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Terça-feira, Fevereiro 28, 2006
Posted
02:38
by MARCELO MIRANDA
A PANTERA COR-DE-ROSA: CATÁSTROFE CONTIDA
Não é o horror que aparentava. Apesar de ser um projeto obviamente picareta e sem grandes razões de existir, essa ressurreição de A Pantera Cor-de-Rosa tem seus momentos de graça. Claro, Steve Martin passa muito longe da genialidade de Peter Sellers - e isso fica claro desde o começo, com o estilo de humor "cumulativo" de Martin (em que as piadas são claramente preparadas e armadas), enquanto Sellers atingia o sublime nas improvisações e inventividade. Ainda assim, o filme de Shawn Levy prende atenção, não é burro nem pretensioso e tem ao menos um momento memorável: a cena em que o Inspetor Closeau toma aulas de inglês e não consegue pronunciar a palavra "hamburguer".
Prova cabal de que não há parâmetros pra comparar o Closeau de Sellers com o de Martin é justamente termos como grande destaque aqui uma cena verbal, e não física. Acaba que a produção atual cria quase um personagem próprio, que, se bem desenvolvido ainda pode protagonizar filmes razoáveis. Este primeiro, pelo menos, não merece entrar em lista de piores. Dá pra dar umas gargalhadas com as trapalhadas do protagonista, rir da cara de cínico do Jean Reno, babar na beleza estonteante de Beyoncé Knowles e relembrar a musiquinha do Henry Mancini.
Mas quando será que produtores de comédias americanas vão deixar de lado piadas envolvendo posições sexuais, flatulências e arrotos? Isso não tem a menor graça. Nem em Debi e Lóide...
Segunda-feira, Fevereiro 27, 2006
Posted
01:36
by MARCELO MIRANDA
ENQUANTO PASSA O CARNAVAL...
... a vida passa junto.
Ando muito devagar com os filmes. Tem acontecido com incômoda freqüência a situação de me sentar pra assistir a alguma coisa e simplesmente pegar no sono. Não importa o filme: bate aquela sonolência e só acordo horas depois. Isso me deixa não apenas irritadíssimo, como também preocupado. Afinal, deixo de ver muita coisa por causa dessas dormidas e perco tempo precioso. Agora, então, que (graças aos céus) voltei a trabalhar, as oportunidades de poder estar em casa vendo filmes diminuem. E aí, quando posso, meus olhos lutam contra mim. Lamentável. Alguém sabe o que é bom pra isso? Costumo tomar uma bela dose de café às vezes, mas nem sempre adianta...
Ao menos um consolo: no cinema eu não durmo. Raríssimas são as vezes em que dou sono. Ao menos nisso, né? Mas em casa está sendo complicado. E só de pensar no assunto eu fico com vontade de chorar.
Pra levantar o astral, algumas boas dicas de novos blogs, devidamente linkados aí do lado:
- Pipoca de Sal: do Juarez Junior, de Gama (Distrito Federal).
Indicação quente do amigo Eduardo Aguilar.
- Queimando Filme: do Cléber Eduardo, carioca, ex-crítico da revista Época e redator na Contracampo.
- Fora de Quadro: de Fernando Veríssimo, carioca, também redator na Contracampo.
Por enquanto, tenho dito.
Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006
Posted
19:03
by MARCELO MIRANDA
FALANDO DO OSCAR...
Resolvi dar uns pitacos sobre o Oscar deste ano, ainda que não tenha visto todos os concorrentes por pura falta de oportunidade (maldito circuitinho brasileiro). Escrevi no Digestivo Cultural, podem ler diretamente aqui.
Depois comentem se gostarem. Ou se não gostarem, também...
Posted
17:53
by MARCELO MIRANDA
OUTRA MARAVILHA (QUASE) EM CASA
Recém-adquirido em DVD via Mercado Livre...
Agora é esperar o vendedor me enviar logo.
Obrigado pela dica ao amigo blogueiro Marcos A. Felipe, confesso apaixonado pelo filme!
Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006
Posted
20:01
by MARCELO MIRANDA
SETE HOMENS E UM DESTINO
The magnificent seven (EUA - 1960)
Direção: John Sturges
Sete samurais do Oeste em busca de alguma paz de espírito. Um filme sobre afeição e senso de companheirismo.
- A arma lhe deu tudo o que tem. Não é verdade?
- Sim, claro, tudo. Depois de um tempo você pode chamar empregados em bares e carteadores de jogos pelo primeiro nome. Lar, nenhum. Esposa, nenhuma. Filhos... nenhum. Oportunidades, zero. Lugares a que você se apega, nenhum. Pessoas que se importam com você, nenhuma. Homens que você respeita, nenhum.
- Nós perdemos. Nós sempre perdemos.
Homens infelizes num mundo de selvageria, injustiça e morte.
Posted
02:25
by MARCELO MIRANDA
EM BOA COMPANHIA
In good company (EUA - 2004)
Direção: Paul Weitz
Nem há grandes motivos pra comentar por aqui este filminho simpático. Não há nada nele de muito excepcional, não tanto quanto do antecessor Um grande garoto, cujo ritmo e timing das piadas eram bem mais eficientes. Mas há uma sinceridade e uma despretensão tão agradáveis na produção que senti forte vontade de registrar aqui algumas parcas impressões.
Na verdade, Em boa companhia é um elogio à experiência - de vida, de trabalho, de amor, de amizade. É um filme que deixa claro o seu recado de que quem entende mesmo das coisas são os mais velhos, e a maturidade só é adquirida depois de alguns tropeços, decepções e desilusões. Pode-se concordar ou não, mas Weitz não tem qualquer tipo de pudor em colocar seu jovem protagonista, vivido por Topher Grace, nas mais absurdas situações: ainda que ele tenha a chance de sua carreira ao ser promovido no emprego, nada dá certo. Por outro lado, Dennis Quaid encarna o pai severo, porém amável; homem de razão e atitudes coerentes, ele parece sempre saber o que fazer, por mais que a realidade não esteja a seu favor - ele é rebaixado, a filha se muda pra Nova York e se relaciona com o rapaz que agora é o chefe, os sinais da velhice tornam-se mais e mais evidentes.
Apesar de, quase ao final, haver um desnecessário e exagerado discurso de Quaid sobre os malefícios do lucro no capitalismo, o filme aborda com sensibilidade os dramas de um típico escritório profissional, com demissões, trocas de cargos e desagradáveis afins. Particularmente sei bem do que o filme trata, e acho que essa identificação me ajudou a curti-lo mais. Também a sensação do personagem de Grace de não saber para onde ir quando se desliga do emprego, como se o ápice já tivesse sido atingido e agora não existam novos caminhos. Mas eles existem, e acabam aparecendo.
(ih, isso aqui tá virando bloguezinho demais... Deixa eu parar)
Se ainda de tudo Em boa companhia não fosse um filme razoável, com bom roteiro e belo desfecho, há a presença dela, a maior e única... Scarlett Johansson. Ahhhhhh...
Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006
Posted
15:19
by MARCELO MIRANDA
COMUNICADO E DICA DE BLOG
1) como alguns devem ter notado, modifiquei a fonte do Impressões Cinéfilas. Estava enjoado daquelas letrinhas coladas do Verdana. Como sempre gostei muito da fonte do colega Paulo Ricardo (Los Olvidados), descaradamente "roubei" a dele e coloquei aqui. Agora é Trebuchet MS, e acho que ficou bem melhor. Valeu, Peerre!
2) impressionantes as colunas do professor e crítico baiano André Setaro. Dono de um blog indispensável (Setaro's Blog) e de uma coluna no site Coisa de Cinema, ele escreve ardorosamente sobre os mais variados assuntos ligados ao cinema, com conhecimento pleno de linguagem, técnica e narrativa fílmica e com grande clareza e franqueza. Vale a leitura rotineira, inclusive ao vasculhar o arquivo de artigos antigos. Como gostinho, segue abaixo um texto excepcional sobre a crítica de cinema, publicado no site, reproduzido no blog dele e que tomo a liberdade de colar aqui:
Da Crítica Cinematográfica
Creio que a tarefa dos críticos especializados em cinema - não considerando, aqui, os comentaristas meros aficcionados - a de atuar como mediadores entre a obra cinematográfica e o espectador comum, oferecendo um modelo de leitura da primeira e sublinhando os eventuais valores poéticos nela presentes. Refiro-me aos críticos que atuam em jornais e revistas ou que escrevem em suplementos culturais cujo público alvo não se restringe ao meio acadêmico. A função daqueles que escrevem sobre cinema é ajudar - e não complicar - ao leitor a percorrer o itinerário do filme com um mínimo de conhecimento lingüístico - de modo a permitir que se reconheça, durante o trajeto, aquilo que é importante e o que não o é. Uma função, portanto, que, mesmo antes de se reportar à apreciação estética da obra considerada no seu conjunto, incide sobre a sua sucessiva racionalização, quer dizer, a tradução em termos lógico-discursivos do sentido poético que ela exprime através dos procedimentos de significação que lhe são próprios.
(Percorro um itinerário de colunista no jornal Tribuna da Bahia desde agosto de 1974. Três décadas, que se completam no ano em curso. Neste período, tenho tentado escrever para o leitor, mas sempre procurando salientar que o filme somente pode se consolidar como obra expressiva, se houver, por parte do realizador, um ato criador na manipulação dos elementos da linguagem cinematográfica. De boas intenções, de boas idéias, o inferno está cheio. Um bom roteiro somente pode ser transformado em filme dotado de qualidades específicas quando existe o talento natural do cineasta na manipulação do processo sintático da lingüística fílmica. Se a crítica do passado - incluindo, aí, nomes como Paulo Emílio Salles Gomes, Alex Viany, entre outros, exceção se faça a Moniz Vianna, Almeida Salles e José Lino Grunewald - sempre estava a procurar o elo semântico da obra cinematográfica, a crítica a partir dos anos 60, compreendendo, afinal, que o cinema é uma linguagem, concentrou-se na procura do elo sintático.)
Sempre que não se queira ficar pelo desempenho de uma mera atividade de informação cronística - como só foi acontecer no fracassado e desesperado jornalismo cultural baiano, o crítico de cinema deve valorizar a obra examinada, fazendo emergir, dela, as suas valências ocultas e interpretando-as em ligação com o macrocontexto cultural em que a primeira vem à luz. Na condição, naturalmente, de que tal ação seja desempenhada com uma certa discrição a fim de garantir o respeito pelo texto fílmico contra o perigo de leituras forçadas e de distorções generalizadas - muito comum, aliás, nos neófitos que se arvoram em críticos nesta província da Bahia. De resto, a própria polivalência que caracteriza o filme, como sistema orgânico de sinais susceptível de múltiplas leituras, favorece a pluralidade interpretativa. Portanto, se o espectador normal se limita geralmente a ver um filme, o crítico lê-o por ofício e ajuda o primeiro a fazer outro tanto.
Porém, nesta sua função de intérprete e guia, o crítico de cinema deve contar com uma dificuldade resultante da natureza não-homogênea da linguagem escrita por ele utilizada relativamente à linguagem visual empregada pelo filme. Dificuldade esta que o intérprete dos textos literários não conhece, podendo entremear tranqüilamente o seu discurso crítico com o do texto analisado em virtude da identidade lingüística que preside a ambas as manifestações expressivas. Isto se mostra tanto mais intrigante quanto mais presente se tiver o caráter narrativo do filme, caráter assente nas outras artes visuais que também têm as suas práticas críticas correspondentes, não obstante serem igualmente irredutíveis às formas da linguagem verbal. A complicar ainda mais o caso está a natureza de linguagem sem língua - como gostam de dizer os semiólogos - que é típica do filme. De fato, a partir do momento em que não existe um sistema abstrato preeexistente ao filme, mas, apenas, obras fílmicas isoladas, não parece possível - como acontece, pelo contrário, na análise dos textos literários - estimar o eventual afastamento, entre a parole-film e a langue-cinema, afastamento do qual derivaria a poeticidade do texto fílmico.
