Impressões Cinéfilas

Sexta-feira, Março 30, 2007


300: espetáculo do vazio

A câmera lenta é um recurso da linguagem de cinema que, como qualquer outro, deve ser dosado para não cair em excessos. No caso de 300, a câmera lenta é utilizada de forma a valorizar ao máximo os enquadramentos do diretor Zack Snyder -enquadramentos estes inspirados no álbum de luxo Os 300 de Esparta, do quadrinhista Frank Miller e matéria-prima do filme de Snyder. Interessante que essa recorrência tenha absolutamente tudo a ver com a proposta da produção. 300 valoriza o visual. Mais ainda: 300 valoriza apenas o visual.

Não é tarefa do crítico dizer se essa decisão é a mais correta e, sim, tentar entender os motivos - sem jamais esgotá-los. A obra de Miller já era, em si, um delírio aos olhos, mas o texto mantinha uma força que o filme não consegue captar. Não são todos os cineastas a possuírem o talento de Stanley Kubrick para transformar, como em Spartacus, um discurso pré-batalha em algo sofisticadamente existencialista.

Em 300, surgem a toda hora gritos inflamados, falas pomposas, caretas de sofrimento e tantas outras "marcas" do gênero épico. Caem no vazio: o arrebatamento das imagens, o impacto dos efeitos visuais e o som que quase extravasa a sala de cinema tiram qualquer interesse que pudesse existir no que o rei espartano Leônidas transmite aos seus asseclas. Fica-se esperando o próximo embate, o confronto seguinte, a morte de mais algum personagem.

Tenta-se, é verdade, criar uma subtrama nos palácios de Esparta, envolvendo a esposa do protagonista, mas esses momentos parecem intrusivos no espetáculo que Snyder proporciona no centro narrativo. Espetáculo espetaculoso, é importante frisar. Tudo em 300 está acima do tom: figurino, cenários, efeitos, fotografia, interpretações. É uma proposta de cinema estiloso sem estilização, uma máquina para regurgitar o que de mais moderno Hollywood é capaz de proporcionar aos olhos - aos olhos, não à mente ou ao coração.

Cinema, claro, é arte da imagem. Então 300 não seria o filme perfeito? Não, porque suas imagens são "coisificadas", transformadas em puro exibicionismo técnico que nada significam além da própria superfície. A imagem no cinema precisa necessariamente ter algum mínimo significado se quiser se transformar, afinal, na arte que ela é.

O único instante em que 300 parece ser um filme realizado por um ser humano é o desfecho da batalha decisiva entre Leônidas e o imperador Xerxes (papel de Rodrigo Santoro, irreconhecível em cena, debaixo de uma maquiagem que, apesar da boa expressividade do ator, deixa-o parecendo um abre-alas de escola de samba dos grupos de acesso). É na esposa que Leônidas pensa quando se vê sem saída. São as lembranças dela ao lado do filho que povoam os pensamentos do guerreiro. Num filme de tamanha preocupação com o que aparece no primeiro plano, momento como este deve ser sempre valorizado.

CONFIRA ABAIXO O TRAILER DE 300:

Quarta-feira, Março 28, 2007


O BICHO PAPÃO NÃO MORRE...



Será que Rob Zombie dá conta do recado?

Quarta-feira, Março 21, 2007


AOS AMANTES DE ENNIO MORRICONE

1) Morricone Lover- blog em que o editor posta diariamente para download diversas trilhas sonoras compostas pelo mestre italiano. Trilhas de filmes, coletâneas, variações, releituras e tudo o mais possível e imaginável que contenha Morricone. Vasculhe o site, o arquivo... e prepara espaço no HD.

2) a Versátil aproveita a homenagem do Oscar 2007 ao maestro e lança em abril o concerto regido por ele na Alemanha com direção de seu filho. Desde já um dos grandes lançamentos em DVD neste primeiro semestre...



3) e para aguçar a vontade (como se Morricone precisasse...), um vídeo postado pelo colega Leandro Caraça e reproduzido aqui:



O BOM PASTOR



Olhar sobre a origem da CIA num viés emocional e profundamente intimista.
Será que Robert De Niro protagonizou aquelas comédias bobocas para juntar grana e realizar este belo trabalho?
Se foi, valeu a pena. Se não foi... continua um lindo filme do mesmo jeito.

Sábado, Março 03, 2007


O MELHOR DE LETRA E MÚSICA

Desde que assisti à comédia romântica Letra e Música, tenho exaltado o carisma de Hugh Grant no papel de um ex-astro pop dos anos 80 que atualmente ganha a vida relembrando velhos sucessos e rebolando a torto e a direito. E aí as pessoas comentam: "nossa, deve ser engraçadíssimo!". De fato, é muito engraçado - e é, de longe, o maior atrativo de um filme apenas correto. Para aplacar a curiosidade de alguns, posto abaixo o videoclip da banda PoP. O grupo é fictício, e as cenas desse vídeo passam nos créditos de abertura de Letra e Música, como um flashback do que era a banda na qual o personagem de Grant (bregamente rejuvenescido) era estrela.

