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Sexta-feira, Dezembro 29, 2006
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22:23
by MARCELO MIRANDA
AMANTES CONSTANTES, de Philippe Garrel
Os Sonhadores, do italiano Bernardo Bertolucci, causou frisson (para mal e para bem) ao retratar a alienação de três jovens em meio aos movimentos revoltosos do Maio de 1968 na França. Havia certa ingenuidade no trabalho de Bertolucci, em especial na forma como desenhava os personagens e inseria seus pensamentos em contextos cinematográficos - bonita homenagem, mas com um certo ar de "e daí??".
Pois está em cartaz por aí o radicalismo e a ousadia visual e narrativa de uma das poucas obras-primas a aportarem no circuito brasileiro em 2006. Amantes Constantes não é o primeiro filme de Philippe Garrel - muito pelo contrário, o cineasta já é veteraníssimo na Europa. Somente agora podemos conhecer em tela grande alguma coisa da sua obra. E que "alguma coisa" é essa. Amantes Constantes retorna ao Maio de 1968, iniciando nos piquetes de rua mobilizados por estudantes insatisfeitos com a situação política e econômica da época.
Nos diversos pequenos núcleos do filme, o elemento comum é François (vivido pelo filho do diretor, Louis Garrel, que também esteve em Os Sonhadores), jovem que se envolve nos conflitos contra as autoridades. O que engrandece Amantes Constantes, porém, não é apenas o retrato seco da revolta, mas o momento posterior, aquele ócio que se seguiu a tanto movimento. O que fazer depois que a guerra urbana acaba?
Jovens sem perspectiva tinham em 1968 algo pelo que lutar. Em 1969, isso se acabou. Sobraram os restos e escombros, os contatos humanos, as novas amizades, os novos amores. É esta sobra o foco maior de Amantes Constantes. Festas regadas a dança, drogas, azaração. O olhar, o contato de pele, o remexer de corpos, tudo é captado pela câmera de Garrel como se ela não estivesse lá, e sim fosse mais um dos presentes nos encontros de desconhecidos com seus próprios não-afazeres.
Novamente François é quem serve de ponto de partida para a percepção da realidade ao redor. Ele e o preto-e-branco fluorescente dado pela fotografia de William Lubtchansky. Poucas vezes um filme conseguiu captar com tamanha excelência uma ambientação de tempos passados de forma tão cristalina. O objetivo de fazer a ação aparentar estar ocorrendo realmente nos anos 60 é reforçada pela ousada opção de se realizar um filme de três horas somente com cenas em preto-e-branco.
Garrel acredita no impacto de suas imagens e na sensibilidade do público em saber sentir o que tais imagens exalam ? ora sufocamento e apreensão pelo que pode vir, ora tédio e apatia por aquilo que não veio. Amantes Constantes é filme sensorial, cujo rigor da direção não se deixa mostrar. São visíveis os dispositivos de Garrel para chegar aos seus intentos, desde a linguagem narrativa até a estética. Porém, isso não serve contra o filme, como algumas vezes acontece.
Está totalmente a seu favor, na proposta política de um cinema que quer registrar um instante não-político, ou pós-político. E a escolha de Philipe Garrel por filmar o amor que nasce nesse universo é apenas outro elemento a atestar sua crença, acima de todas as outras, nos sentimentos humanos - dos personagens, que, sem saída, apenas se entregam aos prazeres aparentes que os rodeiam; e dos nossos, espectadores, que assistimos maravilhados ao caminhar lento e paciente da câmera de Garrel. O desfecho, paradoxalmente sutil e apoteótico, só atesta ao mesmo tempo a desesperança de uma vida sem amor e a esperança de uma vida politizada. Filme incrível.
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02:06
by MARCELO MIRANDA
JOSÉ MOJICA MARINS E ZÉ DO CAIXÃO: O RETORNO
Sem muita a dizer, convido todos a lerem com grande atenção a ótima entrevista de Ivan Finotti com o grande José Mojica Marins, o Zé do Caixão, um dos grandes cineastas vivos (e agora em atividade de novo!). Publicada na Folha de São Paulo. Basta clicar aqui.
