Impressões Cinéfilas

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007


A CONQUISTA DA HONRA, de Clint Eastwood



Por enquanto: meu Deus...

Sexta-feira, Janeiro 19, 2007


BABEL - Fragmentos de um cinema impuro

Há um tipo de cinema que costuma tentar "pegar" o espectador pela pretensa relevância política e social. Caso recente é o de Diamante de Sangue, filme de ação que se firma numa suposta necessidade de se denunciar o que acontece em guerras da África custe o que custar. No ano passado, Crash - No Limite levou o Oscar por sua teia de situações e personagens em que o racismo estava em primeiro plano. Pouco pareceu importar que o roteiro de Paul Haggis tinha elementos tão racistas quando suas denúncias. A bola da vez agora é Babel.

Muito se tem falado do mosaico proposto pelo mexicano Alejandro González Iñarritu como uma visão globalizada da incomunicabilidade entre os povos e sobre os pequenos atos que geram reações em escala mundial. É uma evolução planetária do que Iñarritu e o roteirista Guillermo Arriaga já tinham feito em Amores Brutos e 21 Gramas. Estão no filme a questão dos marroquinos pobres que sempre levam a culpa por supostos atos terroristas, a luta de um norteamericano em conseguir ajuda da embaixada para salvar a mulher ferida, a mexicana ilegal nos EUA, a japonesa sufocada pela rejeição num universo de luzes e muita gente.

Iñarritu e Arriaga dão seu jeito de misturar tudo isso, mesmo que, para tanto, eles precisem se utilizar de mecanismos narrativos apenas existentes naquele universo criado por eles próprios. Não há respiro no desenrolar dos acontecimentos, não existe fluidez nas situações que vão se acumulando. Babel é cinema que entrega seu próprio mecanismo de concepção a cada diálogo e a cada cena. É um cinema em que mais importa o que vai acontecer dentro da tela e menos as reações que isso vai provocar em que está fora - e ironicamente, esse não-respiro tem a intenção de justamente provocar reações.

Talvez esteja aí o nó: na ânsia de deixar o espectador nervoso, angustiado ou consciente de seu papel num mundo injusto, apelamse para pequenos gatilhos narrativos que, ora grosseiros e ora sutis, não permitem ao filme falar por si mesmo. Aquilo que está na tela transforma-se num veículo do cineasta, e não num espaço de símbolos e significados como gostaria de ser. Diferente, por exemplo, do fabuloso Três Enterros, escrito pelo mesmo Arriaga e cuja direção de Tommy Lee Jones catalisa uma encenação igualmente complexa à de Babel, porém com muito mais respiro e independência das imagens em relação ao que se conta.

Há de ser justo no que Babel tem de melhor. Iñarritu não permite a narrativa fragmentada se tornar algum tipo de dramalhão melodramático. O diretor capta imagens com razoável senso estético e permite que seus atores se movimentem dentro do quadro na busca por transmitirem a dor de seus personagens. E a forma como imbrica através da montagem cada uma das tramas mostra seu talento em lidar com os fragmentos, por mais que estes estejam presos a uma corrente de linguagem de roteiro que parece não querer se partir.

Veja abaixo o trailer de Babel:

Terça-feira, Janeiro 16, 2007


MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO
Direção: Marc Forster

Parece estar em moda na Hollywood atual representar a metalinguagem. Só isso explica o pipocar de obras como Quero ser John Malkovich, Adaptação e, agora, Mais Estranho que a Ficção, pra ficar nos mais comentados. Seria uma necessidade do cinema industrial norte-americano ficar bem ante a própria falta de idéias? Ou mesmo se justificar em relação a esta mesma criatividade em queda? Porque, aos menos nos exemplos citados, não parece bastar aos roteiros falar de metalinguagem. É preciso problematizá-la, colocá-la em xeque, no centro da narrativa, e ir aos poucos a desfiando até que ela se torne a grande questão a ser resolvida dentro do filme.

