Impressões Cinéfilas

Quarta-feira, Setembro 26, 2007


Tão longe, tão perto

China e Pernambuco, tão distantes geograficamente entre si, são o foco do festival Imagem dos Povos - III Mostra Internacional Audiovisual de Ouro Preto, que começa na próxima sexta-feira na cidade histórica

A China está distante aproximados 24 mil quilômetros de Pernambuco, mas ambos se tornarão vizinhos de porta entre os dias 28 de setembro e 4 de outubro - da próxima sexta-feira até a quinta que vem, e a apenas 98 Km de Belo Horizonte. O festival Imagem dos Povos - III Mostra Internacional Audiovisual de Ouro Preto assumiu como temas deste ano o país asiático e o Estado brasileiro. A proposta do evento, inclusive, é justamente essa: colocar anualmente em foco a produção em cinema e vídeo de um lugar do mundo e de uma região do Brasil.

Na primeira edição, foram Nova Zelândia e Minas Gerais; em seguida, Índia e Rio Grande do Sul. "Buscamos modelos e experiências que utilizem a cultura local como fonte de inspiração", explica Adyr Assumpção, produtor e coordenador do festival. "O audiovisual é hoje uma ferramenta de identidade e afirmação. E temos percebido que, quanto mais atrelados ao próprio entorno ficam os produtos, maior sua repercussão fora das fronteiras". Para o tributo a China e Pernambuco, portanto, serão exibidas diversas produções em curta, longa e vídeo realizadas em ambos os lugares, complementadas por exposições de arte e pelo lançamento do livro "China: O Despertar do Dragão", de Luís Giffoni. "É apenas uma aproximação possível entre um e outro. Várias outras relações poderão ser feitas durante o festival", diz Adyr.

Gigante bem acordado
No caso da China, o "boom" do cinema asiático tem muito de sua força justamente nas produções do país, capitaneadas por linguagens bastante focadas nas próprias tradições locais e em temáticas que inicialmente causam estranhamento, mas têm sido absorvidas com sucesso por platéias ocidentais. Recentemente, o Festival de Veneza, na Itália, teve boa parte de sua seleção principal vinda da China - e o grande vencedor foi o taiwanês Ang Lee, com seu "Lust, Caution". Nos dois anos anteriores, Veneza já tinha premiado produções de diretores do país: em 2006, "Em Busca da Vida", de Jia Zhang-Ke; e em 2005, o mesmo Ang Lee, desta vez em produção dos EUA, "O Segredo de Brokeback Mountain". No último Festival de Berlim, no começo de 2007, lá estava outro chinês sagrando- se ganhador: "O Casamento de Tuya", de Wang Quan’An, que estará em Ouro Preto. "Cada vez mais temos visto as diversidades chinesas através do olhar de seus cineastas", atesta Adyr. "Por mais que haja tantas regiões dentro do mesmo país, eles fazem um cinema que guarda uma identidade localizada".

O organizador do Imagem dos Povos acredita que a característica dessa identidade seja a tradição da coletividade. "Um dos principais temas dos filmes refere-se ao conflito com a modernidade e com o mundo contemporâneo. Nesse sentido, os filmes exaltam a idéia de uma experiência coletivista, e nunca individualista". Adyr ainda aponta um dado a ser pensado: o cinema do Ocidente é muito preocupado com o fator psicológico e as conseqüências do contexto na mente de um ou dois personagens. Já o que nos chega da China refere-se muito mais a uma certa falta de centro e foco - não no sentido negativo. Muito pelo contrário. "Eles enxergam os problemas sempre pensando no geral, não no particular", aponta Adyr. "É impressionante como isso está arraigado em todas as situações vividas lá. Mesmo andando na rua, naquela multidão de gente, você percebe o quanto tudo é pensado em termos coletivos, para só depois surgir a preocupação com o indivíduo".

Essa idéia pode ser apontada no filme-chinês-sensação do momento. "Em Busca da Vida", que está na programação do Imagem dos Povos, capta com delicadeza o estranhamento de uma sociedade tradicional literalmente engolfada pelo desenvolvimento. É disso que trata o cinema de Jia Zhang-Ke - o que poderá ser conferido também em "Plataforma" (2000), outro filme seu a ser exibido, sobre grupo de teatro amador obrigado a se adaptar à abertura de mercado num país completamente fechado politicamente. "Há um diálogo muito estreito com a realidade exterior ao que vivem os personagens e sem que isso se torne o tema direto dos filmes", aponta o produtor.