É das coisas mais engraçadas que vi em tela grande esse ano. Confiram:

Sexta-feira, Março 02, 2007


DIAS SELVAGENS E LETRA E MÚSICA
Duas visões sobre o amor


Ao mesmo tempo, duas histórias românticas estão em cartaz no circuito brasileiro - uma já há algum tempo, outra mais recentemente. Cada uma representa olhares bastante distintos das formas de se pensar o amor e o desenvolvimento das relações.
De um lado, a autoralidade forte de Wong Kar Wai, cineasta chinês nascido em Hong Kong e cujo segundo longa-metragem apenas agora está nos cinemas brasileiros. Dias Selvagens se assume como o primeiro "capítulo" de uma trilogia que seria continuada com os mais badalados Amor à Flor da Pele (2001) e 2046 - Os Segredos do Amor (2005). Porém, guarda semelhanças mais próximas com outro trabalho de destaque na carreira de Kar Wai, que é Amores Expressos (1994).

Kar Wai realiza um cinema de fragmentos. Na linguagem e estética, intercala diversas pequenas histórias que, na reunião dos detalhes, formam um mosaico de sentimentos desencontrados. E aqui fica o outro tipo de fragmentação do diretor: aquele das relações entre homens e mulheres. Os personagens de Dias Selvagens estão sempre em busca do outro, mesmo não sabendo como lidar quando finalmente se encontram. Seja na tentativa do protagonista de descobrir quem é sua verdadeira progenitora (e, conseqüentemente, na interação doentia com a mãe adotiva), ou na singela ligação criada entre uma das mulheres com o policial que patrulha a região por onde ela anda perdida após uma desilusão. São todas pequenas tramas que se iniciam, mas não terminam; contatos formados que não se concluem; fragmentos de sensorialidade que, à moda de Kar Wai, vão da frieza extrema no trato com o próximo ao desejo de intensidade sentimental, da racionalidade de não se entregar a uma relação sentimental ao instinto de mergulhar profundamente na vontade de contato físico.

Kar Wai flutua com a câmera, acompanha em elegantes travellings o caminhar de seus casais, a enquadrar cada um dos atores em cena como se fossem únicos, porque é disso, afinal, que o diretor vai tratar em Dias Selvagens: da solidão que vem do fragmento. Kar Wai não está tão maduro como o seria nos citados Amor à Flor da Pele e 2046 - ainda mais neste último, em que a preocupação com algum tipo específico de desenvolvimento narrativo não parece existir, o que enriquece o filme. Os fragmentos de Wong Kar Wai estavam se iniciando em Dias Selvagens, e acompanhar sua evolução a partir do filme é uma experiência altamente recompensadora.

Confira o trailer:



Fórmula
Por outro lado, está nos cinemas Letra e Música, produto industrial da máquina hollywoodiana fabricado na linha de montagem "comédia romântica". Tendo no elenco a queridinha e fofinha Drew Barrymore e o intérprete-loser oficial Hugh Grant, é mais um daqueles trabalhos que parecem ter surgido numa reunião de executivos em que os participantes se sentam e questionam: qual tema abordar pra poder juntar dois pombinhos em cena?

A escolha recaiu sobre o universo da música pop. Grant é um ex-cantor de uma banda estilo Duran Duran que bombou nos anos 80. Obviamente não bomba mais, e é este o maior conflito do músico: como se adequar aos anos 2000 se o que ele faz melhor está 20 anos atrás? Drew aparece como uma cuidadora de plantas (!) cujo envolvimento com Grant obviamente se dará ao acaso e eles se descobrirão duas pessoas complementares.
Se Letra e Música guarda algum tipo de interesse maior, é na visão ácida (ainda que superficial) em relação aos artistas pop. Grant estrela as melhores e mais engraçadas cenas do filme - quando surge "rejuvenescido" num clip musical da tal banda em que ele era um sucesso e ao tentar recuperar para um bando de senhoras o estilo brega do passado, à base de composições açucaradas e gingados de rebolado de fazer inveja a Sidney Magal.

Aliás, é Hugh Grant o grande achado de Letra e Música: as tiradas britanicamente sarcásticas e o carisma com que as dispara deixam no ar certo tipo de improvisação que está degraus acima do roteiro de Marc Lawrence, também diretor. Basta Lawrence se focar no tal romance que as coisas perdem o controle -para serem recuperadas por Grant e pelo deboche com as cantoras estilo Britney Spears a pularem no palco vestidas de stripper.

Veja o trailer:


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