A necessidade de tornar a metalinguagem algo consciente no universo narrativo e tentar motivar sua existência é o que parece permear o trabalho recente de nomes como Charlie Kaufman e Zach Helm. E no processo, com a bênção do público, um filme medíocre (Adaptação) se torna um filme sobre a mediocridade.

Afinal, nem todos são Woody Allen. O velho e bom Woody fez o que talvez seja o mais inventivo tratado metalingüístico do cinema, que é A Rosa Púrpura do Cairo. Ali estão concentradas várias questões acerca da mistura entre realidade, ficção e o limite entre estas duas definições dentro da própria ficção apresentada na tela. Há, sim, a consciência dos personagens de estarem vivendo uma situação absurda (o astro de um filme sai da tela do cinema e se apaixona por sua maior fã), mas jamais isso se torna maior do que realmente importa a Allen - registrar, com o olhar da ficção, a angústia e o vazio existencial de gente comum ante o declínio da economia dos EUA nos anos 30. O que Woody Allen faz é impregnar de fantasia e delírio sua fábula sobre a vida real, sem nunca forçar os elementos fabulares a se sobreporem ou virarem, aos olhos do espectador, os conflitos a serem resolvidos pelo filme.

São por falta de sutilezas assim que Mais Estranho que a Ficção não consegue se tornar um trabalho de real destaque. A premissa aparenta seguir tal caminho: um homem percebe fazer parte de uma história que ainda está sendo escrita. Em vez de se aproveitar do gancho inventivo para explorar ao máximo o protagonista, o enredo de Zach Helm prefere se render aos clichês mais comuns da comédia americana misturados a tal problematização da metalinguagem.

A salada não funciona muito bem. Se há interesse nas ações que Harold Crick (o personagem) vai tomar ao saber de seu destino, o texto de Helm nos leva para outro lugar, em especial quando insere cenas da escritora aborrecida vivida por Emma Thompson. É nestes entrechos que o filme decai. Helm demonstra preocupação excessiva com os rumos da escritora e tira espaço de Crick, tornando a saga do fracassado auditor da Receita Federal na mera ficção que ela é.

Sim, a vida de Crick é uma ficção, e isso nos está dado desde os primeiros minutos, com aqueles esquisitos efeitos visuais que ilustram as atitudes dele. Porém - e aqui entra a mão do diretor Marc Forster - o filme não se satisfaz em deixar o público ir percebendo o quanto há de ficção na narrativa sobre Crick. O estranhamento sobre as palavras em off que o perseguem, o incômodo de imaginar estar sendo seguido por alguma força sobrenatural, as suspeitas de loucura, tudo se perde ante a vontade aparentemente desesperada de Forster em acompanhar o processo criativo da escritora. Em menos de meia hora, a intriga potencialmente instigante que deveria ser a alma de Mais Estranho que a Ficção vira poeira com um simples corte - o corte que leva ao plano em que vemos pela primeira vez o bagunçado escritório onde trabalha a autora do livro que é a vida de Crick.

Forster não segue os ensinamentos de diretores superiores a ele. Não deixa de lado a preocupação excessiva com a fábula, como fez Woody Allen em A Rosa Púrpura do Cairo, nem acredita fortemente na trama que conta, como foi Peter Weir no excepcional O Show de Truman. Em trabalhos anteriores, Marc Forster já tinha demonstrado tal descrença quanto a quem o assiste. No seu filme mais badalado, A Última Ceia, colocava Halle Berry sempre chorando desesperadamente para aumentar a emoção; em Em Busca da Terra do Nunca, fazia pouco caso da fantasia que permeava o filme e apelava à música para arrancar lágrimas; e em A Passagem, parecia uma versão professoral e didática de David Lynch. Agora, com Mais Estranho que a Ficção, novamente Forster dá sinais de ser um cineasta cuja falta de crença na força do cinema é o que mais o destaca.

