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Terça-feira, Março 21, 2006
Posted
00:46
by MARCELO MIRANDA
A ALIANÇA DE WOODY ALLEN x O ACIDENTE DE SEAN PENN
E finalmente desaguei e assisti ao tão aguardado Match Point, novo e incensado filme do bom e velho Woody Allen. Depois de alguns tropeços (Igual a tudo na vida, que até curto um pouco, e Melinda e Melinda, que não me convence) numa carreira brilhante, eis que Woody volta à toda, num tragicômico romance envolvendo um irlandês, uma inglesa e uma americana. Todo mundo deve estar cansado de saber do filme, de seus desdobramentos na linha Crime e castigo, do estilo mais seco e direto da direção e da narrativa, etc etc etc. Então, vamos direto ao que, pra mim, chama mais atenção no filme.
(antes, não dá pra evitar dizer o quanto Allen é ótimo contador de histórias, dosando cada plano e cada corte nos seus momentos certos e entregando bem devagar ao espectador os detalhes da trama. E claro, a Scarlet Johansson, além do talento já sabidamente conhecido, está dolorosamente linda e sensual).
AVISO: A PARTIR DAQUI, VOU CONTAR DETALHES "ÍNTIMOS" DO ENREDO DE MATCH POINT E DE A PROMESSA, DE SEAN PENN
Se todo o desenvolvimento do drama de Chris (o protagonista) é realizado de forma incrivelmente convincente, cheio de ambigüidades e algumas boas surpresas, se sua ascensão social vai se dando na base da sorte que ele tanto preza (acima da fé e do trabalho), o roteiro de Woody Allen reserva um artifício narrativo que muito me incomoda, resolvendo a situação moral proposta pelo filme de forma rasa e nada condizente com a complexidade do que havia sido apresentado.
Chris decide eliminar Nola. Arma o crime perfeito e é bem sucedido - menos quando vai se livrar das provas. Por azar, deixa a aliança cair no chão. Aliança = laço. Estaria Allen nos dizendo que aquela jóia seria a maldição de Chris, a forma como Nola não deixaria de enlaçá-lo de alguma forma? Tudo se encaminharia para isso, não fosse a "sacadinha" do diretor em inserir um traficante que encontrou a aliança e acabou levando a culpa pelo crime. Chris se livra, e nem fica sabendo.
Ora, estamos aqui diante de um simplismo dos mais "bacanas". Depois de insinuar o tempo todo que a vida de Chris é regida pela sorte, Allen ameaça desafiar essa idéia para em seguida voltar atrás e mantê-la, dando ao filme certo caráter conservador - no sentido de não se aprofundar nas próprias questões levantadas. Esse detalhe da aliança encontrada pelo traficante me encunca, porque, em vez de manter o enredo no eixo, creio que o tira totalmente. Prende o desfecho a um deslize puramente escolhido por Allen, encaixotando uma angústia e uma culpa que poderiam ser ainda mais desenvolvidas. Se a aliança liberta Chris, ela prende e sufoca o final da saga de Chris.
O que me faz relacionar Match Point a outros dois filmes. O primeiro, óbvio, é Crimes e pecados, do próprio Woody Allen. A trama é a mesma: homem casado decide se livrar da amante literalmente eliminando-a do caminho. Porém, o personagem de Martin Landau não tinha qualquer artifício para livrar a sua cara. Se ele escapava incólume do crime, não era porque o roteiro assim pedia, mas porque não havia nada que o levasse à uma condenação oficial. Ele próprio carregaria aquela culpa vida afora. Mesmo que conseguisse abafar a amargura, ela sempre viria à tona, ainda que como roteiro de um filme de ficção (como ele descreve ao final).
Temos piedade desse homem, porque ele foi artífice de uma barbaridade, tem plena consciência disso e sabe que pagará pelo resto de seus dias, nunca deixando de pensar no assunto. Com Chris, não: o espectador pode até achar "bacana" o lance da aliança, mas não fica cúmplice do personagem. Sente, no mínimo, alívio por ele - mas ele próprio, nem tanto, pois não fica sabendo da enrascada na qual conseguiu não entrar.
O que nos leva ao outro filme relacionável: A promessa, dirigido pelo Sean Penn e pouquíssimo visto. Não lembro de lugar algum na imprensa lembrando desta pequena obra-prima ao falar de Match Point (e me corrijam se souberem). Pois ambos tem relações extremamente íntimas, são primos-irmãos. No filme de Penn, o detetive vivido por Jack Nicholson tem certeza de que está na pista de um matador de garotinhas. Arma um plano mirabolante para capturá-lo, colocando em risco a vida da filha de sua nova esposa. Mas o assassino não aparece na emboscada, e o policial é tido como louco paranóico.
O que realmente acontece é obra do acaso, também: na ida para o encontro com a menina, o criminoso sofre um acidente e não sobrevive. Ninguém jamais saberá que ele era o culpado pelas mortes das garotas, e Nicholson viverá até seu último dia sem saber se estava mesmo louco ou algo saíra errado. Tanto aqui quanto em Match Point, a situação-chave do filme é resolvida por uma jogada de roteiro. Só que, se em Allen ela aparece como uma "sacada", uma artimanha para livrar a cara de seu protagonista e deixar a platéia pensando no quanto o filme é engenhoso, na produção de Sean Penn as coisas vão muito mais a fundo. A decisão de omitir dos personagens a existência do criminoso vai provocar agonia eterna no policial. Vai torná-lo um fantasma de si mesmo. Destrói seu relacionamento, seu trabalho, suas amizades, talvez sua sanidade. Ele jamais será o mesmo. Isso porque o acaso não permitiu que a verdade lhe aparecesse aos olhos. No caso de Chris, é tudo mais simples e direto: ele mata a amante grávida, escapa da polícia e volta à vidinha que tanto lutou para se manter - não à base de um encadeamento crescente e contextualizado de situações, mas por um acontecimento pontual e, repito, artificial.
À aliança de Allen, eu prefiro ficar com o acidente de Penn. Partindo do mesmíssimo tipo de desfecho, este consegue se desvencilhar de forma muito mais brilhante do que aquele.
Domingo, Março 19, 2006
Posted
19:17
by MARCELO MIRANDA
UM SOPRO NO VELHO GÊNERO
Há chances do faroeste realmente não ter morrido, como já escrevi numa coluna no Digestivo Cultural. Este curioso A Proposta (2005) dá novo fôlego para um gênero reconhecidamente desgastado, que desde Os imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood, não surge com um filme de impacto verdadeiro. O improvável Kevin Costner quase conseguiu, mas ficou apenas nas homenagens e referências de seu eficiente Pacto de justiça (2003), e Ron Howard achou que as pradarias eram só lugar de feitiçaria e vingança no quase-bom Desaparecidas (2003). Mas nenhum deles mexia verdadeiramente com as emoções.
Ao menos isso, John Hillcoat consegue. Amparado pelo ótimo roteiro do músico Nick Cave, A proposta retoma a idéia do faroeste melancólico e depressivo, nascido com Matei Jesse James (1949) e Matar ou morrer (1952), para contar a trama envolvendo três irmãos irlandeses delinqüentes e um oficial tentando fazer o que acha certo. A proposta do título vai colocar tanto o capitão quanto um dos membros do trio criminoso em situações-limite difíceis de serem resolvidas de forma fria e rápida, criando qeustionamentos genuínos sobre qual a melhor ação a ser feita.
Hillcoat prefere filmar lindas paisagens da Austrália a apostar só em cenas de ação e tiroteio. Guy Pearce anda a cavalo em busca do irmão mais velho ao som de uma música sussurrada, quase distante, mas muito presente. O visual é dos mais sujos, com direito a muito mosquito e corpos (inclusive algumas boas cenas de violência gráfica, lembrando um pouco nosso amigo Peckinpah). Mexeu comigo, particularmente, o momento em que o jovem prisioneiro é açoitado, e a chibata escorre sangue como poucas vezes se viu de forma tão crua (tá, A paixão de Cristo não vale...).
As relações humanas são desenvolvidas, e todas destruídas, ao longo da narrativa. Família é o tema central que permeia o filme, e é a família a instituição em jogo em cada decisão e a que primeiro será prejudicada com qualquer atitude dos personagens. A proposta ainda consegue espaço para inserir questões da colonização australiana, na presença de aborígenes que têm função equivalente aos escravos americanos.
Belo filme. Ainda não vi a série Deadwood, que também revisita o faroeste. Se ela for mesmo tudo o que dizem, somada a A proposta e, parece, Os três enterros de Melquiades Estrada, de Tommy Lee Jones (estréia no Brasil em abril, como informa o colega Leandro Caraça), podemos estar tendo uma "retomada" do western sob novo e estimulante ponto de vista. Já não era sem tempo.
Sábado, Março 18, 2006
Posted
23:22
by MARCELO MIRANDA
IMPERDÍVEL EM DVD
Humor e muito tiroteio da melhor qualidade.
Interpretação antológica de Terence Hill, perfeito na dobradinha com Henry Fonda.
Música absurda de linda do Ennio Morricone.
Um dos mais belos e emocionantes finais do gênero faroeste.
É. Não dá mesmo pra ficar sem.
Quinta-feira, Março 16, 2006
Posted
00:10
by MARCELO MIRANDA
FINALMENTE NA MINHA CIDADE...
Match Point.