Uma outra vertente do cinema da China levantada por Adyr Assumpção é a diversidade cultural tão presente no país, refletida na seleção do festival em Ouro Preto. "São filmes realizados em praticamente todas as regiões chinesas, do norte ao sul, que refletem sobre o retorno às origens. Depois da explosão capitalista e industrial do país, as tradições locais se tornaram ainda mais importantes, e isso tem sido levantado pelos diretores", comenta. Além de "Em Busca da Vida" e "O Casamento de Tuya", duas das principais atrações do Imagem dos Povos, a produção chinesa também estará representada por outros títulos de relevo das gerações recentes (o cinema da China é tabulado por "ciclos" de cineastas). Da chamada quinta geração, estarão Zhang Yimou com "O Sorgo Vermelho" (1987) e Chen Kaige e seu "Adeus Minha Concubina" (1993). Já da sexta geração, estarão Zhang Yang ("Banhos", de 1999) e o citado Jia Zhang-ke.

A atriz, diretora e produtora Lucélia Santos, "íntima" da China há 20 anos por meio de viagens e projetos em co-produção, foi a principal articuladora do Imagem dos Povos para a programação dos filmes. Fã assumida do cinema chinês, Lucélia destaca o "ritmo de montagem" das obras. "Os cineastas fazem uma leitura visual da imagem que eles utilizam e há um tempo muito particular dentro da própria filmagem", exalta.

Povo arretado
Em relação ao Pernambuco, o Imagem dos Povos está mais enxuto, mas não menos significativo. "Em termos de quantidade de produções, é uma seleção menos generosa do que gostaríamos que fosse, mas está muito expressiva", afirma Adyr Assumpção. Ele se refere aos três principais trabalhos que serão exibidos - "Deserto Feliz", de Paulo Caldas, recentemente premiado no Festival de Gramado; "O Côco, a Roda, o Pnêu e o Farol", de Mariana Fortes; e "Árido Movie", de Lírio Ferreira; e a curtas como "Uma Vida e Outra", de Daniel Aragão, "No Rastro do Camaleão", de Eric Laurence, e "O Jumento Santo e a Cidade que se Acabou Antes de Começar", de William Paiva e Leonardo Domingues. "Os pernambucanos superam as adversidades de produção e distribuição para chegarem fora do Estado e atingirem outras regiões do Brasil e outros países".

O que sobressai, na visão de Adyr, é a presença forte da cultura estadual nas várias maneiras de narrar as histórias em questão. "Há a mistura das tradições com o uso de novas tecnologias, o que resulta sempre numa efervescência de idéias e criatividade". Katia Mesel, responsável pela organização e curadoria da mostra, reforça a fala de Adyr: "O audiovisual pernambucano é multicultural".

Imagem dos Povos - III Mostra Internacional Audiovisual de Ouro Preto. De 28/9 a 4/11, na cidade histórica. Entrada franca. Programação completa e locais de exibição podem ser consultadas no site www.imagemdospovos.com.br

Terça-feira, Setembro 25, 2007


O Ultimato Bourne: ação em carne viva



O que é esse filme?! Se vivêssemos num tempo passado, numa época em que tudo já não tivesse sido feito, eu diria que Paul Greengrass revolucionou o cinema de ação. O que ele faz aqui em termos de movimento, montagem, manutenção da tensão física e espacial, nada disso é brincadeira. Seu estilo não é o típico molde do gênero -- aquele "campo-contracampo" em que o espectador da ação vê momentos alternados do que está acontecendo.

Greengrass corta, recorta, pica e repica todas as cenas de tal maneira que é difícil não ter certeza de estarmos dentro do quadro, de não sermos algum olho que a tudo enxerga daquele corre-corre. O diretor inglês já tinha seguido essa forma em praticamente todos os seus filmes (inclusive no anterior A Supremacia Bourne), mas estou pra dizer que nunca como aqui -- nem mesmo no badalado Vôo United 93, que tinha outra pegada.

Existe um sentido de urgência em O Ultimato Bourne que torna o filme um objeto constantemente em movimento. Não é o protagonista que anda pra todo lado. Somos nós. Greengrass não se preocupa com muita lógica além daquela que se refere ao seu modo particular de filmar. Se num instante de menos de um segundo Bourne aparece pulando o muro, no instante de menos de um segundo seguinte ele já está arrombando um carro. É como se o que acontece dentro da imagem fosse mais rápido do que a própria imagem. É a velha discussão da forma em harmonia com o conteúdo: para lidar com o tensionamento dos temas do enredo de O Ultimato Bourne, só mesmo uma linguagem tão tensionada quanto.

É uma pérola do cinema físico, um estouro de ações e sensações, uma explosão cinematográfica como não se vê normalmente. Paul Greengrass alcança aqui um nível elevadíssimo para o gênero que se dispôs a trabalhar. Ele parece ter nascido para comandar a busca de Jason Bourne pela sua verdadeira identidade. Nós, daqui de dentro da sala escura, acompanhamos babando.


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