Pobre do roteirista Zach Helm. Ele tentou ser bom de serviço, mas foi engolfado, primeiro, pela forma mais articulada com que outros escritores lidaram com temas semelhantes e, depois, pelo esculacho com que Forster tratou seu material. Numa hora dessas, Helm talvez queira estar no lugar de seu protagonista Harold Crick, que ao menos ganhou uma criadora preocupada com seu bem estar.

Confira o trailer abaixo:

Sexta-feira, Janeiro 12, 2007


O DIA EM QUE O BRASIL FOI INVADIDO

Merecia indicação ao Oscar de melhor curta animado. Claro que isso jamais aconteceria...
Vejam e gargalhem!

Domingo, Janeiro 07, 2007


DIAMANTE DE SANGUE:
África para ocidental ver


Existe um fator-África em recentes superproduções do cinema. Nos últimos dois anos, ao menos quatro filmes surgiram com formato de denúncia contra a exploração do Ocidente em cima dos africanos. O Jardineiro Fiel, do brasileiro Fernando Meirelles, de produção inglesa, retratava o uso de cobaias humanas para testes da indústria farmacêutica; O Senhor das Armas, de Andrew Niccol, tinha a venda de armas como vilãs de conflitos intermináveis; Hotel Ruanda, de Terry George, registrava o massacre étnico entre tutsis e utus e a negligência das nações desenvolvidas.

E agora vem Diamante de Sangue, a cargo de Edward Zwick, apontar a câmera para a guerra de diamantes que se desenrolou em Serra Leoa no final dos anos 90 e os interesses nebulosos da Inglaterra e outros países para manter o banho de sangue. O que se percebe em cada um desses filmes é o olhar de várias formas estranho para com as realidades que buscam mostrar. São cineastas que parecem se sentir mal ao assistir à destruição de um continente e tentam usar o cinema como forma de expiação, de fazer a sua parte.

O resultado quase sempre descamba para o vitimismo e numa tentativa desesperada de colocar os ocidentais como os inimigos e os africanos como os coitadinhos - mesmo quando surgem as famigeradas milícias locais, o tom é de tragédia ou grandiloquência ante o poder de fogo dessa gente. O Senhor das Armas, num tom satírico e irônico, é o que se sai melhor no quarteto citado porque Niccol sabe que não adianta tentar entender os acontecimentos da África e, sim, problematizá- los, ainda que pela via do deboche.

Diamante de Sangue, numa escala, é o que se sai pior. Zwick novamente se insere numa cultura desconhecida a ele (antes dirigira O Último Samurai) e parece querer dissecá-la. Só que, em vez de apenas expô-la (como bem faz Meirelles em O Jardineiro Fiel), o diretor tenta superála, dar-lhe grandiosidade épica e, quem sabe, achar a solução para terminar com ela.

A forma como enxerga a briga pelos chamados diamantes de conflito é a mais típica possível de Hollywood: com a pompa de quem está afastado daquilo tudo e quer entrar e ajudar, ainda que por vias tortas. Intenção nobre, resultado pífio. O que há em Diamante de Sangue é um filme de ação em que o protagonista (Leonardo DiCaprio) é o anti-herói que vai achar a redenção, e seu companheiro de cena (Djimon Hounson) é o africano puro e ausente da selvageria de seu próprio mundo. Uma jornalista (Jennifer Connelly) será a presença do Ocidente nesse jogo. Ela parece encarnar o próprio Zwick, com suas lamentações do quanto não consegue fazer pelo povo africano, para depois ter movimentação mais ativa em prol da "causa".

Zwick não filma mal - há pelo menos uma grande sequência, quando DiCaprio e Hounsou fogem de uma aldeia. Porém, a ingenuidade do cineasta e a estética espetaculosa não conseguem dar a Diamante de Sangue a relevância que o filme parece a todo tempo buscar.

Confira o trailer:


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