Impressões Cinéfilas

Terça-feira, Março 21, 2006


A ALIANÇA DE WOODY ALLEN x O ACIDENTE DE SEAN PENN

E finalmente desaguei e assisti ao tão aguardado Match Point, novo e incensado filme do bom e velho Woody Allen. Depois de alguns tropeços (Igual a tudo na vida, que até curto um pouco, e Melinda e Melinda, que não me convence) numa carreira brilhante, eis que Woody volta à toda, num tragicômico romance envolvendo um irlandês, uma inglesa e uma americana. Todo mundo deve estar cansado de saber do filme, de seus desdobramentos na linha Crime e castigo, do estilo mais seco e direto da direção e da narrativa, etc etc etc. Então, vamos direto ao que, pra mim, chama mais atenção no filme.

(antes, não dá pra evitar dizer o quanto Allen é ótimo contador de histórias, dosando cada plano e cada corte nos seus momentos certos e entregando bem devagar ao espectador os detalhes da trama. E claro, a Scarlet Johansson, além do talento já sabidamente conhecido, está dolorosamente linda e sensual).

AVISO: A PARTIR DAQUI, VOU CONTAR DETALHES "ÍNTIMOS" DO ENREDO DE MATCH POINT E DE A PROMESSA, DE SEAN PENN

Se todo o desenvolvimento do drama de Chris (o protagonista) é realizado de forma incrivelmente convincente, cheio de ambigüidades e algumas boas surpresas, se sua ascensão social vai se dando na base da sorte que ele tanto preza (acima da fé e do trabalho), o roteiro de Woody Allen reserva um artifício narrativo que muito me incomoda, resolvendo a situação moral proposta pelo filme de forma rasa e nada condizente com a complexidade do que havia sido apresentado.

Chris decide eliminar Nola. Arma o crime perfeito e é bem sucedido - menos quando vai se livrar das provas. Por azar, deixa a aliança cair no chão. Aliança = laço. Estaria Allen nos dizendo que aquela jóia seria a maldição de Chris, a forma como Nola não deixaria de enlaçá-lo de alguma forma? Tudo se encaminharia para isso, não fosse a "sacadinha" do diretor em inserir um traficante que encontrou a aliança e acabou levando a culpa pelo crime. Chris se livra, e nem fica sabendo.

Ora, estamos aqui diante de um simplismo dos mais "bacanas". Depois de insinuar o tempo todo que a vida de Chris é regida pela sorte, Allen ameaça desafiar essa idéia para em seguida voltar atrás e mantê-la, dando ao filme certo caráter conservador - no sentido de não se aprofundar nas próprias questões levantadas. Esse detalhe da aliança encontrada pelo traficante me encunca, porque, em vez de manter o enredo no eixo, creio que o tira totalmente. Prende o desfecho a um deslize puramente escolhido por Allen, encaixotando uma angústia e uma culpa que poderiam ser ainda mais desenvolvidas. Se a aliança liberta Chris, ela prende e sufoca o final da saga de Chris.

O que me faz relacionar Match Point a outros dois filmes. O primeiro, óbvio, é Crimes e pecados, do próprio Woody Allen. A trama é a mesma: homem casado decide se livrar da amante literalmente eliminando-a do caminho. Porém, o personagem de Martin Landau não tinha qualquer artifício para livrar a sua cara. Se ele escapava incólume do crime, não era porque o roteiro assim pedia, mas porque não havia nada que o levasse à uma condenação oficial. Ele próprio carregaria aquela culpa vida afora. Mesmo que conseguisse abafar a amargura, ela sempre viria à tona, ainda que como roteiro de um filme de ficção (como ele descreve ao final).

Temos piedade desse homem, porque ele foi artífice de uma barbaridade, tem plena consciência disso e sabe que pagará pelo resto de seus dias, nunca deixando de pensar no assunto. Com Chris, não: o espectador pode até achar "bacana" o lance da aliança, mas não fica cúmplice do personagem. Sente, no mínimo, alívio por ele - mas ele próprio, nem tanto, pois não fica sabendo da enrascada na qual conseguiu não entrar.

O que nos leva ao outro filme relacionável: A promessa, dirigido pelo Sean Penn e pouquíssimo visto. Não lembro de lugar algum na imprensa lembrando desta pequena obra-prima ao falar de Match Point (e me corrijam se souberem). Pois ambos tem relações extremamente íntimas, são primos-irmãos. No filme de Penn, o detetive vivido por Jack Nicholson tem certeza de que está na pista de um matador de garotinhas. Arma um plano mirabolante para capturá-lo, colocando em risco a vida da filha de sua nova esposa. Mas o assassino não aparece na emboscada, e o policial é tido como louco paranóico.

