Com a estréia do maravilhoso Maria, por que tão pouca gente cita a estréia de Abel Ferrara nos longas-metragens - O Assassino da Furadeira (ou Driller Killer, no original) é fabuloso. O enlouquecimento urbano de uma forma poucas vezes tão visceralmente retratado no cinema. E o próprio diretor Ferrara interpreta o protagonista...
Na próxima semana estarei ausente deste espaço por conta de uma viagem de trabalho - vou cobrir o Cine PE, festival de cinema do Recife. Antes eu posto aqui uma matéria sobre os selecionados. Até breve!
A primeira imagem é a de uma imensa bunda, que toma a tela rebolando e se chacoalhando enquanto sua dona caminha. Estamos no universo de Lourenço Mutarelli, escritor e quadrinhista adaptado pelo diretor Heitor Dhalia. É o mundo de O Cheiro do Ralo, e quem se dispuser a entrar nele sairá perturbado. É muito fácil desgostar de O Cheiro do Ralo. Filme degradante sobre degradação, linguagem seca sobre a secura. É um objeto estranho na atual cinematografia brasileira - e é justamente disso que trata o filme: a estranheza de um homem torpe que encontra a própria humanidade na bunda de uma balconista de lanchonete.
O tal homem é Lourenço (homônimo do autor da história), vivido intensa e melancolicamente por Selton Mello. Ele é a alma do filme, são suas ações detestáveis que servirão ao desencadeamento de uma narrativa que parece ir a lugar algum, mas mergulha nas obsessões profundas de um ser humano especial, que parece acumular em si o que de pior pode haver em alguém.
O aspecto político de O Cheiro do Ralo se manifesta dentro e fora do filme. Fora, pela insistência de Dhalia em levar às telas trama tão controversa, bancando na cooperação o dinheiro necessário à empreitada. Dentro do próprio filme, a política está nas relações entre forte e oprimido, sendo que este último quase sempre vai se dar mal por conta da imponência do primeiro.
Pode parecer um tanto afetado o jeito como Dhalia coloca Lourenço perante seus "subordinados", mas aí reside a graça da brincadeira: um ser tão detestável vai se moldar apenas com a parte mais "grandiosa" do corpo feminino - a bunda. O que seria mais coerente, e também irônico, do que isso, afinal? Não se trata da torpeza que chega à redenção e, sim, de complementação a uma mente inicialmente doentia. Dhalia não é tão cínico a ponto de insinuar que Lourenço vai se tornar um novo homem após realizar seu fetiche.
Aquilo surge na vida dele como algo a mais dentro de seus mecanismos de dominação - porém, é o único desses mecanismos que ele não consegue realmente dominar. O encontro entre o usurário e a "bunda" guarda em si instante quase apocalíptico: é quando, pela primeira vez, Lourenço se vê numa posição inferior. A política, ali, inverte-se: o poder está com o oprimido, e resta ao outro se render a esse poder se quiser, em seguida, continuar poderoso.
Eli Roth (o famigerado diretor de Cabana do Inferno e O Albergue) renova o tão propalado Dia de Ação de Graças com um simples trailer falso. O filminho estará no "intervalo" de Grindhouse, nova loucura perpetrada pela dupla Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, a ser lançada este ano. Confiram por si mesmos e segurem o estômago: