"? Questão polêmica e aberta.
DUAS DICAS DE BLOG
Ao lado, nos links de blog, indico duas páginas feitas por garotas cinéfilas. Sempre legal ter a visão feminina e bem embasada sobre os mais variados filmes. Há homens demais nesse negócio! Então, fica a sugestão de algumas visitas periódias aos Pingos de Arte, da gaúcha (e não mineira!) Isabela Vieira, e ao Imagem em Movimento, da cearense Camila Vieira.
E não, não sei se elas são parentes.
Segunda-feira, Agosto 01, 2005
Posted
10:56 PM
by MARCELO MIRANDA
O BEIJO AMARGO
The naked kiss (EUA - 1964)
Direção: Samuel Fuller
Este é um filme realmente surpreendente. Tem tudo para ser um filme noir, mas funciona mais como um verdadeiro anti-noir (como ele já tinha feito onze anos antes, no esplêndido O anjo do mal. Fala de uma prostituta que, fugida do cafetão após cobrar uma dívida, muda-se para pequena cidade no interior do país na tentativa de recomeçar a vida. Loira, sensualmente linda e carismática (vivida pela bela Constance Towers), conquista a todos com quem cruza - exceto o policial local, sempre desconfiado das atitudes da moça.
Fuller foge do óbvio e, em vez de criar mais uma loira fatal, cria uma cidade fatal. A protagonista apenas quer paz, mas seu passado não a deixa quieta. Mesmo querendo seguir novos rumos, não consegue. É como se a carga de tudo vivido antes dali cobrasse seu preço agora, no verdadeiro inferno do qual ela vai ser vítima. Interessantíssimo que essa loira seja a sofrida na história, e não aqueles que a rodeiam - como acontece no genuíno noir. Ela recebe as chagas da cidade, sente da pior forma o quanto o ser humano pode ser vil, covarde e mesquinho às vezes por nada em troca - mas mais ainda se envolver vingança, dinheiro e cobiça.
Alguém disse que Fuller, aqui, previu o tipo de tema que David Lynch trabalharia décadas depois: as entranhas malditas das pequenas cidades americanas, os pecados secretos de uma sociedade firmada na violência e ganância, na imoralidade e na amoralidade. É por aí mesmo: por mais que certos comportamentos se modifiquem de uma cena à outra, os personagens são ambíguos e delicados, difíceis de serem definidos. A própria prostituta é o maior exemplo: é a heroína da trama, a injustiçada, mas nós, espectadores, sabemos que, de uma forma ou outra, ela é, sim, culpada do crime ao qual está sendo acusada - porque, no momento-chave, ela atacou seu algoz num instante de fragilidade dele, sem lhe dar oportunidade de defesa. E por mais que os motivos fossem teoricamente justos para o ato, ela deveria sofrer as conseqüências pela forma como o fez.
Mas Samuel Fuller brilhantemente nos coloca ao lado dela e carrega seu filme de forma a quase ignorar o que realmente aconteceu. É como se aquele ato não merecesse mais atenção, porque, afinal, só ela e o espectador o presenciaram. Forma-se um pacto com o público, algo que lembra o murmúrio de "rosebud" em Cidadão Kane, só ouvido por quem assistia à agonia do personagem de Orson Welles. É sutil, é singelo, é discreto. Fuller consegue nos tornar tão perversos quanto os cidadãos daquela cidade - e tão "inocentes" quanto a protagonista.
A única pureza que parece existir no lugar é a das crianças, em especial as deficientes. Mas até elas são alvos certeiros da doença que aflige a mente de tantas pessoas que ali vivem. Se elas são o futuro do mundo, é só pensarmos no que Lynch nos mostrou depois (em Twin Peaks ou Veludo azul) para entendermos que aquelas crianças cresceram e herdaram o comportamento questionável de outros tempos.
PS: filme visto no DVD recentemente lançado pela novata Aurora, que promete para os próximos meses outros grandes lançamentos. A imagem é muito boa, num preto-e-branco tinindo de novo, e o som também está ótimo. Só não tem extras (exceto alguns textos e cartazes), até porque deve ser complicado conseguir material especial de alguns desses filmes. Dá para conferir o catálogo da Aurora em www.auroradvd.com.br. Coisa fina.
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