O que realmente acontece é obra do acaso, também: na ida para o encontro com a menina, o criminoso sofre um acidente e não sobrevive. Ninguém jamais saberá que ele era o culpado pelas mortes das garotas, e Nicholson viverá até seu último dia sem saber se estava mesmo louco ou algo saíra errado. Tanto aqui quanto em Match Point, a situação-chave do filme é resolvida por uma jogada de roteiro. Só que, se em Allen ela aparece como uma "sacada", uma artimanha para livrar a cara de seu protagonista e deixar a platéia pensando no quanto o filme é engenhoso, na produção de Sean Penn as coisas vão muito mais a fundo. A decisão de omitir dos personagens a existência do criminoso vai provocar agonia eterna no policial. Vai torná-lo um fantasma de si mesmo. Destrói seu relacionamento, seu trabalho, suas amizades, talvez sua sanidade. Ele jamais será o mesmo. Isso porque o acaso não permitiu que a verdade lhe aparecesse aos olhos. No caso de Chris, é tudo mais simples e direto: ele mata a amante grávida, escapa da polícia e volta à vidinha que tanto lutou para se manter - não à base de um encadeamento crescente e contextualizado de situações, mas por um acontecimento pontual e, repito, artificial.

À aliança de Allen, eu prefiro ficar com o acidente de Penn. Partindo do mesmíssimo tipo de desfecho, este consegue se desvencilhar de forma muito mais brilhante do que aquele.

Domingo, Março 19, 2006


UM SOPRO NO VELHO GÊNERO

Há chances do faroeste realmente não ter morrido, como já escrevi numa coluna no Digestivo Cultural. Este curioso A Proposta (2005) dá novo fôlego para um gênero reconhecidamente desgastado, que desde Os imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood, não surge com um filme de impacto verdadeiro. O improvável Kevin Costner quase conseguiu, mas ficou apenas nas homenagens e referências de seu eficiente Pacto de justiça (2003), e Ron Howard achou que as pradarias eram só lugar de feitiçaria e vingança no quase-bom Desaparecidas (2003). Mas nenhum deles mexia verdadeiramente com as emoções.

Ao menos isso, John Hillcoat consegue. Amparado pelo ótimo roteiro do músico Nick Cave, A proposta retoma a idéia do faroeste melancólico e depressivo, nascido com Matei Jesse James (1949) e Matar ou morrer (1952), para contar a trama envolvendo três irmãos irlandeses delinqüentes e um oficial tentando fazer o que acha certo. A proposta do título vai colocar tanto o capitão quanto um dos membros do trio criminoso em situações-limite difíceis de serem resolvidas de forma fria e rápida, criando qeustionamentos genuínos sobre qual a melhor ação a ser feita.

Hillcoat prefere filmar lindas paisagens da Austrália a apostar só em cenas de ação e tiroteio. Guy Pearce anda a cavalo em busca do irmão mais velho ao som de uma música sussurrada, quase distante, mas muito presente. O visual é dos mais sujos, com direito a muito mosquito e corpos (inclusive algumas boas cenas de violência gráfica, lembrando um pouco nosso amigo Peckinpah). Mexeu comigo, particularmente, o momento em que o jovem prisioneiro é açoitado, e a chibata escorre sangue como poucas vezes se viu de forma tão crua (tá, A paixão de Cristo não vale...).

As relações humanas são desenvolvidas, e todas destruídas, ao longo da narrativa. Família é o tema central que permeia o filme, e é a família a instituição em jogo em cada decisão e a que primeiro será prejudicada com qualquer atitude dos personagens. A proposta ainda consegue espaço para inserir questões da colonização australiana, na presença de aborígenes que têm função equivalente aos escravos americanos.

Belo filme. Ainda não vi a série Deadwood, que também revisita o faroeste. Se ela for mesmo tudo o que dizem, somada a A proposta e, parece, Os três enterros de Melquiades Estrada, de Tommy Lee Jones (estréia no Brasil em abril, como informa o colega Leandro Caraça), podemos estar tendo uma "retomada" do western sob novo e estimulante ponto de vista. Já não era sem tempo.

Sábado, Março 18, 2006


IMPERDÍVEL EM DVD




Humor e muito tiroteio da melhor qualidade.
Interpretação antológica de Terence Hill, perfeito na dobradinha com Henry Fonda.
Música absurda de linda do Ennio Morricone.
Um dos mais belos e emocionantes finais do gênero faroeste.
É. Não dá mesmo pra ficar sem.

Quinta-feira, Março 16, 2006


FINALMENTE NA MINHA CIDADE...