Woody e Scarlett, me aguardem. Estou chegando.
Terça-feira, Março 14, 2006
Posted
17:50
by MARCELO MIRANDA
TSUI HARK: HOJE E ONTEM
Passados os sete dias de luto pela vitória de Crash no Oscar, tentemos voltar à programação normal.
Fui incumbido de escrever uma crítica ao novo filme de Tsui Hark, Seven swords - que parece que terá tradução literal no Brasil, ou seja, Sete espadas (creio que o título original, Chat gim, signifique isso também). Bom, eu tinha visto o filme no ano passado via eMule e, por dever de casa, revi-o ontem. Não vou falar muito, porque logo o texto fica pronto e eu republico aqui. Mas posso adiantar que é uma obra-prima. Não bastassem todos os méritos e a maturidade de Hark, diretor prolífico com dezenas de títulos realizados em 25 anos de carreira, ainda mostra o quanto Zhang Yimou pode mesmo ser chamado de "carnavalesco" por conta de suas duas incursões no subgênero wuxia pian (filme de cavaleiro marcial), que foram Herói e O Clã das Adagas Voadoras. Só vendo...
E dentro do dever de casa, decidi desenterrar o primeiro longa do Hark, que eu ainda não tinha visto. The butterfly murders (ou Die bian em chinês) data de 1979 e é, no mínimo, muito estranho e razoavelmente datado. Em alguns momentos eu lembrava perfeitamente daqueles antigos seriados da Manchete (Jaspion, Changeman, Jiraya), por conta dos efeitos sonoros onomatopéicos e de alguns cortes bruscos da montagem.
A trama trata de misteriosas mortes cometidas por borboletas assassinas (!). Um grupo de guerreiros fica isolado num castelo na tentativa de descobrir o que está acontecendo, e logo descobrem que alguém está controlando os inofensivos animais para atacar humanos. Mistura de filme de mistério (com direito a revelação dramática de quem é o assassino) e horror, tem bons momentos, mas no geral denota amadorismo e pouco controle de narrativa, tornando-se confuso vez ou outra. E o criminoso aparece em cena usando aquelas armaduras típicas de castelo assombrado. Duvida? Saca só:
É, Tsui Hark, que evolução, hein!
Curiosidade: apesar de sempre creditado como chinês, Tsui Hark nasceu na Conchinchina, território hoje conhecido como Vietnã.
Terça-feira, Março 07, 2006
Posted
01:04
by MARCELO MIRANDA
LUTO
Este blog está de luto pela vitória de Crash - No Limite como melhor filme no Oscar 2006.
Sem palavras...
Domingo, Março 05, 2006
Quinta-feira, Março 02, 2006
Posted
00:43
by MARCELO MIRANDA
A CASA DO ESPANTO
Bem assustador esse Terror em Amityville, clássico de Stuart Rosenberg que eu ainda não tinha visto. Como também não vi a refilmagem lançada no ano passado, aproveitei a oportunidade pra resgatar a pérola original. E que filme incômodo! A idéia de que nem Deus nem o homem têm controle sobre as forças do demônio é assombrosa e já rendeu obras antológicas - a se pensar, de cara, em O exorcista. Aliás, este aqui é primo-irmão do filme de William Friedkin, sendo que, no caso, a endemoniada da história é a casa onde uma família se instala um ano depois do massacre ocorrido no local, quando um jovem de 20 anos matou a sangue frio pai, mãe e quatro irmãos.
O filme já começa assombroso, com um plano de conjunto da mansão em meio à chuva e uma mistura de sons de raios, trovões e tiros - e a frente do casarão se assemelhando a um rosto puramente do mal. Depois as cenas do massacre retornarão quando a corretora estiver apresentando os cômodos aos novos moradores. Segue tensão crescente e a sensação extremamente angustiante de impotência ante os fatos que ali ocorrem. O diretor Rosenberg consegue criar essa atmosfera sem grandes apelações de estilo, apenas na insinuação e na ambientação meio claustrofóbica, se utilizando ainda de algumas imagens literalmente infernais (as moscas, as alucinações, o "poço" na escadaria). Sem falar nos rostos de pavor dos protagonistas (James Brolin, Margot Kidder e Rod Steiger, todos ótimos). Tem, inclusive, uma perseguição com machado em punho, um ano antes de O iluminado do Kubrick e seu Jack Nicholson grunhinho "Here's Johnny!".
Apesar de tudo isso, o final acaba sendo condescendente demais, em vista do clima criado até ali. A morbidez encapetada dá lugar a um desfecho que beira o frustrante. E o que é aquela volta à casa pra buscar o cachorro? De qualquer maneira, terror dos bons. Agora é ver o que o Michael Bay fez na nova versão como produtor. Alguém arriscou?
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