Trocando em miúdos: é impossível distinguir entre um uso banal ou cotidiano da linguagem cinematográfica e uma sua utilização que obedeça a propósitos artísticos, e isto pela simples razão de que no filme o plano de denotação coexiste sempre com o da conotação e que, por conseguinte, não existe um grau zero da escrita fílmica a partir do qual se possam avaliar os eventuais afastamentos efetuados em sentido expressivo pela linguagem examinada.
(O que tento explicar acima me embasei em rudimentos de semiótica que são bem racionais no tratamento da crítica, embora reconheça valor naquela impressionista feita por homens cultos e inteligentes. Ainda que sem emitir, mas, nas entrelinhas, já emitindo, juízos valorativos, não acredito numa cientificização da crítica cinematográfica, quando o analista mais se assemelha a um cientista pacientemente a procurar significados na obra cinematográfica e, com isso, destruindo não apenas a emoção do filme ¿ essencial em toda obra que se queira de arte - como também o prazer de ler o resultado da investigação. Sigo, desde sempre, as palavras do eminente jurista Vicente Rao - sou também formado em Direito e advogado de carteirinha, embora não saiba entrar nos labirintos forenses, quando escreveu no volume 60 de seus comentários ao Código de Processo Civil: "A clareza tem o direito de fazer parecer superficial, mas que não se infira desse aviso a conveniência de ser obscuro para parecer mais profundo")
(O grande crítico José Lino Grünewald gostava de dizer: 'Cinema se aprende indo ao cinema'. Há de se adquirir o hábito de ver filmes, assim como se adquire o hábito de ler. É um processo que leva tempo o conhecimento cinematográfico. Existe, no curso universitário, uma disciplina chamada Crítica Cinematográfica, destinada aos alunos de Comunicação Social, que tem como objetivo precípuo a ilustração sobre o que isto significa e, também, para dar a conhecer os textos dos grandes críticos e pensadores da arte do filme. Mas, interessante observar, muitos alunos pensam que, num semestre, podem se tornar, fazendo-a, críticos de cinema. Ledo e ivo engano. Serve, para aqueles que realmente se interessam, como um primeiro passo, um empurrão, no sentido do despertar os vocacionados. A necessidade de se ter a habitualidade da contemplação fílmica é fundamental e para se conhecer cinema é preciso ver filmes e filmes. O que leva tempo. E ver com atenção, procurando estar sempre antenado com leituras paralelas de críticos qualificados - no Brasil, entre outros, e correndo o risco de omissão, considero Inácio Araújo, da Folha de São Paulo, um dos mais lúcidos e conscientes, pois possui, como poucos, sentido aguçado dos procedimentos cinematográficos, do timing e, principalmente, da natureza específica da arte cinematográfica. Poderia dizer que Luiz Carlos Merten, este do Estadão, também é um excelente crítico. E na área propriamente dita da Teoria Cinematográfica o grande mestre é Ismail Xavier, ensaísta de erudição - seu livro O discurso cinematográfico é exemplar raro e quase ninguém no Brasil pensou a natureza do cinema como ele, ainda que se possa discordar de seus pontos de vista.)
Em suma, deve-se deixar à viagem fílmica toda a sua componente de prazer se quisermos que não se transforme num calvário em direção à crucificação final da fábula e do respectivo discurso. O academismo e o preconceito são tão mortais para o cinema como para a vida.
Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006
Posted
16:03
by MARCELO MIRANDA
O MERCADO BRASILEIRO DE REVISTAS PRECISAVA DESSE SOPRO...
A mais nova revista de cinema da praça. Editada pelo Sérgio Alpendre, crítico da Contracampo, periodicidade bimestral e com proposta de ter como diferencial análises mais ricas e apaixonadas dos filmes comentados, sem cair em babações de ovo ou mera publicidade gratuita. Nesta primeira edição tem, entre outros destaques, uma belíssima entrevista com o Carlão Reichenbach, relação dos melhores filmes de 2005, matéria sobre O segredo de Brokeback Mountain com filmografia comentada do Ang Lee e alguns artigos e ensaios de notável beleza, além de resenhas dos últimos lançamentos em cinema e DVD e um guia para se "aprender" a ouvir Rolling Stones. Ah, e como este blog é meu mesmo, aproveito pra fazer propaganda: este humilde palpiteiro colaborou com quatro textos pra revista.