Sexta-feira, Dezembro 22, 2006
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02:34
by MARCELO MIRANDA
O CÉU DE SUELY: FALSO PARAÍSO
O cearense Karim Aïnouz dirigiu um dos filmes mais impactantes e políticos do cinema brasileiro pós-anos 90, que foi Madame Satã. A história daquele negro homossexual da Lapa dos anos 30 guardava em si fortíssima carga de contestação e crítica ao comportamento social. Ou, como o próprio Karim prefere dizer: "minha intenção é falar da cordialidade, um sentimento complexo no Brasil".
No seu segundo filme, Karim continua o estudo da cordialidade. O Céu de Suely já colheu, até agora, 18 prêmios em festivais nacionais e internacionais. "Estou muito surpreso com tudo isso. É uma loucura, porque é um filme pessoal, emocionalmente duro, feito sem caminhos específicos e à base de muita experimentação", conta Karim. A modéstia faz bem a O Céu de Suely. Karim Aïnouz é adepto da máxima de que, no cinema, menos é mais. Ele escolhe um viés de delicadeza e sutileza para falar sobre Hermila, jovem cearense que volta à sua pequena cidade natal depois de dois anos curtindo uma paixão avassaladora em São Paulo. Carregando um filho no colo, ela espera ansiosa a chegada do marido, que não virá.
É nos instantes, gestos, olhares e recortes de uma vida cotidiana sem perspectivas que O Céu de Suely se sustenta. Apesar de se situar num município marcado pela pobreza nordestina, não interessa a Karim focar essa pobreza. Assim como o amigo Marcelo Gomes fez em Cinema, Aspirinas e Urubus, o nordeste aparece como cenário, como algo que apenas está lá, sempre presente e opressor, o que valoriza o olhar da protagonista ao que está ao redor: a relação com a família, as noitadas regada a danças e flertes, as conversas com a melhor amiga, o tímido romance com um motoboy.
São todos fragmentos de espera e possibilidades. Hermila dá uma chance ao próprio mundo quando retorna para casa, mas abre mão disso ao decidir se afastar outra vez. Na falta de dinheiro, ela rifa uma "noite no paraíso". Só que este será um paraíso falso, uma utopia sobre a qual a moça está consciente. Eticamente, Hermila acredita fazer a coisa certa. Karim Aïnouz ressurge com algo que já marcava Madame Satã: o corpo em cena.
A câmera capta o corpo inserido num contexto específico, seja no gingado e na movimentação exagerada de Lázaro Ramos como um malandro carioca, seja agora na introspecção e sensualidade de Hermila Guedes. O corpo, para Karim, é elemento definidor da ação, e no novo filme ele radicaliza tal idéia: a protagonista rifa o próprio corpo para fugir do sofrimento. "O cinema é documentação da vida e expressão da minha paixão pelo ser humano. E o corpo é algo presente no tempo e no espaço, algo significativo nessa valorização da vida", reflete. É também política a forma como o corpo é inserido no cinema de Aïnouz.
Os personagens principais se postam, psicológica e fisicamente, contra o sistema vigente, mas não de uma forma conscientemente politizada, e sim de embate e conflito naturais. Não é por outro motivo que os dois personagens dos filmes tenham nome e, ainda assim, assumam pseudônimos - João Francisco se torna Satã; Hermila vira Suely. A metamorfose não os torna outras pessoas. Situa-os como seres que se projetam contra o preconceito, a intolerância e o próprio destino.
O desfecho de O Céu de Suely não deixa dúvidas quanto a isso: poucas vezes um plano fixo conteve tanto movimento e significado de fuga, desilusão e, paradoxalmente, esperança. O aspecto de conflito e embate dos filmes de Karim Aïnouz são confirmados pelo próprio diretor. "Teria dificuldades de filmar no Brasil sem tocar em questões políticas. O cinema pode ser instrumento para os personagens se colocarem frontalmente contra aquilo que não aceitam", diz.
Ainda que aborde questões semelhantes, o novo trabalho é razoavelmente diferente ao anterior. Karim conta que pretendia retornar às suas raízes depois da incursão no universo carioca, em Madame Satã. "Eu tinha feito um filme sobre o Rio de Janeiro, um filme de muito furor e potência. Em seguida queria algo mais quieto e silencioso, num outro tom".
