De um rio aparentemente pacato sai um bagre gigantesco, que ataca os pobres coitados da redondeza. A força de O Hospedeiro, porém, começa nos minutos iniciais, em dois principais aspectos: o político (na figura do norte-americano que despeja elementos químicos no rio de onde sai o bagre) e o familiar (na relação de uma garotinha com o pai bobalhão e o avô trabalhador).
O surgimento de uma criatura que seqüestra a menina é gancho para questões bem mais pertinentes do que o resgate. Esse é o aspecto de maior relevo em O Hospedeiro e que o torna um filme fundamental no cenário dito "comercial" do cinema contemporâneo. Utilizando de um subgênero popularizado na Ásia (o filme de monstro), o diretor Bong Joon-ho leva às massas (o filme é a maior bilheteria da Coréia do Sul, foi exibido em Cannes e entrou na lista da prestigiosa revista francesa Cahiers du Cinema entre os dez melhores de 2006) forte crítica social e um discurso politizado sobre a posição de seu país perante o outro - e um olhar desse mesmo outro sobre seu país.
É um tipo de cinema preocupado em ganhar dinheiro sem que, para isso, precise abrir mão da força e inserção de questionamentos e ambigüidades.
Eu devo mais retornar a este espaço do que, de fato, escrever nele. Mas sempre há motivos. Desde que me mudeu do interior para a capital Belo Horizonte, minha vida pirou. Muitas atividades e afazeres, idas e vindas, serviços paralelos, leitura, filmes, uma loucura total. Se este blog ficava em terceiro ou quarto plano quando eu era menos atarefado, agora então...
Mas claro, isso não deve interessar a mais ninguém além de mim. O que importa é que sou um blogueiro negligente. Mas em vez de largar isso aqui, eu sempre acho que vou conseguir manter o espaço. Então, vamos a uma nova tentativa. Ainda engatinhante, como sempre, mas tentemos. Abaixo reproduzo uma pequena matéria que produzi para o jornal onde trabalho sobre o boom do cinema sul-coreano. Espero que gostem.
Cinema da Coréia do Sul mantém vigor
Vez ou outra, por motivos diversos, a cinematografia de determinado país ganha repercussão internacional e gera booms de lançamentos mundo afora. É o que está acontecendo com o cinema da Coréia do Sul. Não que seja novidade para os sul-coreanos: a nova onda local se iniciou no final dos anos 90. Foi em 2004, porém, que o planeta tomou mais conhecimento do vigor dos filmes vindos de lá. Old Boy (foto abaixo), vencedor do prêmio especial do júri no Festival de Cannes em 2004, revelou o talento de um jovem diretor (Park Chan-wook) e a força de um estilo quase inimitável e facilmente identificável.
Na próxima sexta-feira, entram em cartaz em Belo Horizonte dois títulos dessa fase de glórias: Lady Vingança, também do citado Chan-wook; e O Hospedeiro, de Bong Joon-ho, exibido ano passado na Quinzena dos Realizadores em Cannes e a maior bilheteria de todos os tempos dentro da Coréia do Sul. Os números dizem muito do cinema sul-coreano. Num país de 48 milhões de pessoas, O Hospedeiro mobilizou 13 milhões de espectadores (27% da população), cifra jamais alcançada antes por qualquer outro título, de qualquer país, estreado lá.
A título de comparação, o Brasil, de quase 190 milhões de pessoas, celebra quando um 2 Filhos de Francisco leva 6 milhões (3,15% da população) às salas de exibição. "A Coréia do Sul aproveitou um vazio deixado por Hong Kong para fazer do seu cinema um sucesso", diz Otávio Moulin, pesquisador, consultor e um dos maiores entendedores brasileiros em cinema asiático. "Em 1997, quando a China retomou o território de Hong Kong, a produção de filmes neste país, que era a segunda maior do mundo depois da Índia, decaiu".
Moulin aponta 1999 como o ano-chave, quando estreou na Coréia do Sul Missão Terrorista, longa de ação de Kang Je-gyu que bateu Matrix e Titanic no mercado local. De Missão Terrorista em diante, o cinema da nação cresceu internamente e ganhou prestígio externo. "Os diretores começaram a produzir filmes com elementos universais, que funcionariam tanto dentro do país, porque não deixavam de lado uma certa tendência deles próprios, e fora, já que mantinham produção requintada e muito bem cuidada, com tramas que serviam a quaisquer cinematografias", explica Moulin.
Ainda assim, os cineastas do país, por mais que trabalhem pensando no resultado comercial, não se permitem concessões. E dá-lhe cenas intensas de amor e sexo, violência e ação, humor e ironia, plasticidade e virtuosismo, em obras tão distintas e igualmente memoráveis como a obra-prima Senhor Vingança, de Chan-wook, e o apavorante Medo (péssima tradução para A Tale of Two Sisters), de Kim Ji-woon.
Mas uma marca este cinema nunca deixou de lado: a mistura de vários gêneros num mesmo filme. É comum um longa de aventura da Coréia conter dramas familiares ou cenas de comédia. Ou um policial incluir melodramas envolvendo paixões e desilusões. "Não é uma coisa típica da Coréia, porque Hong Kong sempre mesclou elementos. Só que os coreanos fazem isso dentro de uma proposta mais 'séria' de querer contar muitas histórias de uma só vez", afirma o pesquisador. "E o público de lá quer isso. Os espectadores sul-coreanos gostam de sentir vários tipos de emoção quando vão ao cinema".
Atualmente, o cinema da Coréia do Sul sobrevive de si mesmo, através da bilheteria interna. Aproximadamente 60% do circuito local é tomado por produções do próprio país, e metade das maiores bilheterias semanais são também realizadas em casa. As boas universidades com cursos de cinema, os incentivos do governo ao audiovisual e o apoio de empresas de tecnologia, somados à efervescência criativa e estética dos cineastas dessa nova geração, fazem com que esse boom sul-coreano pareça não ter um fim previsto.