Quem mora em São Paulo pode caçar, que a danada está espalhada pela cidade. Para saber especificamente onde está sendo vendida ou, no caso de interessados de fora de SP, para assinaturas, o site da revista tem todas as instruções. Vida longa à Paisà!
Domingo, Fevereiro 12, 2006
Posted
03:25
by MARCELO MIRANDA
SAINDO DO ARMÁRIO
(não é o que você está pensando...)
Finalmente acho que estou saindo do marasmo cinefílico. Hoje assisti a quatro filmes - sendo três longas e um média-metragem. Como é bom sentir o cinema nas veias, as imagens entranhando na retina, os sons agarrando nos ouvidos... Isso faz bem, muito bem, e espanta qualquer baixo astral, por mais que, às vezes, os filmes não sejam lá muito agradáveis de olhar. Foi um dia especialmente violento, na verdade. Comentários breves:
LANCE DE SORTE (The good thief - França / Inglaterra / Irlanda, 2002)
Direção: Neil Jordan
Gosto muito do diretor irlandês Neil Jordan e tive oportunidade de ver seu último trabalho, Café da manhã em Plutão, no Festival do Rio. Lindo filme, merecedor de lançamento comercial no Brasil (por que ainda não veio?). E dia desses dei de cara com um tal Lance de sorte na locadora, filme dirigido por ele e com o Nick Nolte, um dos atores em atividade que mais admiro e cujo valor ainda está para ser realmente descoberto. Produção aparentemente menor de Jordan, é um filminho até interessante, cujo maior atrativo está mesmo no roteiro, também do diretor e inspirado numa antiga fita francesa. Com toques típicos do noir (incluindo até a bela mulher que coloca tudo a perder), tem começo mais instigante que o miolo, e o desfecho é apenas razoável. O que compensa é Nolte, outra vez notável em cena (ele interpreta um drogado e jogador compulsivo, apaixonado por artes e envolvido num roubo a quadros de grandes pintores), e alguns diálogos. De resto, nada digno do talento de Jordan.
QUADRILHA DE SÁDICOS (The hills have eyes - EUA, 1977)
Direção: Wes Craven
Um dos primeiros e mais cultuados longas de Craven, esta produção barata e de impressionante suspense vai ganhar refilmagem, a ser lançada em 2006. Boa oportunidade para resgatar o bom e velho original, com toda a crueza e sadismo da trama em que bando deformado que vive nas montanhas inferniza uma família ali presa. Desde esta época Craven já seguia linha autoral. Em praticamente todos os seus filmes, há personagens às voltas com situações aparentemente inofensivas, gente que confia em algum outro elemento como parâmetro de segurança ou, no mínimo, de falta de riscos - desde os sonhos de A hora do pesadelo, de um simples telefonema em Pânico, da relação com o namorado no péssimo Amaldiçoados, do colega de assento em Vôo noturno. No caso de Quadrilha de sádicos, é a própria montanha essa "salvaguarda" dos protagonistas. Só que aquele espaço amplo e aparentemente deserto esconde os piores medos, como o título em inglês adianta.
E vai ser ali que a família enfrentará a força da natureza, mas não de uma natureza que marca território por tempestades, calor ou ventos, e sim a natureza modificada do ser humano, a selvageria de pessoas transformadas em monstros menos por serem aberrações genéticas e mais pela ação de outros humanos que rejeitaram esses seres modificados e os repeliram em direção ao exílio. O encontro do lado "bom"e do lado "mau" de um praticamente mesmo âmbito familiar é o que há de mais rico no filme, e em como cada um desses lados pode se reverter para o inverso, seja a "anomalia" tendo atos de puro humanismo ou a "normalidade" se tornando uma fera bestial. Não bastasse tanto, Craven recheia a fita com cenas de violência explícita e crueldade, em meio a gritos, desespero e tensão. Grande filme.
JENIFER (EUA, 2005)
Direção: Dario Argento
Realizado para a televisão, como parte da série Masters of horror do canal Showtime, este média do italiano Argento é um primor em todos os aspectos. Já o filme preferido exibido no ano passado para muita gente entendida (como o amigo Eduardo Aguilar), traz de volta o talento deste cineasta ímpar, dono de uma das maiores filmografias européias da história. Particularmente eu não gostei de seu último longa, O jogador de cartas, mas este Jenifer não tem explicação. Deveria ser apresentado nos cinemas, em tela larga, para transmitir com ainda mais intensidade o seu horror e a sua angústia.
Horror por apresentar a personagem-título, mulher com rosto deformado que entra na vida de um policial e ali se instala através de persuasão enigmática e inexplicável, em que o sexo é componente essencial. Angústia no desenvolvimento dessa relação e nas conseqüências provocadas pela natureza destrutiva e animalesca de Jenifer. Em pouco mais de 50 minutos, Argento constrói atmosfera de medo sem explicitar motivos; não busca explicações para o que seria, de fato, sua protagonista; e faz o espectador, por mais chocado que fique, estar sempre ao lado dela. Jenifer não é inofensiva, mas também não pode ser considerada estritamente maldosa. Criatura ambígua, de intenções nunca claramente reveladas, demonstra carência e afetividade, mas pode se tornar selvagem e mortífera por motivo algum, exceto pelos próprios instintos. O trabalho de direção, enquadramento e montagem é admirável, e Argento proporciona cenas ora de puro êxtase visual, regadas a muito sangue e tripas, ora de ternura e sensualidade, com direito a generosas visões do corpo escultural de Jenifer. Pequena obra-prima.
MARCAS DA VIOLÊNCIA (A history of violence - EUA, 2005)
Direção: David Cronenberg
Filme já devidamente visto e comentado, mas revisto agora em cinema (antes tinha sido via eMule, por questões de urgência, já que o filme não estreara aqui em Juiz de Fora até ontem). Não bastasse captar em tela grande a impressionante obra tecida por Cronenberg sobre aparências, culpa, redenção e amor, pude compartilhar as sensações com a platéia. Interessante ver as reações: a violência do filme mexe mesmo com o público. Na sessão em que eu estava, não muito lotada, quase todos os presentes soltaram algum gracejo no instante em que Tom Stall avança nos dois assaltantes, o que culmina no tiro na cabeça de um deles.
Mais à frente, quando o mesmo personagem enfrenta mafiosos na porta de casa, outros espasmos dos espectadores, desta vez mais intensos, graças aos socos de Stall no nariz de um gânsgster e a explosão de sangue de Ed Harris. E então veio o momento mais curioso: quando Stall se move na cadeira para se defender do capanga que tenta enforcá-lo, já quase no final do filme, alguns na sala cochicharam: "ah, meu Deus, de novo não!", quase um pedido de clemência para não terem que testemunhar o que poderia vir dali.
Outra reação gritante, claro, é às cenas de sexo. Em ambas - o "meia-nove" e o sexo selvagem na escada - o público não parecia preparado. Sentia-se a surpresa de aqueles momentos se prolongarem tanto na tela, sem cortes, indo além do que normalmente o cinema dito comercial costuma mostrar. Era uma profusão de "nossa", "olha isso", "minha santa" e "óhhh" que dava gosto de ouvir. Maravilhoso sentir como o longa de Cronenberg perturba, literalmente do começo ao fim - aliás, quando há o último corte e entram os créditos, após o olhar lacrimejante de Stall, era quase silêncio absoluto na sala, cortado apenas por expressões que denotavam a surpresa causada pelo filme. Deu até vontade de ver mais uma vez, e seria a minha quarta...
Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006
Posted
18:20
by MARCELO MIRANDA
CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA
Confessions of a dangerous mind (EUA - 2002)
Direção: George Clooney
Há como não gostar de George Clooney? O cara é talentoso, inteligente, charmoso, gente fina. Seja atuando ou dando entrevistas, ele emana uma força e carisma impressionantes, que nos remete aos grandes astros americanos de décadas passadas, sem aquele ranço egocêntrico e de estrelismo que parece dominar boa parte da nata de Hollywood. Este ano, Clooney está na crista da onda, com dois filmes indicados ao Oscar: Boa noite e boa sorte, dirigido por ele e concorrendo em seis categorias, incluindo filme e direção; e Syriana, indicado a dois prêmios, sendo um para o Clooney-ator.
Enquanto tais filmes não aportam aqui nessa cidadezinha ordinária, fui resgatar o primeiro trabalho dirigido por Clooney, que eu ainda estava devendo. Confissões de uma mente perigosa foi lançado em 2002, já concorrendo no Festival de Berlim daquele ano. Entre outras particularidades, o que mais chama atenção é justamente a direção do também ator: a segurança de cada plano e da linguagem utilizada é admirável. Clooney se mostra grande entendedor do ofício, deixando a narrativa fluir naturalmente e inserindo momentos de grande criatividade - como transições de cena em tomadas sem corte e o uso da cor e de efeitos de lente da câmera, para dar à imagem aspectos que expressem a confusão mental do protagonista.
O roteiro de Charlie Kaufman sobre a vida do ex-apresentador de TV Chuck Barris rodou de mão em mão entre produtores até simplesmente não ser feito. George Clooney achou um desperdício e assumiu ele mesmo o projeto, convencendo amigos como Steven Soderbergh e Julia Roberts a produzirem e/ou participarem do filme ¿ Roberts chegou a trabalhar de graça. O resultado é filme ao qual se assiste sempre com prazer, que tem ainda na interpretação intensa de Sam Rockwell boa parte de sua razão de existir e ser valorizado.
Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
Posted
17:50
by MARCELO MIRANDA
NA BANCA, EM DVD, POR R$ 10,90
NO SEBO, EM VHS, POR R$ 6
Que maravilhas...
Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006
Posted
16:48
by MARCELO MIRANDA
MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA
Direção: Rob Marshall
O filme já nasceu controverso ao colocar como protagonistas três atrizes chinesas de renome interpretando gueixas japonesas. Segue-se a visão glamourizada a folclórica desse mundo, vista no olhar hollywoodiano de Rob Marshall, e temos um filme frágil e ingênuo. Escrevi detalhadamente dele no Cinefilia. Fica o convite à leitura, podem acessar diretamente aqui (mas o site está com ótimos textos, vai na capa também!). Um trechinho:
Marshall nos apresenta (literalmente) as gueixas e seus costumes, numa visão razoavelmente viciada não de como esse universo deveria ser, mas de como ele, Marshall, e todo o seu imaginário deslumbrado por cores e formas acima de idéias e significado, pensa que esse universo era.
Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006
Posted
16:20
by MARCELO MIRANDA
A POLÊMICA DE MUNIQUE
Aproveitando as indicações ao Oscar e o ba-fa-fá em torno do novo filme do papai Spielberg, decidi dar meu pitaco também. Munique é um filme difícil e complexo de ser decifrado. E assim como o diretor tentou acertar em todos os lados, eu escrevi um texto também ponderado, que serve mais de questionamentos sobre o filme do que de um esgotamento dos seus significados. Está publicado no Cinefilia, podem ler diretamente aqui. Abaixo, um trechinho:
A família, tema recorrente nas produções do cineasta, novamente está presente, mas, como todo o filme, foge de seu tradicional: enquanto Spielberg costuma colocar em cena a busca pela reconstituição familiar, em "Munique" já temos um lar formado - ou melhor, em formação, já que a esposa de Avner está grávida. Descendente de israelenses e ambicioso por um trabalho relevante em nome de seu povo, o protagonista vai aceitar deixar de lado o convívio com a mulher e o bebê para se aventurar na caçada humana por terroristas. Ele passará o resto do filme tentando retornar ao seio da família, sem necessitar consertá-lo. Sua missão não é apenas cumprir o dever e eliminar os inimigos, mas voltar inteiro para casa, o que lhe dá sempre mais motivação e aumenta o sentido desse eixo narrativo.
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