Impressões Cinéfilas

Quarta-feira, Julho 05, 2006


REAPARECER PARA SUMIR. TUDO VALE POR SERGIO LEONE

Sim, estou sumido há mais de um mês. Não, não fui seqüestrado, abduzido nem nada parecido. Estou numa fase tumultuada na vida, com mudanças, novos trabalhos, novas relações e problemas de saúda na família. Ainda voltarei ao blog e contarei tudo, se é que alquém se interessa.

Mas não posso deixar passar o belo e informativo texto de Mário Sérgio Conti sobre o diretor dos diretores, o italiano Sergio Leone. Nunca admirei Conti na posição de crítico de cinema. Ele escreveu o brilhante Notícias do Planalto e é um dos maiores e melhores jornalistas brasileiros, mas quando fala de cinema costuma ser deveras rabugento e meio sem noção. Mas às vezes acerta, e aí é pra arrasar. Lembro de seu texto sobre Lavoura Arcaica, publicado na Folha, em meados de 2001. Um primor.

Agora, ele fala de Sergio Leone. Melhor: assume admiração pelo mestre, o que conta muitos pontos a seu favor. Com o devido respeito, republico abaixo o texto de Conti. A quem preferir ler no site, basta clicar aqui.

Sergio Leone: sub-gênero e sub-história

por Mário Sérgio Conti

"Something to do with death", a biografia de Sergio Leone escrita pelo inglês Christopher Frayling, é um livro excessivo sobre um personagem marginal da história do cinema. Ele tem quase 600 páginas, fotografias, fichas técnicas dos filmes de Leone e o autor parece ter entrevistado todas as pessoas que alguma vez tiveram contacto com o cineasta italiano, de Clint Eastwood a Robert Aldrich. É um livro bem pesquisado, bem escrito, que se lê com agrado. Mas que se chega ao fim da leitura e se constata que não há motivos para lê-lo. A não ser que se admire Sergio Leone.

Há um excelente motivo para admirá-lo. Ele leva o nome de "Era uma vez no Oeste", o filme que Leone lançou em 1968, com Henry Fonda, Charles Bronson e Claudia Cardinale. Baseado numa história de Leone, Bernardo Bertolucci e Dario Argento, o filme funciona como uma antologia das melhores cenas dos melhores faroestes americanos. Funciona também junto com "Meu ódio será tua herança", de Sam Peckinpah, como o último dos faroestes - a partir deles, o gênero entra numa decadência aparentemente irremediável. Funciona, ainda, como uma demonstração do poder construtor e destruidor do capitalismo, simbolizado no filme pela estrada-de-ferro que, partindo da costa leste americana, chega finalmente ao Pacífico.

Apesar de citar faroestes em profusão, de usar um método de construção que seria associado ao pós-modernismo, "Era uma vez no Oeste" ultrapassa não só o pastiche como deixa para trás o próprio gênero, o faroeste. Ele tem um sopro épico, que o coloca em definitivo na parca galeria dos clássicos do cinema. O sopro é dado pelas imagens concebidas por Leone. Imagens lentas, formalistas até o último fotograma, repletas de close-ups de olhos, sublinhadas pela música de Ennio Morricone. Em suma, é um filme profundo e complexo, uma obra de arte, e ainda assim é um espetáculo de massas.
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A influência de Leone sobre os seus contemporâneos foi enorme. O seu legado, no entanto, é diminuto. Ele transitou entre dois sub-gêneros de uma cinematografia marginal, a italiana, hoje completamente esquecidos, a "peplum" e o "western spaguetti". Peplum é a forma latina da palavra grega "peplos", que nomeava a túnica curta usada na antiguidade. Em suma: brutamontes musculosos usando saiotes, enfrentando monstros mitológicos e seduzindo, castamente, beldades extremamente maquiadas. O gênero floresceu nos anos 50 e 60, foi exportado para o mundo inteiro e chegou a atrair os americanos a filmarem na Itália superproduções como "Quo vadis?", "Sansão e Dalila" e "Ben-Hur".

Os peplum eram produzidos em linha de montagem. Eram filmes delirantes, no sentido histórico, e cafonas, no estético. Só em 1964, Domenico Paolella dirigiu os seguintes peplum: "Maciste contra os mongóis", "Hercúles contra Spartacus", "Hércules e os tiranos da Babilônia"e "Golias e a conquista de Bagdá". Os americanos, quando se meteram no gênero, não o melhoraram. A primeira frase de "Sodoma e Gomorra", dirigido por Robert Aldrich, tem uma das frases involuntariamente mais engraçadas de toda a história da sétima arte: "Cuidado com as patrulhas sodomitas".

Leone se formou na onda dos peplum, como diretor-assistente e diretor de segunda unidade e, finalmente, como diretor de "O colosso de Rodes". Nessa escola, aprendeu a lidar com panorâmicas, grandes espaços, multidões e, forçando um pouco a barra, personagens míticos.

Assim como os faroestes americanos tiveram o seu apogeu com um diretor italiano, Sergio Leone, os peplum italianos chegaram ao ápice com um diretor americano, Stanley Kubrick, em "Spartacus".
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No seu segundo gênero (na verdade um sub-gênero), os faroestes-espaguete, Leone foi inventor e mestre. Ele o inventou com "Por um punhado de dólares", em 1964, e o enterrou, superando-o, quatro anos depois, com "Era uma vez na América", [nota do Marcelo Miranda: aqui, o Conti erra o nome do filme. Ele se refere a "Era uma vez no Oeste"]. Os faroeste-espaguete eram paródicos, e passaram por uma metamorfose, indo da seriedade ao humor escrachado, do tipo o Gordo e o Magro, com a série "Trinity".

Os faroestes de Leone são infinitamente melhores que os exemplares da tendência, as bobagens com Sartana, Django, Apocalypse Joe, Ringo e Sabata. Neles estão presentes as marcas do seu estilo visual. E neles está um íncone, descoberto por Leone, Clint Eastwood, que era um ator de segunda categoria da televisão americana.
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Sergio Leone também fez outros dois filmes "sérios", "Era uma vez na revolução" [nota do Marcelo Miranda: o filme se chama no Brasil "Quando explode a vingança"], de 1971, e "Era uma vez na América", de 1984. São filmes interessantes, que valem a pena rever, sobretudo o segundo. Eles, no entanto, não alcançam a altura de "Era uma vez no Oeste".

Nem os peplum nem os faroeste-espaguete marcaram o cinema. Nem Leone. Ele tem o seu punhado de admiradores-cinéfilos. Às vezes, é até imitado por Quentin Tarantino e John Woo. Chega de crítica.
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Sou um admirador de Leone. Por motivos outros. Criança, vi "O colosso de Rhodes". É um dos primeiros filmes do qual me lembro. Pela grandiosidade. Por ser maior que a vida. Só muito depois vim a saber que Leone o dirigira. Tornei-me seu fã, acrítico, por que sempre recuperava o impacto que tive na infância.

Falei rapidamente com Leone, em 1984. No Festival de Cannes daquele ano, "Era uma vez na América" estreou mundialmente. Num coquetel, o vi. Apresentei-me, disse que era jornalista brasileiro. Ele cantou versos do tema de Antonio das Mortes, composto por Sergio Ricardo para "Deus e o diabo na terra do sol", de Glauber Rocha. Elogiou o cineasta baiano. Chegou mais gente e não continuamos a conversa. Ele era grande, barbudo, tinha voz sonora e gestos largos. Mas era bem menor que seus filmes.


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