Match Point.

Woody e Scarlett, me aguardem. Estou chegando.

Terça-feira, Março 14, 2006


TSUI HARK: HOJE E ONTEM

Passados os sete dias de luto pela vitória de Crash no Oscar, tentemos voltar à programação normal.

Fui incumbido de escrever uma crítica ao novo filme de Tsui Hark, Seven swords - que parece que terá tradução literal no Brasil, ou seja, Sete espadas (creio que o título original, Chat gim, signifique isso também). Bom, eu tinha visto o filme no ano passado via eMule e, por dever de casa, revi-o ontem. Não vou falar muito, porque logo o texto fica pronto e eu republico aqui. Mas posso adiantar que é uma obra-prima. Não bastassem todos os méritos e a maturidade de Hark, diretor prolífico com dezenas de títulos realizados em 25 anos de carreira, ainda mostra o quanto Zhang Yimou pode mesmo ser chamado de "carnavalesco" por conta de suas duas incursões no subgênero wuxia pian (filme de cavaleiro marcial), que foram Herói e O Clã das Adagas Voadoras. Só vendo...





E dentro do dever de casa, decidi desenterrar o primeiro longa do Hark, que eu ainda não tinha visto. The butterfly murders (ou Die bian em chinês) data de 1979 e é, no mínimo, muito estranho e razoavelmente datado. Em alguns momentos eu lembrava perfeitamente daqueles antigos seriados da Manchete (Jaspion, Changeman, Jiraya), por conta dos efeitos sonoros onomatopéicos e de alguns cortes bruscos da montagem.

A trama trata de misteriosas mortes cometidas por borboletas assassinas (!). Um grupo de guerreiros fica isolado num castelo na tentativa de descobrir o que está acontecendo, e logo descobrem que alguém está controlando os inofensivos animais para atacar humanos. Mistura de filme de mistério (com direito a revelação dramática de quem é o assassino) e horror, tem bons momentos, mas no geral denota amadorismo e pouco controle de narrativa, tornando-se confuso vez ou outra. E o criminoso aparece em cena usando aquelas armaduras típicas de castelo assombrado. Duvida? Saca só:





É, Tsui Hark, que evolução, hein!
Curiosidade: apesar de sempre creditado como chinês, Tsui Hark nasceu na Conchinchina, território hoje conhecido como Vietnã.

Terça-feira, Março 07, 2006


LUTO



Este blog está de luto pela vitória de Crash - No Limite como melhor filme no Oscar 2006.
Sem palavras...

Domingo, Março 05, 2006


UM DOMINGO MELANCÓLICO...

Quinta-feira, Março 02, 2006


A CASA DO ESPANTO

Bem assustador esse Terror em Amityville, clássico de Stuart Rosenberg que eu ainda não tinha visto. Como também não vi a refilmagem lançada no ano passado, aproveitei a oportunidade pra resgatar a pérola original. E que filme incômodo! A idéia de que nem Deus nem o homem têm controle sobre as forças do demônio é assombrosa e já rendeu obras antológicas - a se pensar, de cara, em O exorcista. Aliás, este aqui é primo-irmão do filme de William Friedkin, sendo que, no caso, a endemoniada da história é a casa onde uma família se instala um ano depois do massacre ocorrido no local, quando um jovem de 20 anos matou a sangue frio pai, mãe e quatro irmãos.

O filme já começa assombroso, com um plano de conjunto da mansão em meio à chuva e uma mistura de sons de raios, trovões e tiros - e a frente do casarão se assemelhando a um rosto puramente do mal. Depois as cenas do massacre retornarão quando a corretora estiver apresentando os cômodos aos novos moradores. Segue tensão crescente e a sensação extremamente angustiante de impotência ante os fatos que ali ocorrem. O diretor Rosenberg consegue criar essa atmosfera sem grandes apelações de estilo, apenas na insinuação e na ambientação meio claustrofóbica, se utilizando ainda de algumas imagens literalmente infernais (as moscas, as alucinações, o "poço" na escadaria). Sem falar nos rostos de pavor dos protagonistas (James Brolin, Margot Kidder e Rod Steiger, todos ótimos). Tem, inclusive, uma perseguição com machado em punho, um ano antes de O iluminado do Kubrick e seu Jack Nicholson grunhinho "Here's Johnny!".

Apesar de tudo isso, o final acaba sendo condescendente demais, em vista do clima criado até ali. A morbidez encapetada dá lugar a um desfecho que beira o frustrante. E o que é aquela volta à casa pra buscar o cachorro? De qualquer maneira, terror dos bons. Agora é ver o que o Michael Bay fez na nova versão como produtor. Alguém arriscou?


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