"Quando começo a fazer papel de bobo, pouca coisa pode me deter. Se soubesse o que ia dar, não teria nem começado - se estive com a cabeça no lugar. Mas quando a vi... quando a vi... eu já não estava com a cabeça no lugar fazia muito tempo."
Michael O'Hara, personagem interpretado por Orson Welles em A Dama de Shanghai (1948)
Acho que nunca eu fui tão certeiro na hora de comentar um filme em relação à minha vida pessoal como o fui no texto abaixo sobre Noites Brancas. Como imaginar que dois dias depois de ver o filme e refletir sobre a tristeza escrita por Dostoiévski e filmada por Visconti, minha própria pessoa estaria inserida numa situação semelhante à do pobre coitado do Mario?
Coisas da vida. Mas a gente sempre sobrevive, afinal.
Reza o senso comum que a tristeza é um sentimento que ninguém quer sentir. Mas no cinema as coisas são diferentes. Como não se fascinar com a tristeza de, por exemplo, Noites Brancas, do mestre italiano Luchino Visconti? Retirada das letras geniais do russo Fiodor Dostoiévski, a produção exala melancolia e onirismo, mas é, acima de tudo, um filme extremamente triste. Triste porque o personagem principal é um solitário em busca de amor e felicidade, triste porque a mulher que ele encontra aguarda o homem de sua vida, triste porque não existe saída para ninguém quando linhas e caminhos já estão traçados.
Como não se entristecer com o olhar apaixonado de Mario para a doce Natalia quando sabemos que ela só está lhe dando atenção porque o objeto de seu desejo ainda não apareceu? De que forma não ficar comovido com as lágrimas de Mario quando a realidade lhe puxa o tapete da utopia, quando a esperança de ter rearranjado a própria vida desaparece na virada de uma esquina e se materializa num homem encapotado de preto? A jaqueta que Natalia deixa cair na neve não difere da alma daquele sonhador, do dilaceramento que vai voltar a caminhar ao seu lado como o vira-latas que abre e fecha o filme.
Tantas sensações só surgem porque Visconti sabe como filmar essa tristeza. Num de seus filmes menos operísticos e épicos, num de seus trabalhos mais singelos, o italiano capta por olhares, gestos e ambientações a carga melodramática de uma situação inicialmente banal, mas dotada de um complexo manancial de sentimentos humanos. Mais apaixonante ainda é perceber que, em meio a toda a tristeza da história de Dostoiévski transmitida pelas lentes de Visconti, sobra um momento de pura alegria - a dança no bar. Ausente da novela do escritor russo, é um sopro de alívio na narrativa fílmica, instantes que abrem parênteses na dor que em seguida vai voltar em força máxima.
Pode um filme nos colocar num universo tão alucinante que ele parece verdadeiro? Orson Welles arrebenta os nervos e a mente no alucinado exercício estético e narrativo que é O Processo. Talvez seja seu filme mais chocante e perturbardor, um mergulho o tempo inteiro estranho e claustrofóbico. E diferente do que se possa pensar, não é um mergulho na cabeça de um homem. É um mergulho no seu entorno, naquilo que o aflige ao redor, na sua própria realidade. As situações de Joseph K., por mais surreais que pareçam, não são tão mais surreais do que as situações de um cotidiano dito normal.
O que Welles faz com maestria (e que já estava no romance de Franz Kafka) é colocar em imagens um labiríntico caminho de perdição e angústia ao qual está-se submetido a todo instante. E o diretor encontrou na figura fragilizada de Anthony Perkins o rosto e corpo perfeitos para seus anseios. Um filme a se ver tão de joelhos como o personagem do cliente abandonado, que beija a mão do advogado (vivido por Welles) na tentativa de ganhar sua atenção. Obra-prima sempre dolorosa de ser revista.