Na tentativa de manter a protagonista sempre fortalecida que o cineasta decidiu cortar quase todas os momentos em que Hermila Guedes chorava. "Numa primeira versão, tinha uma cena de seis minutos de choro. Só que isso iria fragilizar a personagem, e eu a queria sempre firme, ainda que melancólica".
Segunda-feira, Dezembro 18, 2006
Posted
10:33
by MARCELO MIRANDA
EU NO JOSÉ DIRCEU
Fui citado pelo José Dirceu. O ex-ministro leu uma crítica minha, redigida numa coluna do Digestivo Cultural, e reproduziu no blog dele.
Convido a todos para acessarem este endereço. Rolem a página até o post "Uma resenha sobre o documentário Hercules 56". Ou então cliquem direto aqui.
Bacana, hein! Agora vou pedir pro Geraldo Alckmin me citar também! :-P
Quinta-feira, Dezembro 14, 2006
Posted
20:44
by MARCELO MIRANDA
CASSINO ROYALE - desespero e afobação
A fórmula de linguagem da cinessérie protagonizada pelo agente inglês James Bond é fartamente conhecida: um prólogo seguido da abertura musical, a apresentação do perigo que o agente vai enfrentar, a explicação de sua missão, o desenvolvimento e os meandros da espionagem, o enfrentamento final com o vilão (e no meio, muita bebida e mulheres).
Pois na ânsia de renovar o clima da franquia, 007 - Cassino Royale já distorce a fórmula logo no começo. Em vez do famoso alvo "localizando" James Bond e focando o enredo, o filme abre com um plano externo; e em vez da cor, o preto-e-branco.
A nova produção tem como principal objetivo, desde este prólogo renovado, a modificação quase total dos caminhos que os filmes anteriores seguiam. Nada de carros invisíveis, equipamentos e traquitanas, antagonistas dominadores de mundo.
James Bond agora é um autêntico espião do século XXI, inserido no mundo pós-11 de Setembro a tentar impedir o financiamento ao terrorismo. Neste sentido, o diretor Martin Campbell - que já tinha dado nova cara à série há alguns anos, em 007 contra GoldenEye - arma todo o seu filme em torno desse renascimento, da idéia de que o espectador assiste a um primeiro sopro de um personagem que ainda está se formando em todos os aspectos.
Há um sentido de urgência quase adolescente nas ações de Bond. Ele desobedece a superiora, viaja sem autorização, rouba informações, cria incidentes diplomáticos. A inconsequência torna-se característica do espião, mas não como nos filmes anteriores. Agora, esse ímpeto de quebrar regras é menos por convicção e mais por pura imaturidade ("acho que te promovemos cedo demais", comenta M, a superiora). Bond, por mais calculado que seja, não parece medir seus atos.
Adequando-se a este olhar específico, Campbell movimenta a câmera na busca pelos ângulos que mais transmitam a noção de desespero e afobação de Bond. Junto ao montador Stuart Baird, há excelente escolha de planos e contraplanos - de decupagem, enfim - que, por mais que haja movimentos contínuos, jamais deixa o foco desaparecer. Não há, aqui, aquela mania irritante de cortes e mais cortes típica de alguns modernos filmes de ação e terror, cujas sequências mais parecem um grande emaranhado de imagens montadas numa "estética de trailer".
A combinação da forma e conteúdo, aliada à preocupação em colocar o espião numa realidade muito próxima da nossa (por mais que as situações específicas vividas por ele sejam exageradamente fictícias) dá um surpreendente frescor à nova aventura de James Bond. O ator britânico Daniel Craig mistura o melhor de cada um dos principais atores a terem interpretado o espião: há o jeito irônico e seco de Sean Connery; o deboche de Roger Moore; a violência brutal de Timothy Dalton; e o lado meio bonachão de Pierce Brosnan. Ainda assim, neste caldeirão, Craig cria um Bond único e muito particular, que já marca a franquia desde as cenas iniciais. Ao final de Cassino Royale, é Craig quem fica na mente, e não a quem ele referencia.
Sábado, Dezembro 09, 2006
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13:52
by MARCELO MIRANDA
APOCALYTO, de Mel Gibson
Estreou o novo filme-evento do Mel Gibson nos EUA. Saindo da morte de Cristo e indo para as guerras maias, o diretor fez Apocalypto em meio a muito mistério. Rodou o filme na língua da época (como fizera com A paixão de Cristo), contratou atores não-profissionais e inseriu altas doses de violências. Alguém escreveu a respeito do filme:
Menu visual que inclui cabeças cortadas (muitas) com seus respectivos corpos, corações arrancados 'da raiz' ou lacerações e crânios partidos que jorram sangue.
Já gostei.
Quinta-feira, Dezembro 07, 2006
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23:56
by MARCELO MIRANDA
FRASES POMPOSAS EM FILMES BRASILEIROS DE DITADURA
Por que essas grandes produções de safra recente do cinema brasileiro que aborda períodos ditatoriais no país têm sempre uma frase "marcante", "pomposa" e que é falada em cena como se fosse o ápice do enredo, mas acabam soando tão ridículas que esvaziam as cenas em questão? É cruel pensar algo assim ("ridículo") quando se constata serem os locutores de tais sentenças figuras tão importantes, cada uma à sua forma, na história nacional. Mas é difícil se segurar impassível na cadeira quando atores proferem em tom solene ou de empáfia ou de pseudo-revolta tais comentários.
Seguem apenas três, em ordem decrescente de lançamento do filme:
"Beija a mão do Papa, beija. Traidor da Igreja... traidor do Brasil..."
Cássio Gabus Mendes, no papel do delegado Sérgio Paranhos Fleury, dirigindo-se a Frei Tito (Caio Blat) numa sessão de tortura. Em Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton. O filme passou no Festival de Brasília e estréia em 2007.
"Vocês não podem tirar o direito de uma mãe de enterrar o seu filho!"
Patrícia Pillar, de dedo em riste, no papel da estilista Zuzu Angel protestando num tribunal contra a falta de informações do paradeiro do filho militante. Em Zuzu Angel (2006), de Sérgio Rezende.
"Eu estou grávida de Luís Carlos Prestes!"
Camila Morgado, bradando aos quatro cantos o fruto da relação com o comunista que ela nunca mais veria. Em Olga (2004), de Jayme Monjardim.
Alguém lembra de mais alguma?
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02:24
by MARCELO MIRANDA
RENASCIDO DAS CINZAS
Como retomar algo que parecia estar destinado ao limbo eterno? Como escrever num espaço que, a esta altura, ninguém lê? Quais motivações para refletir através de palavras para cair no vazio? Sei lá, sei lá, sei lá. Só sei que me deu vontade de, depois de meses afastado por milhares de motivos, tentar tornar este blog um espaço vivo novamente. Afinal, eu o criei há uns dois anos pra exercitar a escrita sobre cinema e trocar idéias com colegas que partilham do mesmo amor pelas imagens na tela.
Pois cá estou, a tentar retomar esse contato. Àquelas que me buscaram de alguma forma, um agradecimento imenso. Aos demais, um abraço apertado também. Espero que esta ressurreição valha a pena. E seja prazerosa e para sempre. Os motivos que me afastaram daqui são vários, e não vale ficar detalhando. Aos poucos acabo comentando, afinal - mas não sumi totalmente. Continuo firme escrevendo no Cinequanon e no Digestivo Cultural, além de alguns outros espaços por aí.
Para (re)começarmos de bem com a vida, nada mais justo que dedicar este post ao grande mestre dos mestres Clint Eastwood. Ele chega em dose dupla neste final de ano com A conquista da honra e Letters from Iwo Jima, ambos visões distintas e complementares de um mesmo tema - o impacto sobre a Segunda Guerra Mudial da famosa foto dos soldados norte-americanos levantando a bandeira do país em território japonês. O fato é que Letters from Iwo Jima acaba de ser escolhido o melhor filme do ano pela National Board of Review, desbancando favoritos como Babel, Os infiltrados e o próprio Eastwood, com A conquista da honra. O cara é mesmo impressionante.
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